quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Acordou velha

Era um tempo complicado. Ela saia de si às vezes para tentar achar um rumo que fizesse mais sentido que o que vivia.
Todos me chamam de Moira. Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos comigo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas. Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passaram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorável, o fruto da maturidade. Benoîte Groult, Um toque na estrela
Acordou velha. E não apenas pela pele flácida e os cabelos brancos que teimavam em aparecer sobre as camadas de pintura que tentavam driblar o tempo nesse mundo onde ser jovem é quase uma obrigação. Tudo bem que os remédios, antes inexistentes, iam aumentando a cada consulta médica, que os amigos iam morrendo sem explicação e que o tempo que sobrava era infinitamente menor que o que percorrera. Nada disso no entanto a fazia mais velha que a desesperança que teimava em lhe acompanhar a cada manhã.

E nem vinha tanto dela que era otimista desde que abrira os olhos ao mundo. E foi em um parto com penumbra, música de fundo e pai no quarto. Anos antes do Leboyer se tornar famoso e propor o seu parto sem violência. Talvez essa recepção à vida lhe marcasse profundamente e lhe desse esse jeito diferente de ver e entender o mundo. Talvez fossem as conjunções astrológicas que a fizeram ser uma dupla ariana com total imersão na 12 casa. Talvez fosse DNA, lembrança ancestral de gente que sentia e lutava e amava e vivia que a fizera assim. Talvez fosse ela. Vá lá se saber.

Mas com tudo isso e mesmo assim acordou velha. Pesada. Descrente. Uma vontade pela vez primeira de ter a coragem suficiente de largar tudo e ir começar em outra pátria um mundo mais generoso. Ou menos tacanho o que, como já dizia Francisco, não é o mesmo, mas é igual. 

Uma réstia de luz, um arco iris, um unicórnio voador, uma deusa celta, qualquer coisa mais simpática para brilhar seus olhos que teimavam em focar na hipocrisia e teimavam em tentar encaixar sua maneira empática de ser com a sua própria convicção interna. 

As vezes se sentia como aquele marciano do conto de Bradbury que se metamorfoseava em muitos para sobreviver e terminava morrendo em pedaços que não se encaixavam nele.     

Acordou velha porque nela as luzes iam se apagando. Uma a uma como naquele outro conto "Os 9 bilhões de nomes de Deus". Sim, lera o Despertar dos Mágicos. Como lera o Relatório Hite, O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir e obviamente Capra e Gestalt. Anos 70 eram fecundos. Ela era jovem e questionava. Participava. Tinha opinião formada sobre tudo. 

Os anos passaram para todos. Até para ela. Seus antigos amores morreram. De doenças normais da velhice. Suas amigas falavam de netos. A roda do mundo andava e era cruel. 

Nem tanto no corpo que ele é consequência de suas escolhas e ações. "Aos 20 temos o corpo que a natureza nos deu, aos 40 o que merecemos". Aos 60, mesmo agindo mais que fizera, dificilmente deixaria de revelar os sinais do tempo. A menos que se deixasse seduzir pelos botox que fazem mais pela igualdade de gênero que muita revolução. Não podia deixar de sentir uma certa ironia por ver como muitos homens e mulheres lustrosos se pareciam cada vez mais.

Talvez a velha ironia, agora transformada em um olhar mais amargo, tivesse sua parcela de culpa na velhice que lhe acometera. Difícil ter um olhar mais ingênuo olhando a loucura do mundo atual. Mas era justamente isso que escutara de avós e pais que repetiam que seus tempos eram melhores. 

Chegara ao seu tempo de ser velha.

Urgia trocar a roupa da amargura pela da maturidade. Urgia fazer um pacto com Moira para voltar a ser leve como um pássaro que alça voo.        

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