Sonhos e realidades
E quando acordei, e lógico que a primeira coisa que fiz foi estender a mão e trazer o aparelho de volta à vida, gesto tão corriqueiro como bocejar, senti uma estranheza. Como assim? Porque não continuava sem me conectar?
Vivi tanto anos apenas levantando, me lavando, tomando café, escutando rádio para saber as notícias e lendo o jornal. Aquele impresso que trazia notícias de ontem e era mais que bem. Hoje nem o digital já leio porque as notícias já são velhas. Tudo envelhece muito rápido. Menos quem tem uma poupança mais abonada que permita driblar o tempo. Mas só na aparência. Porque é quase impossível seguir a velocidade do mundo.
Mesmo para as pessoas curiosas como eu e que se julgavam bem adaptadas ao mundo.
É surreal como a linguagem muda, os canais de onde buscar notícias críveis vem diminuindo. Assim como as certezas e a credibilidade dos fatos. Vejam que é preciso debater sobre se a Terra é plana ou não. Ou se as mulheres devem votar ou não. E estas pautas antidiluvianas convivem com linguagens tecnológicas que parecem ter saído de um sonho de Salvador Dali.
A arte continua. Ainda bem.
E os trabalhos manuais com encontros sem celular estão crescendo. Eu mesma me dou conta que a leitura analógica é muito mais prazerosa que a digiatl. Sem contar que meu cérebro a grava mais. E melhor.
As imagens de IA abrem mil possibilidades. E também trazem um gosto de coisa chatinha (sem trocadilhos) como aqueles tempos em que descobriram o ppt da vida e inundaram nossas caixas de correio com milhões de power points sobre tudo. Email agora é coisa do passado. Só serve para spam, assim como celular falado. Inusitado, a gente tem aparelho de telefone mas não é para falar. Nem ligar direto que virou sinônimo de má educação. Pelas regras atuais, o melhor é recados pelos app de mensagens. Talvez um dia sinais de fumaça voltem, quem sabe. Na nuvem já temos a nossa vida...
Aliás, temos e como é dificil achar algo quando se precisa. Entre zilhões de arquivos, videos e fotos, cadê de achar aquele que a gente quer? Haja organização! Sim, tem aplicativo para organizar. Mas e a vontade e tempo para aprender? Por sorte agora tem IAs para fazer isso pela gente. Mas cadê coragem? Se a bichinha já apagou dados de empresas que devem ter contratado gente muito competente, quem diz que ela não vai apagar toda uma década minha de arquivos e fotos?
Talvez o meu sonho seja bem um sinal do universo para que eu relaxe e viva mais no mundo analógico. Deixe a curiosidade de lado e me dê conta que a vida é o que vivemos aqui fora, enquanto fazemos planos para o amanhã (já dizia o Lennon, né).
E falando em sonhos, na outra noite tive um bem interessante, onde reunia vasos e sementes para plantar e ao findar todos eles estavam destruídos, mas com flores exuberantes e exalavam vida e não destruição. E tinha outros simbolismos junto e obvio que fui consultar meu guru digital. Sim, tenho um prompt para analisar sonhos de acordo com teorias psicanaliticas. E batata! Meu auxiliar cibernético, cuja imagem gerada por ele mesmo está no início do texto, me fez uma análise tão fechadinha que tive que concordar com ele. E com a pergunta que ele deixou parando no ar: Quais vasos da minha vida eu continuo tentando preservar, quando talvez seja justamente sua ruptura que permitirá às sementes finalmente florescerem?
Clichê? Rasteiro? Profundo? Para quem lia o I Ching e abria livros ao acaso procurando sinais, esta é apenas mais uma maneira de dialogar comigo mesma. Porque afinal a vida é meio isso: um equilíbrio entre sonhos e realidades. E quem disse que a vida digital é real? Ou que a vida real não seja um grande, maravilhoso e louco sonho?

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