Entre o cuidado e o excesso
Eu costumava dizer brincando que devia existir um manual para fazer mães obedecerem às filhas. E vejo que é um sentimento bem comum aos filhos e filhas que cuidam de seus pais. Ou que se preocupam com eles quando ficam mais velhos.
Fico imaginando aqui um diálogo imaginário entre mãe e filha. O cenário: mãe já com mais de oitenta anos, fazendo birra porque não quer tomar os seus remédios. A filha com cinquenta, atarefada entre o trabalho, o marido e os filhos tentando que ela siga as orientações médicas.
A mãe fazendo uma careta quando a filha estende os comprimidos: Não vou tomar isso agora. Diz a mãe com ar de fim de papo.
-Vai, mãe.
-Depois. Ela olhando a filha com aquele olhar matreiro de sempre.
-Depois quando, mãe?
A mãe cruza os braços. E a filha reconhece o gesto na mesma hora. Afinal, tinha passado boa parte da adolescência fazendo exatamente isso.
-Estou pensando no teu bem, diz a filha já com aquela voz condescendende.
A mãe sorri de lado. E dispara:
-Essa frase não é tua!
-É tua. Replico a filha. Acabo de assimilar.
Por um instante, as duas acabam rindo muito.
A filha relembra quantas vezes ouviu essas mesmas palavras. Quando queria sair sozinha, dormir tarde, viajar, escolher seus próprios caminhos. A mãe bem mais jovem que ela agora, repetindo que era para o seu bem. E a filha quando adolescente revirando os olhos. Com a certeza da juventude de que a mãe exagerava.
Hoje sou eu quem insiste para que ela tome os remédios, faça os exames, use a bengala quando o joelho ameaça falhar, pensa a filha com os seus botões.
-Tu manda demais! a mãe reclama.
-E tu obedece de menos. A filha fala.
A mãe acaba rindo e perguntando:
-Quem te ensinou a ser tão teimosa?
-Tu! A filha exclama!
As duas ficam em silêncio.
Existe uma linha muito fina entre cuidar e controlar. Quando era a mãe e a filha, essa linha já era difícil de enxergar. Agora, com os papéis embaralhados pelo tempo, continua sendo.
Até onde vai a liberdade de quem amamos? Em que momento a preocupação começa a ocupar o espaço das escolhas? Quando insistimos porque sabemos dos riscos e quando insistimos apenas porque temos medo?
Cena final: A mãe finalmente pega o comprimido.
-Pronto. Feliz? Pergunta com ar insolente para a filha, enquanto toma as pílulas.
-Um pouco. Diz a filha, suspirando de alívio.
-Então não te acostuma. Dispara a mãe com toda a sua autoridade!
Olho esta imagem imaginária e sorrio. Talvez crescer seja descobrir que nenhuma geração inventou a resposta. Pais e mães criam filhos tentando protegê-los do mundo. Filhos adultos tentam proteger pais que conhecem o mundo há muito mais tempo. Em ambos os casos, sobra carinho, falta certeza e a pergunta continua a mesma: onde termina o cuidado e começa o excesso?

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