segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma história de fim de tarde

Era tarde. Pelo menos parecia que era.

Não que fosse importante mas já corria o meio da tarde e urgia que corresse se quisesse saber a resposta. Nesses dias meio assim, sem som, sem chuva, em que a vida parecia correr sem pressa e sem graça, as urgências perdiam sua necessidade.

Talvez fosse bom. Vá lá se saber.

Correu os olhos pelo armário. Entulhado de roupas que um dia lhe serviram. Devia se livrar delas de uma vez já que não conseguia fazê-las caber em seu corpo. Colocou a mesma calça que lhe dava a harmonia das coisas conhecidas, uma camiseta mais básica e um sapato confortável. Disso não abria mão. Já aprendera que a vida é muito curta para bolhas nos pés. Abriu a porta e foi.

Antes uma gota de perfume e um batom ligeiro que mesmo na pressa não urgente havia lugar para alguma vaidade. 

Ligou o carro com a calma das rotinas. O rádio na mesma estação. AM que noticia lhe deixava mais atenta que música. Olhou rápido para o relógio. Mentalmente fez as contas. Sim, dava tempo. Detestava chegar tarde e tomar tempo dos outros.

Era das gentilezas diárias. Cresceu assim, educada e gentil. Achava bom. Fazia o mundo parecer mais civilizado. No fundo não entendia essas pessoas que precisavam se afirmar sendo grossas e deselegantes. Não sabiam então que quem tem razão não precisa gritar nem impor? 

Pareciam não saber. 

Não importava porque não era de se ligar à comportamentos que reprovava. Que fossem o que fossem se os deixava felizes. 

Enfim chegou. Não antes de dar voltas atrás de uma vaga. Detestava fazer balizas e não se importava em caminhar mais. Até gostava. 

Parou um pouco antes de bater na porta. Pensou que podia voltar, deixar para lá, esquecer, fugir. Respirou fundo. Se viera até ali, não ia ser agora que ia dar meia volta.

D. Luana! Gritou a recepcionista, sempre gentil, no seu uniforme cinza e batom vermelho. Sentimos sua falta. Palavras de praxe para todas as ex senhoras que cruzavam aquele caminho. Luana já era. Tinha sido. Agora não mais. Agora outra qualquer. Katrina. Joana. Marlene. Um nome diferente para mulheres tão iguais em seus sonhos e suas sinas. Um dia fora elas. Agora não mais.

Seu tempo tinha chegado. Era história. Na vida de alguém era história. Na sua era rota e trajetória. Sorriu para a moça com o sorriso de sempre. Por fora. Por dentro sorria era para si mesma. 

Correu os olhos pela sala. Um dia tinha entrado ali cheia de sonhos. Agora saía também cheia deles. Outros. Uma leve angústia marcou sua alma. Um frio gelado parou sua espinha. Era hora.

Abriu a porta. Entrou certezas.

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