A horta do nono andar - uma pequena crônica urbana
Morava sozinha há vinte anos.
Aos noventa anos, dona Lúcia ainda acordava antes do sol. O corpo mais lento já não obedecia com a rapidez de décadas atrás, mas havia ainda uma disciplina silenciosa em seus gestos. Abria as janelas do apartamento no nono andar, observava Porto Alegre ainda meio adormecida, colocava água para o café enquanto escutava as aves e o barulho da cidade que amanhecia.
O prédio, apesar de cheio, parecia um organismo cansado. Gente entrando e saindo sem se olhar. Portas automáticas. Entregas deixadas na portaria. Elevadores silenciosos.
O terreno vazio do térreo começou a inquietá-la. Nem tanto pela inutilidade física já que não havia muitas crianças mais para brincar por ali. Mas pela outra.
Numa terça-feira comum, apareceram ali três vasos. Cebolinha. Alecrim. Manjericão. Nada grandioso.
Os primeiros olhares dos vizinhos vieram com ironia educada.
"Bonitinho."
"Mas será que isso dá mosquito?"
"Quem vai cuidar?"
O apartamento 74 ficou de persiana fechada. Sempre ficara. Mas agora parecia uma resposta.
Dona Lúcia insistiu mesmo assim. Separou garrafas PET para irrigação por gotejamento. Pediu aos porteiros caixas de madeira que sobravam das entregas. Aproveitou restos de poda da praça próxima. O lixo orgânico de alguns apartamentos virou adubo.
Miguel, um rapaz de dezenove anos vindo do interior para estudar engenharia, apareceu primeiro por curiosidade. Morava sozinho, no apartamento que tinha sido dos avós. Passava os dias entre estágio, ônibus e telas. Disse que nunca havia plantado nada na vida.
Dona Lúcia entregou a ele uma muda de tomate-cereja como quem entrega responsabilidade.
"Se morrer, você aprende também."
Ele riu. Voltou na semana seguinte.
Depois vieram Helena e Augusto, recém-aposentados tentando entender o que fazer com o tempo depois de quarenta anos de trabalho cronometrado. Construíram bancos com pallets descartados. Helena começou a pesquisar plantas alimentícias não convencionais. Augusto, que mal conhecia os vizinhos do andar, passou a conversar durante horas na entrada do prédio. Os porteiros trouxeram sementes de casa. Aprenderam a reaproveitar tonéis de água da chuva.
Nem tudo foi bonito.
Houve reclamações no grupo do condomínio. Discussões sobre uso do espaço. Algumas plantas morreram no verão. Certas semanas ninguém aparecia. O entusiasmo coletivo oscilava como os ciclos da própria terra.
A persiana do 74 continuou fechada por meses.
Até a tarde em que a porta da cobertura abriu devagar e entrou Seu Renato, setenta e poucos anos, chapéu na cabeça, sem dizer nada. Olhou os canteiros por um tempo. Examinou a compostagem com desconfiança. Perguntou se havia espaço para uma muda de roseira que a mulher havia deixado quando foi embora.
Ninguém perguntou nada.
Dona Lúcia apontou um canto perto da grade.
Ele plantou. Foi embora sem se despedir. Voltou no dia seguinte para regar.
Numa tarde de entardecer cor de ferrugem, dona Lúcia sentada perto dos vasos de alface via Miguel chegando cansado da faculdade, Helena separando sementes secas em pequenos envelopes reciclados, os porteiros levando baldes de composto, moradores trocando limões por manjericão, Seu Renato de joelhos na terra, de costas para todos, cuidando do que era seu e já não era só seu.
Crianças aprenderam que cenouras não nascem embaladas. Idosos encontraram para onde ir de tarde. Jovens descobriram que envelhecer pode ter outro rosto.
Ela não pensou em nada disso naquele momento.
Só tomou o café que havia ficado frio e olhou o sol descendo atrás dos prédios de Porto Alegre.

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