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Pinceladas de um março que trouxe tantas inquietações

 Edição · Março 2026



O Diário de Março

por Elenara Stein Leitão

Um mês de guerras distantes e sapatos jogados no chão. De pires quebrados e dias de chuva miúda. De cidades que fazem aniversário com as águas ainda no horizonte. E de gente que parte, deixando essa forma de buraco que só os muito vivos sabem abrir.
Nesta edição
Cidade segura é questão de projeto
A responsabilidade que ninguém quer
O dia depois do 8 de março
Porto Alegre, meu porto ex alegre
Os três porquinhos e a acessibilidade
Despedidas que pesam
Calçadas, raízes e soluções concretas
Poesia · Notas breves

Uma Cidade Segura para Mulheres é Também Uma Questão de Projeto

Uma cidade segura para mulheres não seria maravilhoso? Pois ela é também fruto de decisões de projeto e implantação. Espaços que iluminem as pessoas. Ruas com gente, comércio aberto, janelas voltadas para a vida. E quando o trajeto entre casa, trabalho, escola e mercado não passa por terrenos vazios ou caminhos que intimidam.

Calçadas cuidadas, iluminação pensada para o pedestre, mobilidade integrada, fachadas ativas e redes de apoio visíveis transformam o espaço público em território de convivência.

Se uma cidade é segura para uma mulher caminhar à noite, ela será segura para todos. Projetar cidades mais seguras é, antes de tudo, um ato de responsabilidade coletiva. E de justiça urbana.

Calçadas, Raízes e o Problema que Tem Solução Barata


A imagem que vemos é o retrato fiel do fracasso da gestão individual das calçadas: um conflito direto entre arborização urbana e acessibilidade, onde o resultado é um piso intransitável, perigoso para idosos e impossível para cadeirantes.

A raiz do problema não é a árvore, mas o uso de pavimentos rígidos que impedem a raiz de respirar em profundidade, forçando-a a subir e quebrar a superfície.

A solução mais prática pode não envolver tecnologias caras, mas uma mudança de design e material: alargamento do canteiro, uso de material drenante, concreto permeável. E uma pergunta que raramente se faz: quem vai fazer isso?

Destinação de verbas que hoje vão exclusivamente para o asfalto para o passeio. Recursos para cidades esponja que resolvam drenagem e acessibilidade simultaneamente. E um sério debate sobre a diluição dos custos de manutenção no IPTU, tornando o serviço público e universal.

A Conversa que É Muito Sua

Tenho lido e recebido mensagens que falam da responsabilidade feminina na criação dos filhos, especialmente os homens. Repararam que a mulher não é só vítima? Ela também é culpada ao educar, ao não buscar ajuda, ao não reagir, ao voltar atrás?

E os homens? E os pais? Quando vamos apontar para as causas deste descontrole que afeta a todos? Os homens que são coagidos por uma sociedade machista e patriarcal a serem fortes e competitivos. Que se acham no direito de não ajudar a criar, que reclamam da pensão, que traem sem culpa, que fogem, que gritam, que se acham donos.

Eu sei, você homem que me lê não é assim. Os outros sim. Embora você não conheça nenhum, não é mesmo? Mas sua mãe, irmã, namorada, esposa, filha, neta conhece. Esta conversa é muito sua.

E Agora, Maria?

E agora, Maria?
A flor murchou
A homenagem encheu as redes
O dia passou
A realidade voltou

Teu homem melhorou?
Refletiu?
A bancada de políticos se mexeu
para as verbas que faltam nas delegacias da mulher?

Já podes sair mais tranquila às ruas?
Ficar em paz na tua casa?

As flores murcharam
Até o próximo 8/3

Parabéns guerreira. Sobrevivente. Mulher.
(Mas não é parabéns que queremos. É respeito. E liberdade)

Meu Porto, Meu Luto, Meu Amor

Minha Porto Alegre, cidade de escolha e adoção, para a menina nascida no interior. Primeiro o olhar encantado das visitas aos prédios e movimentos. Depois a morada ao lado da Catedral. Praça da Matriz era pátio das brincadeiras. Estudos na biblioteca pública. E o Museu Júlio de Castilhos, vizinho de casa.

Uma pausa em Brasília, a outra cidade do meu coração. O olhar de cima na chegada de avião. O olhar amplo de enfim entender o tamanho do Brasil. A volta. Outro endereço. Amor que se renova convivendo com os estranhamentos de me sentir forasteira na minha cidade de escolha.

Orgulho da cidade pioneira em tantas lutas. Tristeza pelas mesmas lutas se esvaindo em descaso com o meio ambiente e patrimônio ambiental. Meu Porto Ex Alegre invadido pelas águas da omissão e escolhas em outras direções.

Hoje minha cidade faz aniversário. O dia nublado se agua de gris. Mas quem sabe dos retalhos de memórias e vida se reconstrua um futuro mais inteiro e o Porto possa voltar a ser alegre.

Os Três Porquinhos, o Lobo Mau das Quedas e a Acessibilidade que Não é Luxo

Durante o último Fórum Social Mundial da Pessoa Idosa aqui em Porto Alegre, tive a tarefa de substituir a companheira Grace Gome - @psicologia.humanismo. Ela vem desenvolvendo uma contação de histórias baseada nos tradicionais contos de fada, adaptando-os à vida moderna, aos processos de envelhecimento e ao debate da violência de gênero.

Foi muito interessante contar a história dos três porquinhos com adaptação às casas e à falta de acessibilidade que dá ensejo para que o Lobo Mau das quedas, da falta de organização e de cuidados com espaços funcionais e afetuosos, entre e cause estragos.

Olhar a nossa realidade com olhos de magia pode nos fazer ver aspectos da nossa vida que não veríamos de outra maneira. Acessibilidade não é luxo. É lei. É respeito. É necessidade.

Do Que Se Faz a Vida

De momentos. Sejam felizes, melancólicos, intensos ou simplesmente deixados passar. Paradoxalmente, temos medo da morte. E nos afastamos da vida. Que é feita dos agoras que deixamos passar com o coração no passado e de olhos fixos no amanhã.

Pensar a vida como uma construção equilibrada de sobrevivência material, espiritual e emocional, sem fanatismos, nos aproxima daquela luz que se chama sabedoria.

Acordar Antes do Sol

Acordar antes do sol nascer. Gosto. Sem despertador, que nunca usei. Gosto da aurora. Gosto do por do sol. Preciso de umas duas horas para me centrar no mundo. Levantar, saber as novidades, fazer café, pedalar pelo menos 40 minutos olhando o Guaíba e o movimentar da cidade. Escrever. Ouvir música. Pensar comigo.

Depois deste ritual estou pronta para arrumar a cama e começar o dia. Entender nossos ciclos e nosso ritmo faz parte das pequenas sabedorias da vida. Se movimentar também.

Águas de Março

Música suave comendo os ouvidos
Sol encoberto por nuvens de chuva miúda
Pedalo sem sair do lugar
Me hidrato de memórias e saudades

Águas de março que chegam lavando
E eu continuando

Das Pequenas Maravilhas

Um pequeno cogumelo que me leva a histórias de gnomos
e magias da infância
O cactos que me lembra que, mesmo os espinhosos,
revelam belezas
E as sementes que secam
e são sempre promessa do amanhã

Ainda posso dormir sem ameaças de bombas,
a não ser as internas.
E pedalo sem ir a lugar nenhum,
apenas para exercitar o corpo.
E escrevo para exercitar a mente.
E sinto para não deixar a emoção esmorecer.

03/03Em vários lugares do mundo, os senhores da guerra decidem que o baile é das bombas e balas. Fico aqui com a leveza dos pássaros e o desejo que um dia eles sejam apenas lembranças ruins. Embora creia que quem será lembrança, seremos nós.
11/03Encontro muito gratificante na rede Calábria, falando sobre o coletivo Metamorfose da Vida e o Movimento Sociedade Sem Idadismo. Debate rico com trocas de vida e experiência. Participar desses grupos tem me proporcionado momentos de muita descoberta pessoal.
19/03Quebrei o pires de memória da adolescência. A eu de um tempo atrás teria pensado em má sorte. A eu de hoje sorriu e seguiu, pensando no Espinosa e na vida que se faz, independente das circunstâncias. Fiquei triste pelo pratinho. Me lembra tantos bons momentos, que sei que estão também guardados em mim.
21/03Feira de livros no Chalé da Praça XV. Gente que escreve e lê é sempre amigável. Com sensação de 37 graus e abafamento atroz, o calor humano amenizou o suor. Acabei até dançando. É bom ver gente. É necessário ao bem estar emocional.
30/03Um dia acordei eu velha, menos que meus pais, mais que muitos avós. Ainda aprendiz e buscante. Ainda reavivando árvores e casas da memória. Saberei eu amar ainda depois de tantas dificuldades? Literatura existe para também nos realinhar em um dia de mormacenta tensão.

De momentos e maravilhosidades. De cidades que doem e de gente que ilumina. De raízes que teimam em subir à superfície, seja no asfalto, seja em nós. A coerência entre o que sentimos e o que fazemos ainda é a única forma de resistência que vale a pena.

Seguimos.

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