Essa tal de acessibilidade digital
O mundo mudou tanto de décadas para cá. Lembro do tempo dos amansa-burros e das enciclopédias que traziam respostas em que a ligeireza ainda não tinha nos tomado de assalto. Os mais velhos guardavam um mundo de experiências e sabedorias que os mais jovens tinham vontade de um dia experenciar também.
Marlene, que mora na casa da esquina, entrou segurando a sacola de pano no braço e olhando a caixa, disse;
A vida corria mais solta e com tempos mais definidos.
Hoje tudo parece mais embaralhado e muitas pessoas olham os jovens com sabedorias que elas já não alcançam. Não talvez com a mesma rapidez.
Fala-se hoje em acessibilidade para vários tipos de deficiências. Mas e a tal de acessibilidade digital? Como tratar de fazer as telas falarem linguagens que todos entendam em tempos em que não dominar estas tecnologias nos tornam analfabetos? Ou dependentes de um amparo que nem sempre temos por perto?
Convivo com a internet desde o final dos anos 90 quando fazia o mestrado e a rede era quase que só usada nos centros de pesquisa. A informática, o uso de computadores, a comunicação digital não são problemas para mim. Ou eu achava que não.
Em tempos de aplicativos para tudo, canso de me deparar com imensas dificuldades de navegação. Muitos parecem ter sido feitos por quem nunca se interessou como o usuário vai usar. Se vai ter dificuldades, se vai conseguir encontrar o que quer. E não existem praticamente alternativas que não sejam as digitais. E se existem, muitas também não são treinadas para lidar com um o público. Em especial, um público mais analógico.
Analisando os comentários que tenho encontrado na web a respeito do tema, fiz um roteirinho de uma novela que, infelizmente, não é pura ficção...
No mercado do Seu Manuel
Sexta de manhã. Gente da vizinhança entrando para comprar duas coisas e acabando parada perto do caixa, naquele lugar que é tão corriqueiro e guarda a lembrança de lugares onde as pessoas se escutam mesmo que alguns minutos.
O rádio, ao fundo, toca baixo uma música antiga.Marlene, que mora na casa da esquina, entrou segurando a sacola de pano no braço e olhando a caixa, disse;
-Bah, sabe que passei três dias tentando entrar naquele aplicativo do INSS!
Tereza, a caixa, não respondeu de imediato, compenetrada passar as compras. Ninguém na fila também respondeu de imediato. O assunto caiu no meio deles como caem certas notícias pequenas que já viraram rotina.
-Três dias, ela repetiu. E no fim apareceu reconhecimento facial. Eu fiquei olhando para minha própria cara na tela como quem pede licença para existir.
Seu Manuel soltou um riso curto atrás do outro caixa:
-Essas máquinas implicam com a gente.
Mas nem era implicância. Era uma outra coisa mais funda. Uma sensação meio difícil de explicar, de que o mundo foi sendo reformado sem consulta. Tiraram balcões, cadeiras, pessoas. Botaram senha, código, confirmação em duas etapas. Como se envelhecer fosse um erro técnico.
Eunice largou as bananas na balança.
-Meu pai parou de tentar. Chegou um momento em que ele tinha medo de apertar qualquer coisa. Medo de errar. Tu entende? O homem trabalhou quarenta anos e começou a pedir desculpa porque não sabia mexer num celular.
O ventilador girava meio torto no teto.
Jaime pegou um pacote de café e entrou na conversa sem pedir licença.
-E ainda tem golpe. Porque o sujeito já está inseguro, daí aparece mensagem falsa, link falso, banco falso. Roubar velho virou negócio lucrativo.
Nora, que morava no edifício do lado e fazia tudo pelo telefone, concordou balançando a cabeça.
-Até para quem sabe usar é complicado. Esses sistemas parecem feitos para cansar as pessoas.
Talvez fosse exatamente isso. Cansaço.
As pessoas cansadas. A cidade inteira cansada. Cansada de filas invisíveis, de senhas esquecidas, de atualizações obrigatórias, de ouvir que tudo ficou mais simples enquanto a vida prática fica cada vez mais cheia de obstáculos escondidos.
Luciane entrou no mercado segurando a filha dormindo no ombro.
-Fui recuperar minha conta GOV e mandaram procurar o TRE.
Ela riu depois de falar, mas daquele jeito que quase é raiva.
-Daqui a pouco vão pedir certidão da infância para acessar consulta médica.
Seu Manuel passou as compras devagar no caixa. Devagar mesmo. Como quem ainda acredita que gente não devia ser atendida na velocidade de um scanner.
-A Maria prefere resolver tudo pelo celular por causa da perna, disse ele. E eu entendo. Ajuda muito. O problema é quando vira obrigação. Quando não sobra alternativa.
A frase ficou ali. Pairando no ar.
Porque talvez seja isso que incomode tanto. Não a tecnologia. Nem o celular. O que pesa é a brutalidade silenciosa de um tempo que transforma adaptação em requisito de sobrevivência. Quem acompanha segue andando. Quem não acompanha começa a desaparecer aos poucos dos serviços, dos bancos, dos direitos, da própria cidade.
Marlene pegou o troco.
Na porta, antes de sair, ainda olhou para um cartaz institucional do governo municipal que estava grudado na parede.
-Inclusão digital, ela disse. Nome bonito.
Depois foi embora pela calçada quebrada da sua rua.
Tereza, a caixa, não respondeu de imediato, compenetrada passar as compras. Ninguém na fila também respondeu de imediato. O assunto caiu no meio deles como caem certas notícias pequenas que já viraram rotina.
-Três dias, ela repetiu. E no fim apareceu reconhecimento facial. Eu fiquei olhando para minha própria cara na tela como quem pede licença para existir.
Seu Manuel soltou um riso curto atrás do outro caixa:
-Essas máquinas implicam com a gente.
Mas nem era implicância. Era uma outra coisa mais funda. Uma sensação meio difícil de explicar, de que o mundo foi sendo reformado sem consulta. Tiraram balcões, cadeiras, pessoas. Botaram senha, código, confirmação em duas etapas. Como se envelhecer fosse um erro técnico.
Eunice largou as bananas na balança.
-Meu pai parou de tentar. Chegou um momento em que ele tinha medo de apertar qualquer coisa. Medo de errar. Tu entende? O homem trabalhou quarenta anos e começou a pedir desculpa porque não sabia mexer num celular.
O ventilador girava meio torto no teto.
Jaime pegou um pacote de café e entrou na conversa sem pedir licença.
-E ainda tem golpe. Porque o sujeito já está inseguro, daí aparece mensagem falsa, link falso, banco falso. Roubar velho virou negócio lucrativo.
Nora, que morava no edifício do lado e fazia tudo pelo telefone, concordou balançando a cabeça.
-Até para quem sabe usar é complicado. Esses sistemas parecem feitos para cansar as pessoas.
Talvez fosse exatamente isso. Cansaço.
As pessoas cansadas. A cidade inteira cansada. Cansada de filas invisíveis, de senhas esquecidas, de atualizações obrigatórias, de ouvir que tudo ficou mais simples enquanto a vida prática fica cada vez mais cheia de obstáculos escondidos.
Luciane entrou no mercado segurando a filha dormindo no ombro.
-Fui recuperar minha conta GOV e mandaram procurar o TRE.
Ela riu depois de falar, mas daquele jeito que quase é raiva.
-Daqui a pouco vão pedir certidão da infância para acessar consulta médica.
Seu Manuel passou as compras devagar no caixa. Devagar mesmo. Como quem ainda acredita que gente não devia ser atendida na velocidade de um scanner.
-A Maria prefere resolver tudo pelo celular por causa da perna, disse ele. E eu entendo. Ajuda muito. O problema é quando vira obrigação. Quando não sobra alternativa.
A frase ficou ali. Pairando no ar.
Porque talvez seja isso que incomode tanto. Não a tecnologia. Nem o celular. O que pesa é a brutalidade silenciosa de um tempo que transforma adaptação em requisito de sobrevivência. Quem acompanha segue andando. Quem não acompanha começa a desaparecer aos poucos dos serviços, dos bancos, dos direitos, da própria cidade.
Marlene pegou o troco.
Na porta, antes de sair, ainda olhou para um cartaz institucional do governo municipal que estava grudado na parede.
-Inclusão digital, ela disse. Nome bonito.
Depois foi embora pela calçada quebrada da sua rua.

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