domingo, 5 de novembro de 2017

Teias de descobertas

Dia Um - a noite que termina


Era de madrugada e logo a luz viria com toda a intensidade.

Não importava. Tinha passado a noite em claro mesmo. Era sempre assim. Um período de intensa alegria e logo em seguida vinha a realidade pra dizer que isso não era pra ela. Essa alegria bem prosaica de compartilhar e gozar era para os outros. Para ela ficava a sensação de coisa nunca terminada. Quando se permitia a entrega e soltava sua ternura mais funda,as coisas se invertiam e fugiam da sua mão. Sempre fora assim. 


Arisca,gata fugida e vadia.

Gata de rua,medrosa,manhosa

Acostumada a apanhar. Já não sabia nem mesmo no que acreditar. Nem nela própria. As melhores horas ainda eram os momentos vividos sem preocupação com o amanhã ,sem preocupação com o futuro. Fazer planos lhe era difícil. Não que não gostasse. Adorava sonhar e planejar como todo mundo. Mas tinha essa ferida nunca cicatrizada no coração que começava a incomodar e doer. Era uma consciência perturbadora da realidade. Era mesmo? As vezes duvidava dela mesmo. Era como se estivesse longe do mundo.

E nessas madrugadas de insônia ficava pensando no quanto era difícil se enquadrar no mundo. Tudo o que queria um canto seu onde ninguém perturbasse,onde pudesse estar em paz. Principalmente para pensar.

Pensar era importante. Pensar era fundamental. Até mais que sentir. Nessas madrugadas a vontade era pegar um espumante,uma taça borbulhante e sair por aí,cabelo ao vento, sem rumo, sem meta. Sem chegada,sem partida. Sair ao leo, feito gata vadia. E como conciliar esse ladinho aventureiro com o outro. O que era calmo, mais domestico, mais caseiro. Esse outro que dava vontade de se enrolar em uma almofada fofa e encostar a cabeça naquele ombro querido e ir achando o seu cantinho. Ficar afofadinha e quentinha,cheia de segurança, sem medos.

Como me é importante a fato de ser amada. De me sentir amada. Tão fundamental essa sensação profunda de pertencer. E como perceber que pertencer também significa conceder. Compartilhar. Não sei compartilhar. Acho que nunca cresci. E na atual circunstância da minha vida nem sei se quero crescer. (pensamentos da madrugada)

E não é que o sol começou a entrar e ela nem se deu conta. Os sons começaram a se modificar também. Não sei se já repararam, mas os sons se modificam com as horas que passam. Nessas meio frenéticas do despertar, eles também vão gradualmente despertando e são mais claros, talvez mais descansados,mais inteiros que no resto do dia. 

Gostava dos sons da manhãzinha,gostava dos sons da noite. Os da madrugada a fascinavam. E assustavam. Eram perturbadores como eram Tudo o que é mais profundo,mais intenso. Muito melhor lidar com o superficial,com o corriqueiro. Mais fácil. Muito mais. Sem divagações soltas. 

Novo dia - a descoberta

Hora da chuveirada matinal e do café corrido. O ônibus apinhado e a redação do jornal. As mesmas noticias, pequenas e mesquinhas do dia a dia. A mesmice das mesmas brincadeiras e do mesmo ar de indiferença e inveja das pessoas em volta. Todas apressadas,cansadas,entediadas, todas cadáveres ambulantes de um palco de marionetes vagabundo que ameaçava desabar. As pessoinhas continuam seu caminhinho de todo dia,seus passinhos controlados,seus paninhos poidos,seu enredo vulgar e repetido. Todas não. Algumas,muito poucas, tem um certo ar de vida,em suas faces mal pintadas.

Uma delas era Miguel,que por trás da sua cara de palhaço risonho e ferino, tinha olhos vivos e arteiros e um ar de criança terna, como o tem todos os meninos arteiros, mesmo os crescidos. Miguel vivia do seu salário pouco do dia a dia, mas mantinha escondida uma curiosidade insaciável e inquieta. Por vezes o observava e franzia a testa. Era uma incógnita. Talvez um dia seus caminhos se cruzassem,pois a vida tem dessas manhas. Os bonecos podem fazer de conta que comandam seus passos, mas as pessoas acordadas,as sem cordas,não.


Revelações de uma sabedoria secreta

As coisas acontecem para elas de acordo com o que tem que acontecer. De outra maneira não funciona direito. Deve ser uma daquelas leis arcaicas que nunca foram renovadas. Naquele tempo em que foram feitas, as pessoas ainda estavam acordadas, ainda não era moda ser marionete. Foi depois, aos poucos que as coisas foram mudando e quando se notou não existia mais plateia, apenas atores. E tudo recebeu o nome de vida. Foi quando as pessoas começaram a brincar de ser feliz. Mesmo os que manejavam os cordéis há muito tinham desaparecido. E ninguém mais se dava conta. As pessoinhas tinham um medo quase paranoico de viver sem amarras. Alguém espalhara, muito tempo atrás, que era fatal viver sem elas. Até tratados e livros foram escritos,e isso acabou virando dogma. Mesmo os que se percebiam sem cordas, agiam como se elas existissem, por puro medo de serem exterminados. Por isso eram tão fugidios, por isso eram tão discretos.

Por isso não se davam a conhecer. Era preciso um cruzar de olhares,era preciso que acontecesse. Ela tinha uma curiosidade que acontecesse com Miguel.
Ela queria sentir essa sensação de vitória,gozo,felicidade, nem que fosse por um instante fugitivo e perdido. Quem sabe um dia, quem sabe hoje.

Hoje ela tiraria a máscara e sorriria seu sorriso mais sincero, hoje ela sairia sem disfarces,sem cordas, hoje ela sairia acordada e inteira. Quem sabe sua aura brilhasse tão forte que seria impossível não perceber. Quem sabe seria possível brincar com o destino, até transformá-lo sem perecer. Quem sabe seria possível correr atrás da própria felicidade e ousar ser inteira por longos momentos, por toda a vida.

Por toda a eternidade.



POA-ll/03/88

(De vez em quando acho páginas escritas de décadas atrás, datilografadas e amareladas. As recupero porque parte de minha trajetória. Um dia saíram de mim, são como filhos pródigos que recebo de volta porque algo hão de querer me dizer algo ainda)

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