O custo do cuidar: uma conta que ninguém fecha por inteiro
Nunca esqueci o dia em que fiz meu primeiro exame MAPA. Aquele que mede a pressão de quinze em quinze minutos, dia e noite. Planejei tudo para que o dia fosse tranquilo. Não foi. De repente me vi em em uma ambulância a mil por hora com seu pai com uma hemorragia gastro esofágica, entrando numa UTI e a gente passando a primeira noite em claro, rezando para o telefone não tocar. Com um aparelho no braço apertando meu próprio sangue enquanto aparelhos monitoravam o dele.
Essa é a imagem que me ficou gravada como emblema do que é cuidar de pais que envelhecem. A gente cuida dos outros enquanto esquece o próprio corpo. Literalmente.
Meu pai foi um homem que planejou o futuro com a seriedade de quem aprendeu cedo que a vida não deve nada. Filho de uma viúva de 24 anos com quatro crianças, ele sabia que estabilidade não cai do céu. Concurso, previdência, seguros de vida, saúde cuidada. Genética boa, cuidados corretos. Eu quase acreditei que seria quase imortal.
A gente sempre acha isso dos pais. Ou simplesmente não pensa no contrário. E ninguém nos prepara para o momento em que eles começam a precisar de nós.
Começa devagar. Uma dificuldade com tecnologia, coisa de quem nasceu analógico. Depois esquecimentos. A carteira de motorista que não se renova. As contas que precisam de ajuda. E de repente a gente está numa ambulância, numa UTI. Sem nem saber como, a gente começa a conhecer rotina de hospital, a reconhecer no rosto da equipe de saúde qual o estado do nosso amado. A conhecer outros dramas. A ouvir aquele som dos aparelhos que medem os sinais vitais. A rezar para que continuam medindo. A compreender que o tempo da doença se faz a cada momento. Que não há previsão cem por cento correta e que as equipes de saúde fazem o que podem.
Nos vinte anos que se seguiram, aprendi de cor CIDs, bulas, nomes de médicos e fisioterapeutas. Sabia o protocolo de cada ala do hospital. Era reconhecida nas recepções e corredores. Passei feriados e viradas de ano como acompanhante. E fui esquecendo meus próprios exames. Postergando minhas consultas. Em duas décadas, consegui sair duas vezes em férias de dez dias.
A conta financeira tem número, dói, mas dá para calcular. Cuidadores, adaptações na casa, remédios, plantões. Quando os pais previram, como o meu pai fez, a estrutura aguenta, com esforço. Mas há uma outra conta que corre em paralelo e que nunca aparece em planilha nenhuma.
O custo emocional se instala sem pedir licença e vai tomando espaço. A identidade vai sumindo aos poucos. A gente era arquiteta, escritora, amiga, mulher com projetos e planos. Vai virando cuidadora em tempo integral, e o resto fica em suspenso. O trabalho em segundo plano. Os clientes, nem todos entendem. A vida pessoal, uma espécie de pendência adiada indefinidamente.
Aquele plano de saúde tão bom acaba sendo armadilha nos tempos finais de meu pai, esticando uma sobrevida que acabou lhe trazendo sofrimento. A gente aprende uma dura realidade onde a saúde é medida em números financeiros. Nem sempre em favor do paciente.
Ninguém te prepara para a despedida. Quando a doença atravessa o corpo de alguém amado e a gente reza para ter forças de deixar ir. E consegue se despedir, jurando que vai tomar seu lugar e cuidar da mãe. E ele se vai. E a gente fica com um sentimento de culpa por ter prolongado o impossível. É uma luta entre a sensação de racionalmente achar que se fez o que se podia e a sensação de que poderia ter feito diferente.
Não se esteve junto com ele na hora da partida. Não foi justo, a gente pensa. Mas engole tudo porque tem a mãe e outra rotina de cuidados.
E aí veio a pandemia. Eu e minha mãe. Minha mãe e eu. O meu aniversário em 2020 me demoliu de um jeito visceral, que não tenho outra palavra. Solidão no mais alto grau. Solidão de estar só com alguém precisando de muito cuidado. Medo de não dar conta.
Aqui está o que raramente se diz com clareza: essa conta recai sobre as mulheres de forma desproporcional e histórica. Não é acidente. É estrutura.
Pesquisas do IBGE confirmam o que qualquer mulher da minha geração já sabia na prática: mulheres dedicam em média o dobro de horas ao trabalho de cuidados em relação aos homens, mesmo quando ambas as pessoas trabalham fora. No envelhecimento familiar, isso se aprofunda. São as filhas que reduzem jornada. São as noras que reorganizam a rotina. E quando o cuidado é contratado, aparece novamente o rosto feminino, na maior parte das vezes de mulheres negras, idosas, com remuneração que não reconhece a complexidade do que fazem.
A cuidadora informal, a que não recebe porque é da família, carrega o que a gerontologia já nomeia com precisão: síndrome do cuidador. Exaustão, isolamento, adoecimento precoce. A pessoa que dedicou anos a preservar a saúde de outro termina frequentemente sem ter cuidado da própria.
O que muda esse quadro não é uma lista de dicas de autocuidado. É estrutura, é política, é escolha coletiva.
Em países escandinavos o cuidado de idosos é responsabilidade do Estado, não delegado à família e muito menos às mulheres da família. Existem redes profissionais pagas com dignidade, licenças para cuidadores, reconhecimento previdenciário do tempo dedicado a essa função. No Brasil o Estatuto do Idoso existe no papel. A infraestrutura real é rasa e a família, leia-se a mulher, tampa o buraco.
Há também um custo cultural que opera por baixo de tudo isso e que é o mais difícil de nomear. O cuidar é apresentado como extensão natural do afeto feminino. Quem se exaure é julgada. Quem pede reconhecimento parece ingrata. A narrativa do sacrifício como virtude sustenta um sistema que economiza bilhões às custas do esgotamento de metade da população.
Dito isso, tenho que ser honesta com outra parte da experiência.
Cuidar com afeto genuíno muda quem cuida. Há uma pós-graduação em vida que acontece ali, silenciosa e intransferível. Aprendi sobre fé e sobre medo de um jeito que não existe em livro. Estar ao lado da minha mãe quando ela deu o último suspiro, acordá-la com as músicas que ela cantava para mim quando pequena, ver no olhar dos dois aquele brilho de "valeu a pena", isso não tem equivalente em nenhuma outra experiência que eu conheça.
O plano meticuloso do meu pai, que às vezes me pareceu exagero, foi o que me permitiu dar a eles dignidade nos anos finais. E quando chegou a hora da mãe, a medicina já havia entendido que prolongar o inevitável é desumano. Pude ficar. Pude me despedir.
Fiquei com uma paz estranha. Com alguma culpa, que imagino que seja inevitável. E com uma clareza: fiz o melhor que eu podia.
A pergunta que fica não é retórica. Quem vai cuidar de nós?
Faço essa pergunta como arquiteta que pensa espaços para o envelhecimento, como mulher de 69 anos que passou por isso na pele, e como alguém que recusa a responder com cruzar de dedos. Cuido de mim hoje, com alimentação, movimento, mente e emoção, porque atravessei esse período e saí sabendo exatamente o que quase perdi de mim mesma.
Mas o cuidado individual não basta e nunca bastou. A conta só fecha de verdade quando a sociedade decide, de fato, assinar o cheque junto. Com política pública, com valorização de quem cuida, com cidades pensadas para o envelhecimento, com uma cultura que pare de tratar o sacrifício feminino como paisagem natural.
Porque não é paisagem. É escolha. E escolhas podem ser feitas de outro jeito.
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