domingo, 17 de setembro de 2017

Abriu a porta

Abriu a porta.

Tudo era novo naquele olhar que amanhecia para a vida. Correu os olhos pelas paredes em que a pintura carecia de novo retoque. Pousou seus dedos pelos móveis que revelavam um passado mais ditoso e onde os cupins marcavam sua fome. 

"Para que uns sobrevivessem, outros tinham que fenecer." Riu da sua ideia. Pareceu tolice de adolescente, coisa que ela tinha uma vaga recordação de ter sido um dia.

Mas mesmo assim, sorriu. A vida lhe pareceu boa. E fosse lá explicar esse milagre de achar graça onde tudo parecia ruína? Tem coisas que não se explica não. Se deixa sentir e só.

Abriu a porta.

Sentiu falta de uma violeta que pudesse lembrar ternura. Anotou mentalmente na sua lista de compras. Havia de sobrar uns trocados para um gesto de beleza. De repente entendeu o cara que morava na rua, aquele que trancrava a respiração, envergonhada, pelo cheiro que empesteava suas narinas, dos dias e anos sem uma gota de água a lavar humores e fluídos que de tão naturais, não se fala, só se faz escondido. Ele que, mesmo em meio à feiura da miséria, guardava uma garrafa usada onde colocava uma flor furtada de um jardim qualquer. Da próxima vez vou piscar para ele anotou mentalmente.

Abriu a porta.

Olhou de leve o jornal, as redes sociais. As manchetes gritavam obscenidades. Melhor seria largar tudo e ir à uma exposição ver um outro jeito de ver a vida. Qual o quê, já tinham fechado. Se não restasse mais a arte, mesmo que polêmica, exatamente por ser polêmica, como ia aguentar o tranco? Afastou a ideia, era loucura pensar que o mundo poderia voltar à tempos em que tudo isso acontecia. Nunca mais, pensou aliviada. Mas e se (?) pensou assustada.

Abriu a porta.

Leu comentários de sua bolha social. Bons tempos esses em que a tecnologia já filtrava o que se podia ver e principalmente a quem ler. A gente até chegava a imaginar que o mundo concordava com a gente e era como uma volta à infância onde a gente podia brincar de faz de conta que o mundo nos entende. Mas tinha uma coisa acontecendo. Seus iguais agindo como os outros. Deixaram de ser feministas e começaram a xingar uma mulher de vaca, de mal comida, de arrogante e de outros afins por um ato que a seus olhos era normal. Ou deveria ser. Tentou pensar que era ela a errada. Quem sabe...

Abriu a porta.

Tentar sobreviver talvez seja isso. Navegar apesar de. Não se fiar em tribos nem em dogmas. Acreditar em ideias e não apenas em pessoas. Era ter suas versões da história, dos enredos, era rir de si mesma. Era alguma coisa que um dia descobriria. Por enquanto se limitava a abrir portas a cada dia. 

2 comentários:

  1. Que talento Elenara, uma escritora de mão cheia e alma repleta de percepções vivas sobre ser no mundo!

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  2. Obrigada Cristina querida! Tuas palavras me incentivam. Beijos

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