As telas da memória
O cheiro se mistura com o ruído da madeira rangendo que escuta com tamanha precisão que poderia jurar que acontecia aqui e agora, neste momento presente.
De real apenas a pipoca, cheirando a óleo e manteiga. Luxo de uma tarde preguiçosa em um desses domingos ensolarados em que a vida até parece bonita como era na infância.
Na infância tinha matiné no cinema da pequena cidade de sua avó, onde passava as férias com seus pais. Era uma sala grande que a gente entrava com fascínio. Lá fora um prédio de dois pavimentos, caiado de branco, na frente da igreja na praça principal. Na verdade, a única do povoado. Lá dentro as cadeiras de palha, muito simples, ordenadas em fileiras que acomodavam as pessoas e seus filhos.
Os filhos. Nós.
Éramos a gurizada que aguardava aquele momento como se fosse Natal, Páscoa e Dia das Crianças. Tudo assim junto. E nem importava o filme. A tela enorme se abria e mostrava uma magia que não sabiamos definir. Melhor que livros de história. Eram desenhos e gente que se movia!
Tinha a Branca de Neve que comia a maçã da bruxa, e tudo era muito real. Lembra do susto que teve e de como teve que sair do cinema chorando, sob protestos de sua irmã mais velha! Mas os dalmatas...esses não! Eram tão bonitos. Tinha Teixeirinha cantando Coração de Mãe que a meninada chamava de outro jeito que nem convém lembrar.
Cada sessão era uma vibração única.
A espera pela hora da matiné, o ritual de colocar a roupa nova e sair penteados e limpinhos. Se bem que a poeira das ruas se encarregava de logo sujar de novo. Tinha fila para comprar o ingresso. Hora de olhar e intigar com os colegas. E sempre olhar meio vitorioso, meio com pena para o menino engraxate que nunca conseguia assistir nada. E depois ficava implorando para que a gente contasse um tanto do filme para que ele pudesse se gabar com os vizinhos da rua onde morava.
A entrada, que nunca era silenciosa. Era uma correria pelos melhores lugares, por mais que pai e mãe da gente, tentassem nos aquietar.
O Seu Mário, o homem da máquina, sempre chegava meio atrasado, para desespero das pessoas, principalmente os pequenos. Subia as escadas para a saleta com os projetores, fazendo barulho com sua perna manca. Ali era o momento em que ele assumia um papel fundamental na vida da cidade. Não era o prefeito, nem o padre, muito menos o gerente do BB.
Era ele, Seu Mário, aquele homem comum, com a perna mais curta, quem comandava a magia.
A luz se apagava. E com ela nossas vozes.
A tela se enchia de vida e só era interrompida pelos suspiros, ou gritos de medo ou surpresa. Quando o bom da história estava no auge, um barulho rápido, luzes se acendendo. Intervalo para a troca de bobina no filme.
Os pais saiam para fumar um cigarro. As mães tentavam acalmar a gurizada que falavam sem parar enquanto batiam os pés pedindo o recomeço da sessão.
O escuro se fazia enquanto a tela readquiria vida.
E assim ia até aquela palavrinha mágica e meio desconsoladora que aparecia na frente da gente: FIM.
Algumas vezes, naquela outra língua de gringo que a gente aprendeu a reconhecer desde pequeno: THE END.
A pipoca deixa um gosto entre amargo, entre salgado na boca. Olha o prato vazio como quem olha fim de filme. Com um misto de saudade e vontade de quero mais.
A tarde continu preguiçosa lá fora, cheia de um roteiro de ação que nem conseguia imaginar.
Aqui dentro a sessão pedia fim.
Levanta, apaga a luz e vai embora.

Comentários
Postar um comentário