quinta-feira, 29 de junho de 2017

Corrente dispersiva

Acabei de criar um poema belíssimo. No banho.
Esqueci assim que saiu.

Odeio quando isso acontece. Especialmente em uma época de pouca inspiração. Daquelas que sento na frente de uma tela. E nada.

Basta sair, relaxar e surgem as palavras, as rimas, tudo aos borbotões. 

De certa maneira minha vida segue esse ritmo. Produzo lindamente quando isso nada tem a ver com a minha vida prática. Sou daquelas que move mundos pelos outros. E por mim, nada.

Nado na corrente dispersiva de uma vida cinzenta que se perde nos escaninhos de uma realidade fugidia.

Ponto.

E não me venham com auto ajuda. Conheço a receita do bolo. Mas...entre a teoria e a prática reside uma imensa lacuna que só é preenchida com uma sintonia coração e mente. 

Ponto.

Estou naquela época da vida cheia de verdades absolutas. Coisa mais chata. Melhor um colibri voejante de dúvidas que uma senhora sisuda cheia de certezas. Ever.

Enfim. Foi-se o momento. A poesia parida no banho foi para o limbo das memórias inenarradas. E assim faz-se a vida de cada um. De momentos infindos de tal grandiosidade que só a nós pertencem. E que o pó do esquecimento não conseguirá apagar.

Fui e volto. Eis-me então na encruzilhada dos caminhos que se bifurcam (obrigada Borges). E nem sei porque essa imagem me vem à lembrança.

"Depois refleti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Século de século e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede; sucede a mim..." Borges

Caminhos estranhos percorre nossa mente quando quer nos dizer algo. São como rios e ondas que balançam e seguem até chegar ao oceano. E o oceano somos nós. Pequenos universos em uma vivência sofrida e fulgurante.

E talvez afinal tudo faça algum dia sentido. Ou não. Que a vida seja apenas e tão somente, uma corrente dispersiva de desejos, misérias e esperanças.  


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