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Das ruas da minha infância

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Tão grandes as ruas da minha infância! Maiores por ser eu tão pequena. Eram seguras, convidativas para um caminhar, um brincar de amarelinha. Novo Hamburgo, uma cidade próxima à Porto Alegre, com ruas tão limpas que parecia não haver habitantes. Nossa casa, branca como as nuvens, ficava em cima de um morro. Nos verões escaldantes, faltava água. Íamos de sacolinhas, a pé, até o Clube Aliança. Piscina e o banho que, fora de casa, tomava ares de aventura. Anos mais tarde, fui passar um carnaval em Laguna/SC, na casa de um pescador. Eu e uma turma de jovens urbanos. Além do piolho, que pegamos na noite em colchões conjuntos, também a água faltava. O jeito era pegar um barquinho, atravessar as águas e ir tentar um banho no camping local, rezando para que nos confundissem com os barraqueiros de lá. Ou comprar um no barzinho simpático, cujo banheiro tinha uma janela enorme que dava para uma mata. Tomara não tivesse ninguém ali. Bons tempos em que o celular não tinha sido inventado, nem as...

Do ano que passou pela minha janela

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Num dia de março deixei de sair  Mundo virou uma série apocalíptica e distópica No início, solidariedade/aplausos nas janelas Resiliência posta à prova Cursos/lives/informação/ nunca a conexão fez tanto sentido Aniversários em zoom/Casamentos vistos na tela   Fotos da janela/pés ao sol Magnólias desabrochando na imaginação Máscaras onde antes batom e sorrisos Medo/medo/medo/medo das ruas, do vírus, dos zumbis, da ignorância/ medo das pessoas que achava conhecer Rotina se adaptando/liberdade é coisa de escolha humanos que somos/somos? De repente um ano/365 dias/ Horas, segundos, sensações.  Algumas de alívio, risadas e descoberta Outras de angústia O ano passou na minha janela passei/passamos/aguardamos Sorrimos/choramos/comemos/bebemos Num dia de março se foi um ano Quantos mais? Massacre/incompetência/negacionismo Hordas clamando por aglomerações em meio a uma pandemia  Economia, bradam! Espertos fossem, seguiriam os rumos da ciência quem o fez, abre suas porta...

Soulmates ou o pedaço da laranja em um teste

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Entre escutar Fábio Jr gemendo palavras de alma gêmea-coraçãoooo e o dia a dia de uma relação existem algumas diferenças na vida, até mesmo de quem acha que encontrou a sua metade da laranja . Li certa vez, nessas leituras que adolescente adora, que a humanidade era feita de hermafroditas que desagradaram algum deus raivoso que, como castigo, separou aqueles seres em dois que, desde então, se procuram para promover a sua união perfeita. Sonhos de consumo, ideia fantasiosa, energias que se atraem, quem nunca procurou a sua metade em amores perdidos ou achados pela vida? E se existisse em algures um teste que nos colocasse em contato com a NOSSA alma gêmea? Eis o mote da série Soulmates (amazon prime). Mais que um aplicativo de encontros, uma promessa de achar a pessoa certa, aquela única que, em meio de bilhões de seres existentes no mundo, vai completar a nossa ansiedade de perfeita união. Parece bom, não é verdade?  Mas e se? Como no filme de Cartas para Julieta, a pergunta básic...

O coração pensa constantemente - reflexões sobre o luto e a vida

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  O coração pensa constantemente. E irradia  impulsos eletromagnéticos com uma potência que nos conecta ao universo. Não por acaso, escolhi uma frase de vida para começar a falar do romance de Rosângela Vieira Rocha  que se chama O Coração Pensa Constantemente . Contando a história de vida e morte de duas irmãs, purga sua dor com o seu próprio luto. Acompanhei pelas redes sociais muito desse seu processo pessoal e a dor pela morte sofrida de sua irmã.  "cada luto é único e nenhuma perda se parece com a outra. De nada serve ter frequentado essa 'escola', pois não há aprendizagem e muito menos diplomas. Ninguém está preparado para a morte." Luto. É quando o coração da gente soluça.  N ada aproxima mais os seres humanos que a dor de perder alguém amado. Nos dias de pandemia que vivemos, essa dor se multiplica pelos milhões que morrem e pela ausência sofrida que deixam em outros milhões pelo mundo. Foi com esse sentimento, entre o meu particular e o geral e mundial...

Inspiração do dia - buscando

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Café e rádio. Companheiros do despertar. Nem sempre notícias, não mais, elas me causam algum desconforto. Só as mais urgentes. Como defino? Não defino, só ligo no início da manhã, naquele tempo de organização e colocação do espaço em ordem. Depois é água e música. Meu ofício de vida: arquitetar. Arquiteto espaços e arquiteto textos.  Também arquiteto sonhos e cuidados. E cuido. E quem cuida de quem cuida?  Na maior parte do tempo, o próprio cuidador que há de buscar sua força nele mesmo. Enxugar lágrimas e deixar fraquezas guardadas para um momento em que possam se expostas. Que quase nunca chega. A fraqueza de quem cuida assusta os que não cuidam. Ou os que são cuidados. A fraqueza assusta. O cuidador aprende logo a achar válvulas de escape. Não sei porque lembrei de um filme bem antigo, acho que era com a Annie Hall, na verdade Diane Keaton, que eu sempre vejo com as roupas da Annie..."Looking for Mr Goodbar" com um Richard Gere extremamente jovem. Ela cuidava de dia e extr...

Não é melhor continuarmos imperfeitos?

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 A Nota Amarela e as impressões de leitora Antes que comecem a ler, já aviso que isso não é uma resenha sobre o excelente livro A Nota Amarela do Gustavo Czekster. São impressões de leitora. Em primeiro lugar devo dizer que sou super fã do Gustavo. Pessoa e escritor. Seus dois primeiros livros de contos me encheram a alma de leitora com deleites. Quando soube de seu primeiro romance, lá estava eu na fila de compras virtuais.  A Nota Amarela. Um desafio para quem cria. Talvez um desafio para todo ser humano. Aquilo que " se oculta na sequência das coisas e dentro de sim mesmo para assim trazer alento - e salvação a esse nosso mundo tão áspero ". Assim comecei a leitura, pela dedicatória, que sempre me toca. O livro impresso tem dessas magias de contato, de pegar, de sentir. Quase um ritual sensual de se apoderar das ideias e palavras que os autores lançam em suas obras e que, nós seus leitores, nos apossamos com volúpia. Ou desdém. Ou estranheza. Ou deslumbramento. Ou tudo iss...

Do pulsão de escrever

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  Gosto de escrever.  Desde pequena é minha forma predileta de comunicação. Podem imaginar que o início das redes sociais foram o paraíso para mim. Aliás, quem me conhece através delas, pode imaginar que habita em mim uma pessoa bem diferente da que se apresenta ao vivo e falante. Pouco falante. Não em valores, que esses são iguais. Mas na maneira de expressão. Feita a ressalva, volto ao ato de escrever. Venho de uma família e de um pai que nos incentivava e nos fazia sentir seres especiais. Ao mesmo tempo que fomentava nosso empenho em melhorar sempre. Boa lição de vida: trabalho e auto estima (obrigada, Pai!). Então ele elogiava muito o que eu escrevia. Obvio que me acreditava predestinada. Exatamente por isso, nunca me esforcei por aprimorar o ato da escrita. Era um talento nato, já me vinha por osmose, que deixasse o esforço para o que não dominava. Sempre fui assim (desculpa, Pai, não assimilei bem o teu ensinamento). O primeiro sinal veio de uma amiga que olhou meus poem...