segunda-feira, 10 de julho de 2017

Somos instantes


Acordou saudades.

Tirou a camiseta antiga que guardava seu corpo nas noites de insônia. Essa não. Dormira profundamente o tal do sono dos justos que lhe vinha de vez em quando. Cada vez mais quando.

Quando tudo bem. Quando não questionava. Quando se enfurnava. Quando era quase sempre.

Se fosse normal como tantos que conhecia, ia em um médico qualquer que lhe receitaria um para te quieto também conhecido por tarja preta. Mas não ela. 

Acordou saudades depois de uma noite bem dormida. Ou quase. O gato peludo a acordara miante. E ela, solícita, largou o sonho que era importante e foi atrás do felino. Como sabia que era importante? Porque ficara repetindo um nome infinitas vezes naquelas formas malucas que o universo tem para sinalizar algo. 

Acordou saudades e esquecimentos. Não lembrava o aviso do sonho. E logo o dia foi lhe tomando e deixando de lado as magias e mistérios que isso é coisa das madrugadas. Os dias exigem mais ação e coragens.

Somos instantes vira em em algum lugar. Calara na alma que ela sempre fora de frases marcantes. Sempre acreditara (ou fingira acreditar) que mais que felicidades infindas, somos feitos de momentos fugazes. Uns intensamente felizes. Outros tão intensos que dava dor de viver e lembrar. Alguns ainda pungentes de tal sofrimento de alma que grudavam na pele, nos ossos, mudavam o DNA e se tornavam parte dela para sempre.

Acordou saudades, esquecimentos e lembranças.

Algumas queria esquecer. Fingir que tinham sido um sonho mau, desses que a gente acorda assustada e dá Graças aos Céus de não terem acontecido de verdade. Mas tinham. Eram dela. Nela. Iam lhe acompanhar feito sombras até o último instante de vida. 

Outras fazia questão de lembrar. Eram tão danados de bons que pareciam ter saído de um conto de fadas, desses que tem final feliz. Ou daqueles filmes que a gente vê uma vez e nunca esquece. Esses ela sabia que iam acompanhar para sempre também. E quando já estivesse perto da porta de saída, eram eles que iam embalar seus medos da travessia. 

Acordou saudades, esquecimentos, lembranças e momentos. 

Despiu a roupa folgada da noite, passou água no rosto cansado e marcado pelas horas e pela vida, sorriu com uma certa melancolia para si mesma. E partiu.

Partiu vida, saudades, esquecimentos e lembranças. Partiu inquietações e certezas.  Mais as primeiras que as últimas. 

Somos instantes murmurou a alma. Somos apenas instantes, respondeu ela.

Acordou...acordou?             

Nenhum comentário:

Postar um comentário