segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da chaleira que chia

Tinha jeito não. Já tentara de todas as maneiras que conhecia. E das que imaginara. Não conseguia se comunicar. Essa coisa da convivência não era para ela.

Tirou a chaleira do fogo pensando em fazer um café cheiroso desses de arder a narinas de felicidade. Café tinha dessas propriedades de fazer tudo voltar aos eixos: a cabeça e a alma. Olhou em volta procurando mentalmente a lista das tarefas do dia. Não achou como de costume em meio da bagunça que era sua mesa de trabalho. Não faz mal, pensou. Lembro que era dia de consulta no psiquiatra. Onde ia para ver se conseguia elaborar o porque não conseguia essa convivência tranquila com a vida e o que fazia na real era fingir que falava de coisas importantes para que a pessoa para quem pagava os tubos a visse como alguém normal. Era dessas. Fingia na análise.


A chaleira chiava e sua mente também. Logo na segunda feira que era dia de produção vinha essa letargia da tristeza que teimava em desacalmar sua rotina. Talvez um banho resolvesse mais.

O telefone tocou justo na hora em que cantava sua música predileta a plenos pulmões embaixo do chuveiro. Se desafinava ou não, os vizinhos que julgassem. O som da chamada mais o chiado da chaleira lhe desafiavam a paciência. E a vontade de um banho demorado.

Vestiu sua roupa de baixo mais charmosa. Nunca se sabe, sorriu maliciosa, enquanto colocava as três ou quatro gotas do perfume predileto. Aquele que reservava para os momentos especiais. Ou os dias em que precisava amar a vida como se não houvesse amanhã.

Olhou no espelho embaciado e viu uma senhora precisando de uns retoques. Diabo de reflexo! Pensou em criar um espelho que refletisse o que vinha de dentro. Melhor ainda, um que viesse com filtros e mostrasse o que queria sentir de dentro. Ia ficar rica com essa ideia.

Ficar rica de dinheiro sonante seria uma bela solução. Pessoas miliardárias nem precisavam se comunicar. O mundo já abria as portas para elas. O mundo era bondoso com gente que tinha uma conta bancária abonada. Sempre fora assim, desde o começo dos tempos. Fosse mais esperta tinha seguido o conselho que o velho pai lhe dera quando jovem: feminismo de verdade é ter uma profissão e se sustentar. E o sustento que dá direito à escolha não é um salário de sobrevivência não. É aquele que abre portas. O que vem carregado de vários zeros. A direita.

Será que se fosse muito rica seus problemas de comunicação iriam se resolver? Assim como um passe de mágica...brincava com a ideia...na verdade já passara do tempo do faz de conta. Sabia com a sabedoria dos anos que pesam que nada se resolve magicamente. Tudo depende de algum trabalho. Bem construído e bem consolidado. 

Que a chaleira fosse chiar outra hora. Era tempo de construir a vida, essa que passa rápido por mais chiados que as chaleiras façam. 

Tomou o café correndo. Vestiu sua roupa de enfrentar os problemas. Sorriu para a senhora do espelho que lhe deu uma piscada de olhos.

Abriu a porta e saiu.     

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