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Olhos tristes de Dora

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"minha mãe era triste, tinha um olhar melancólico, perdido ao longe"  Assim aprendi a conhecer a Dora. Apesar de tão próxima, minha vó, a mulher que pariu minha mãe e mais sete filhos, sua figura era empalidecida pela imagem do avô. Médico, alemão, mistura de autoridade com ternura, um ser solar que encheu de luz a vida de seus filhos. Mas não a da Dora. Dos retalhos que fui catando pela vida para traçar a sua personalidade, poucos, muito poucos, me mostram uma mocinha séria, recatada. Uma mulher de olhar duro, quase nada lembrando aquela adolescente quando as maternidades marcaram seu corpo e a lida no campo também. O olhar altivo quando já viúva, trouxe os filhos à uma exposição famosa e se metamorfoseou de novo naquela mulher urbana com quem o Doutor casou. Doutor. Assim chamava seu marido. -O Doutor está brincando? quando viu a casa de chão batido onde iria morar no interior. Ela que usava raposas para ir ao teatro. Ela que usava colares de pérolas e and...

As estrelas se apagam lentamente

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Noite. Algumas poucas luzes que brilham aqui e acolá. Poderia ser uma alegoria da minha alma. Aqui dentro também brilham algumas luzes. Poucas. Era de sensações sua precisão. Nem que fosse daquelas multicoloridas, podres de falsas, tipo sorvete derramado que se esvai e com ele a vontade tanta de comer aquela gostosura que é tão efêmera.    Mas como o picolé que se derrete na mão, lambuzando a roupa, os dedos, a vida, também a sua esperança parecia ir se colapsando. Sinais difusos aqui e ali. Uma ruptura eminente, corrigida por esparadrapos que são apenas lenientes. Nada permanentes. Mas não será a vida esse porvir de momentos sem muito sentido? Quem disse que a linha reta é caminho traçado desde a infância. Não serão as mentes mais confusas e caóticas do que gostariam de admitir? A julgar pelo que lia e via, sem dúvida. Gente que sempre achou tão inteligente, de repente saia com cada sandice. Ela para os outros devia também parecer assim incoerente. Que de certe...

Observadora da vida

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A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco. C.Drummond de Andrade Tenho inveja Tenho sim, muita inveja dos que acordam cheios de certezas.  Dos que não descreem Daqueles que vivem tanto de convicções que quando as perdem de um lado, bandeiam para o oposto.  Eu não Eu vivo questionando Eu faço perguntas impertinentes Sou daquelas que nunca mergulha fundo nas crenças Não tenho gurus, pesco um pouco das sabedorias alheias Separo o que me interessa, o que me soa verdade interna O resto deixo ir Admiro quem acredita tão fundo que grita Admiro os lutadores,  os que dão a vida por suas ideias São deles as rotas que fazem diferença Eu vivo do imponderável Leio poesia nos dias tristes Leio palavras de quem pensa coisas que não creio Só para entender o pensamento alheio O desconhecido me fascina Vivo da busca Sou como aquele caminhante errante que passa por vilas Come das suas comidas,  reza na...

Resistência ao vazio

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Mais das vezes me espanto com a palavra dita nos dias de hoje, não tanto porque se pense assim, mas pela coragem de expor tanta sandice. Parece que vivemos no tempo em que o bom senso se rasga e qualquer assomo de opinião se faz de verdade absoluta. Com o agravante de que os tempos virtuais facilitam a reunião dos bandos e as bolhas algoritmicas  nos fazem pensar que somos mais maioria que realmente somos. Nada contra a diversidade. Muito antes pelo contrário, tudo a favor. Sem a diversidade não há crescimento. Sem que me contraponham conhecimento e argumentos fundamentados , não coloco os meus em cheque. Há que debater muito. Há que rebater e crescer.  Mas,e nunca, há que se esquecer de que humanos somos. Que da poesia nascemos todos e que a sobrevivência por si só não explica nossas agruras. E há que combater as trevas, seja lá como se apresentem. O que diz que o dia é noite. Que a curva é absolutamente reta. Que o fato, mais que versões diferentes, não aconteceu. H...

Mudança que urge

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Um dia tinha lido sobre alquimistas. Quem sabe os sinais do universo não estivessem apontando para uma revolução em sua vida. Um recomeço desses de varrer a história passada e afogar com fogo e brasas toda a completa destruição em que se transformara a sua vida... Começava pelo mau humor. Péssimo humor. Humor de ogra. E as coisas que não se encaixavam mais. O otimismo, por exemplo, não tinha lugar nessa vida de pedaços mal consturados em que tinha se tornado sua rotina. O corpo se enchia de adiposidades, ficava redondo e começava a dar sinais de desgaste. A mente ia se desligando, devagar, as palavras falhando, o sentido das coisas se perdendo. Dissolvendo.  A rotina era insana. Era um tal de começa, para. comeca, para. Recomeça e para novamente. Interrupções idiotas para um trabalho criativo. Um telefonema de propaganda. Um vídeo sem graça da rede social. Uma conversa banal sobre nada. Um parar para atender. Atender. Atender. Atender.  Um mau gerir recursos de dar dó. Dinheir...

Apenas uma mulher esmaecida pelo tempo

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chove.  Eu que sou movida à energia solar, me sinto menos apta em dias chuvosos. Tudo me parece mais difícil, embora não seja. Tudo na verdade é como a gente constrói dentro da gente. A vida é feita de atos. A vida premia quem age. Como saber o certo?  Não existe um meio. O certo é o que parece certo no momento. O que importa de verdade sempre será a ação, não o receio. O que faço em dias de chuva, além de obedecer aos mistérios e aos deverias? Dou ouvido aos desígnios. às vezes eles me vem como insights . às vezes como sussurros. outras como ainda como percepções. o meio não importa, o fundamental é que eu ouça. e entenda. Hoje ele se manifesta assim...    e também o encantamento de ver caminhar ao meu encontro um espécime tão raro quanto um hipocampo, um centauro, talvez?...vejo apenas a sua crina e o alto do seu corpo...Não, eis as duas pernas, então não é um centauro, é um homem suficientemente louco de amor para tomar uma pesc...

Quando a vida me toma de roldão

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Caio...gostava de ler o Caio em tempos infinitos, aqueles que eu me descobria e me sentia .  Deixei de me sentir muito tempo depois. E comecei a sentir o Caio mais. Como te entendo. Também ando muito cansada de tudo. Com um mau humor daqueles de exaustão. Um humor que nenhum livro de auto ajuda resolve. Um humor de quem se sente exaurida, sumida, esgotada. Meio que um bagaço de laranja, dessas que são chupadas até a última gota e quando nada mais tem de sumo, se joga fora.  Me esqueçam, eu grito.  Um grito mudo que sai no corpo dolorido. Um grito sem voz que sai na tontura que não se explica. Um grito morto que sai no humor de cão, na sabotagem interna, no não ter mais energia de ser boa. Ser boa era legal, me fazia bem. Só o que eu precisava era de um tempo para mim. Um reabastecimento. Podiam ser as horas de sábado pela manhã, podia ser um livro que eu pudesse ler sem ninguém interromper. Um projeto para criar. Uma série de ficção. Um livro do Caio....