domingo, 27 de agosto de 2017

Ervilhas, ora direis olhar estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Sem querer abusar do Bilac, mas já lembrando dos tempos idos e vividos, volto ao passado que já nem sei ao certo se aconteceu neste universo, ou em um dos outros tantos em que já vivi. Com certeza em um deles eu era uma andarilha peregrina que achou abrigo em um palacete e onde me colocaram em uma Queen Size Bed de altura astronômica. E onde passei uma noite danada de mal dormida que se traduziu em olheiras terríveis e um mal humor do cão que, obvio, acabou por afastar aquele cara lindo que mais parecia um príncipe. Tudo por causa de um grão de ervilha que alguém esqueceu abaixo da camada de espuma da Nasa.

Em outro universo fui uma menina que trocava o volei e os passeios de bicicleta pela leitura de contos de Andersen. Mas que não abria mão dos patins.   

Ilustração de Nacho Naolino Diaz
Fui crescendo e aprendendo que os contos de fadas são armadilhas, historietas que guardam algum tipo de moral para que mentes inquietas sosseguem a cabecilha. Talvez ainda sirvam para que em algum lugar secreto persista uma pequena ilusão de que a vida é um pouco mais que mera sobrevivência.

Enfim, só sei que das bobagens de infância, guardo uma sensibilidade extremada que se traduz por ervilhas. Montes de ervilhas!

Lá estou eu em um belo projeto, cheia de esperanças e ganas de concretização e, numa virada de olhos, um cerrar de sobrancelhas, uma palavra bonita não dita, aparece aquele carocinho incomodativo. Uma pontinha dolorida, uma aula de alongamento no meio, uma boleta vez que outra, e a ervilha se desmancha.  

Mas tem os dias que nem o fogo brando e um bom vinho conseguem seduzir a 
Pisum sativum leguminosa.
Aquele sábado ensolarado era um desses dias. Se perguntasse o motivo real daquela bolota imensa ter esmagado seus sonhos e sua energia, ela nem saberia dizer. E nessas horas ela se separava de mim. Eu, a tão cheia de certezas mesmo que fossem duvidosas, me tornava mera espectadora de um espetáculo que ocorria com ela.

Minha ervilhinha a chamava um ex amor quando ela entrava naqueles dias. Se fosse uma feminista moderna poderia dizer que ele estava fazendo um daqueles comportamentos de nome esquisito que no fundo queriam transforma-la em uma menina desamparada, tirando todo e qualquer empoderamento que ela pudesse ter.

Mas qual o quê. Era feminista de priscas eras. Tão antigas que já tinha deixado de lado lutas "enfrentativas", estava quase virando um elfo, uma transcendência que pairava acima de conceitos e tentativas de enquadramento.

Já não bastavam os múltiplos universos em que transitara, e as muitos elas que fora, onde as verdades eram todas muito firmes. Não ela de agora. Essa mistura de mundos, essa massa sem forma de vivências, purgações e desistências. A essa de agora só tinha uma vontade: achar a porta do universo mais amado. Aquele em que ela se amava acima de tudo e o que lhe dava segurança de ser alguém.

Enquanto não achava, ficava driblando as ervilhas, grandes ou pequenas, e olhava as estrelas. Quem sabe nelas enfim o caminho do encontro.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas"

PS: No meu universo um texto era apenas um texto. Nada mais que um texto. Não precisava de explicações, não carecia de tentar deixar claro que isso que muitos podiam entender estava na cabeça deles que podiam estar lendo em outro universo paralelo que, se vocês não sabem, se tocam e se mesclam. Que ouvir estrelas era a maneira dela manter a poesia viva. Que adorar conto de Fadas não a fazia frágil e que, droga, tudo o que ela queria era apenas apagar um pouco o turbilhão das palavras e sensações que morava dentro dela. 

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