terça-feira, 20 de junho de 2017

Tulipa na cabeça

Fazia frio naquele julho gaúcho. Não mais que já tinha feito em outros invernos. Mas este era especialmente doloroso. Era dentro dela que a dor doía.

Em outros anos ela tinha uma companheira quase que constante. Esperança era seu nome. Nos dias mais cinzentos, Esperança voejava ao seu redor, abrindo janelas, espantando temores, dando aquela coragem que só as amigas de verdade sabem dar. 

Um dia Esperança sumiu. E ela começou a ficar doida. 

No começo achou que fosse uma escapada qualquer, dessas que as pessoas dão quando querem repor as energias. Ela mesma tinha feito isso ano passado. Pela primeira vez em dez anos. Fora tão bom. Vai que Esperança tivesse feito o mesmo.
Mas não. Sumiu. Não mandou recado, não deixou celular. Nem e-mail. Procurou nas redes sociais. Tinham várias Esperanças. Mas nenhuma a sua.

Quando se deu conta enfim que ela não ia mais retornar foi que compreendeu. Tinha enlouquecido.

Olhava ao redor e nada mais tinha graça de antes. Nada a comovia e até a sua criatividade foi se acabando. Olhava uma folha em branco e nem mesmo a velha angústia que precedia a boa criação lhe vinha. Uma folha em branco era agora apenas uma folha em branco. Continuaria uma folha em branco. Indefinidamente. 

Foi ficando mesquinha. Uma carência pegajosa se apossou dela como se a atenção, mesmo que por migalhas, de outras pessoas fosse lhe abastecer a alma. Qual o quê. Era a falta da Esperança, sua Esperança, que abria aquele buraco sem fundo.

Todo dia tudo era igual. Ela convivia com o esquecimento dos que amava. Nem sabia mais se amava. Não se amava mais. 

Férias: anotou na agenda. Foge! Gritava o coração, naquele pedacinho que ainda teimava em ser são. 

Uma coragem afoita de quando em vez e parecia que ia conseguir. Mas o universo parece conspirar contra quem não está em sintonia consigo mesmo. Nada dava certo. E a força pequeninha ia pelo ralo.

A memória ao redor dela enlouquecia. Sua casa se carcomia. E ela apenas olhava como se fosse expectadora em um palco mambembe. Já vira essa história. Sabia como acabava. E sem a maldita da Esperança o buraco negro ia pega-lá também. Talvez fosse melhor mesmo esquecer tudo. Os nomes, as palavras. Ser louca tinha lá suas vantagens.
Enlouquecer. Por mais que tente permanecer na essência da vida, vou enlouquecer. Conviver diariamente com mentes que se vão, faz a minha embranquecer. Minguar. Sumir. Melhor ficar doida. Colocar uma tulipa na cabeça e sair feito bailarina ao sol, recitando velhas poesias que nunca escrevi (Antônia Bandeira da Luz )


Talvez a morte enfim fosse isso. Se deixar acabar. Ir se consumindo até que nada mais da antiga personalidade restasse e ficasse ela: a Essência. E doidamente as duas se unissem em um antiga dança cósmica do amor e fossem vagar pelas estrelas, pelas ruas, pelas vidas. Sendo. Querendo. Vivendo enfim.


"No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem"
Feito Um Picolé No Sol)

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