quinta-feira, 29 de junho de 2017

Corrente dispersiva

Acabei de criar um poema belíssimo. No banho.
Esqueci assim que saiu.

Odeio quando isso acontece. Especialmente em uma época de pouca inspiração. Daquelas que sento na frente de uma tela. E nada.

Basta sair, relaxar e surgem as palavras, as rimas, tudo aos borbotões. 

De certa maneira minha vida segue esse ritmo. Produzo lindamente quando isso nada tem a ver com a minha vida prática. Sou daquelas que move mundos pelos outros. E por mim, nada.

Nado na corrente dispersiva de uma vida cinzenta que se perde nos escaninhos de uma realidade fugidia.

Ponto.

E não me venham com auto ajuda. Conheço a receita do bolo. Mas...entre a teoria e a prática reside uma imensa lacuna que só é preenchida com uma sintonia coração e mente. 

Ponto.

Estou naquela época da vida cheia de verdades absolutas. Coisa mais chata. Melhor um colibri voejante de dúvidas que uma senhora sisuda cheia de certezas. Ever.

Enfim. Foi-se o momento. A poesia parida no banho foi para o limbo das memórias inenarradas. E assim faz-se a vida de cada um. De momentos infindos de tal grandiosidade que só a nós pertencem. E que o pó do esquecimento não conseguirá apagar.

Fui e volto. Eis-me então na encruzilhada dos caminhos que se bifurcam (obrigada Borges). E nem sei porque essa imagem me vem à lembrança.

"Depois refleti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Século de século e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede; sucede a mim..." Borges

Caminhos estranhos percorre nossa mente quando quer nos dizer algo. São como rios e ondas que balançam e seguem até chegar ao oceano. E o oceano somos nós. Pequenos universos em uma vivência sofrida e fulgurante.

E talvez afinal tudo faça algum dia sentido. Ou não. Que a vida seja apenas e tão somente, uma corrente dispersiva de desejos, misérias e esperanças.  


terça-feira, 20 de junho de 2017

Tulipa na cabeça

Fazia frio naquele julho gaúcho. Não mais que já tinha feito em outros invernos. Mas este era especialmente doloroso. Era dentro dela que a dor doía.

Em outros anos ela tinha uma companheira quase que constante. Esperança era seu nome. Nos dias mais cinzentos, Esperança voejava ao seu redor, abrindo janelas, espantando temores, dando aquela coragem que só as amigas de verdade sabem dar. 

Um dia Esperança sumiu. E ela começou a ficar doida. 

No começo achou que fosse uma escapada qualquer, dessas que as pessoas dão quando querem repor as energias. Ela mesma tinha feito isso ano passado. Pela primeira vez em dez anos. Fora tão bom. Vai que Esperança tivesse feito o mesmo.
Mas não. Sumiu. Não mandou recado, não deixou celular. Nem e-mail. Procurou nas redes sociais. Tinham várias Esperanças. Mas nenhuma a sua.

Quando se deu conta enfim que ela não ia mais retornar foi que compreendeu. Tinha enlouquecido.

Olhava ao redor e nada mais tinha graça de antes. Nada a comovia e até a sua criatividade foi se acabando. Olhava uma folha em branco e nem mesmo a velha angústia que precedia a boa criação lhe vinha. Uma folha em branco era agora apenas uma folha em branco. Continuaria uma folha em branco. Indefinidamente. 

Foi ficando mesquinha. Uma carência pegajosa se apossou dela como se a atenção, mesmo que por migalhas, de outras pessoas fosse lhe abastecer a alma. Qual o quê. Era a falta da Esperança, sua Esperança, que abria aquele buraco sem fundo.

Todo dia tudo era igual. Ela convivia com o esquecimento dos que amava. Nem sabia mais se amava. Não se amava mais. 

Férias: anotou na agenda. Foge! Gritava o coração, naquele pedacinho que ainda teimava em ser são. 

Uma coragem afoita de quando em vez e parecia que ia conseguir. Mas o universo parece conspirar contra quem não está em sintonia consigo mesmo. Nada dava certo. E a força pequeninha ia pelo ralo.

A memória ao redor dela enlouquecia. Sua casa se carcomia. E ela apenas olhava como se fosse expectadora em um palco mambembe. Já vira essa história. Sabia como acabava. E sem a maldita da Esperança o buraco negro ia pega-lá também. Talvez fosse melhor mesmo esquecer tudo. Os nomes, as palavras. Ser louca tinha lá suas vantagens.
Enlouquecer. Por mais que tente permanecer na essência da vida, vou enlouquecer. Conviver diariamente com mentes que se vão, faz a minha embranquecer. Minguar. Sumir. Melhor ficar doida. Colocar uma tulipa na cabeça e sair feito bailarina ao sol, recitando velhas poesias que nunca escrevi (Antônia Bandeira da Luz )


Talvez a morte enfim fosse isso. Se deixar acabar. Ir se consumindo até que nada mais da antiga personalidade restasse e ficasse ela: a Essência. E doidamente as duas se unissem em um antiga dança cósmica do amor e fossem vagar pelas estrelas, pelas ruas, pelas vidas. Sendo. Querendo. Vivendo enfim.


"No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem"
Feito Um Picolé No Sol)

sábado, 17 de junho de 2017

Esmagado pelo asteroide

O jornal caído no chão tinha uma notícia instigante. E assustadora.

Era ainda nostálgica e gostava da palavra impressa, essa coisa narcótica e anacrônica de ver símbolos sobre o papel. A cama desfeita guardava o calor da noite. E os cheiros também. Já repararam como o cheiro da gente se acentua nas noites, especialmente as mal dormidas? Fica uma inhaca forte no ar que precisa ser dissipada com o ar que renova as manhãs.

Um copo de café semi quente ao lado da taça de vinho de ontem formavam uma moldura e contavam uma história na mesa de cabeceira. Junto com o livro de perguntas, aberto na página do dia 12 (ontem), ainda em branco. O lápis sobre ele era um apelo mudo para uma resposta que não vinha. A pergunta? "Quem desperta teu cinismo?" Não era quem, mas o quê. Mas ela teimava ler quem. E por isso não escrevia. Ela sabia a resposta. 

Era uma pessoa de bom senso. Não demonstrava grandes mudanças de humor. Era serena. E isso era alardeado como uma qualidade. Nunca um defeito. Gostava disso.

Gostava também dos bombons que a chamavam da caixa fechada. Tinha resolvido começar o enésimo regime do mês. E só estava no dia 13. Foda-se, pensou. Abriu a caixa e antes que o senso comum a fizesse desistir, abriu com pressa a embalagem, pegou um ao acaso e comeu. A mesma sensação de prazer que o pastel da noite. Que o pão de queijo da tarde, que o sanduíche da manhã. Não era de espantar que as roupas no armário lhe olhassem com saudades, esquecidas nos cabides, por falta de sintonia entre elas e o corpo que já não lhes apetecia. 

O dia a esperava. Era feriado e isso era bom. Fazia sol o que era melhor ainda. Dia de sair à rua, encontrar os amigos, pegar um cinema. Talvez também o novo amigo que conhecera nas redes sociais. 

Seria um dia normal. Não fora a notinha ao pé da página do jornal caído no chão. 

Em geral lia de forma sintética. As manchetes, alguma opinião. O obituário porque achava falta de respeito não dedicar uns momentos de atenção à quem tinha partido. Mesmo que não os conhecesse.

Mas semanas atrás, por essas forças sincrônicas da vida, seu olhar fora atraído por uma notícia da TV. Lá na longínqua Rússia um cientista, um tal de Damir, alertava que um asteroide podia colidir com as coordenadas geográficas que eram as de sua cidade natal. Como sabia? Era astróloga amadora e já tinha se arriscado a fazer o seu mapa astral. e para isso fora em busca de dados do lugar. Na verdade era menos que amadora. Era curiosa mesmo. Não era para se alarmar não. Não era dessas pedras que circulam no universo e que podem destruir planetas e vidas. Talvez só algumas. Sabe-se, segundo a notícia, que toneladas de pedras caem do espaço na Terra. Todos os dias. Muitas tão pequenas que nem fazem cisco. Outras tão imensas que podem ter matado dinossauros. Outras como essa que ele previa podiam quando muito abater florestas. E ia cair na sua cidade natal.

Fazia anos que tinha saído de lá. Não sentia falta. Não mesmo.

Sempre fora perseguida pelas línguas ferinas do lugar. A chamavam de gorda quando pequena. De puta assim que emagreceu e foi à forra. De vagabunda quando namorou quem quis. Eram maldosos. Todos.

Talvez nem todos. Tinha a tia que trabalhava na farmácia e era bondosa. Olhar distante e coração meigo. E tinha o Joaquim. Seu melhor amigo. Seu amor secreto. Ela queria crer que não fora ele que apontara o dedo de acusação que a fizera decidir fugir. Ele não. Fora tolhido pelas circunstâncias. Fora pego nas redes mesquinhas das línguas ferinas da cidade. (Línguas ferinas era um clichê que lera em um romance barato e adotara porque clichês são bons justamente para isso. Qualquer um, mesmo os mais tapados, entendem).

E se. E se o asteroide realmente caísse? Brincou com essa ideia por dias. Em algumas vezes a bola chegava perto da cidade. Ia aumentando que nem o pânico das pessoas que ela podia ter avisado e não o fizera. Esquentava mais que deserto e antes que caísse, explodia no espaço em mil pedaços que iam destruir os telhados, fazer estragos, mas não matar ninguém. Era o seu lado gentil que se manifestava até nos sonhos mais escondidos.

Em outras ela aparecia em um carro branco (que cavalo não ia saber montar mesmo) e avisava as pessoas que, no início, duvidavam, mas depois a seguiam por uma rota segura. E de cima de uma montanha viam o asteroide se espatifar na cidade. E seus habitantes, salvos, a aplaudiam como a heroína e lhe pediam perdão de joelhos.

E assim ia sua imaginação, da mais irônica e mesquinha à mais piegas e babaca.

Esqueceu da coisa e foi viver. Até hoje. Lá ao pé da página, no meio do jornal, uma nota perdida de uma cidade esquecida: "Queda de asteroide mata habitante de X." Sua cidade! O asteroide que o tal Damir falou. E não é que caiu mesmo? E ela nada fez! Seu coração gelou. Foi em busca do nome do morto. Ou morta. Qual o quê! Devem ensinar nas aulas das faculdades de jornalismo a aumentar a angústia das pessoas ao nunca colocar de cara os nomes dos bois. Dos mortos, quero dizer. Basta ter notícia de tragédia que noticiam: acidente na rota 345 com um óbito. Fodam-se os amigos e parentes dos milhares que estavam por ali no momento. Fodam-se as preocupações e os sentimentos que o que vale é vender mais. E quando mais gente angustiada, mais leitores.

Joaquim?! Só podia! Porque mais o universo ia lhe trazer tal notícia com tanta antecedência? Era para se preparar. Já tinha imaginado a sua morte de mil maneiras (mentira que acreditara em suas boas intenções). Mas nunca assim, esmagado por um asteroide! Melhor que morto por um tiro que arma ela nunca teria coragem. Nem faca. Coisa mais suja. Veneno talvez fosse mais simbólico. Mas asteroide! Um sinal dos céus. Deus enfim a tinha recompensado!

Não teve dúvidas. Correu para a garagem e pegou seu carro. Vermelho. Cor de sangue. Para inveja das pessoinhas do lugar ela tinha vencido na vida. Segundo os valores deles. Tinha se tornado uma expert em sentimentos humanos. Dava palestras que eram muito bem pagas.

Demorou umas duas horas para chegar ao lugar. Continuava o mesmo. Nem sinal do asteroide. Pelo jeito não causara destruição aparente. Uma pena.

A mesma praça pequena. As mesmas lojas de antes. O mesmo calor infernal. Mesmo no frio que fazia, ela podia sentir aquele ar gosmento e fétido. Eles eram os mesmos. Ela, nunca mais.

Chegou a tempo de ver uma procissão saindo da capela municipal. Aparentando ser uma turista, perguntou distraída: quem era o defunto? O seu Joaquim do Boteco. Morreu de cirrose. E o tal do asteroide, quis saber? Era um que passava na cidade, se escondeu embaixo de uma árvore quando viu a bola de fogo. Não é que deu azar e a árvore caiu sobre ele?

Enquanto voltava pela estrada estadual, aumentou o som da música. Que tocou a sua da adolescência. Bosta de vida, pensou consigo. Nem nos céus se pode mais confiar. E apertou o acelerador.    

   




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Rascunho da vida cinzenta

Amanheceu a manhã de um dia qualquer. Um daqueles que escorre devagar e vai se formando na alma da gente como gota que pinga de um remédio. 

Arrastou as cobertas de supetão, mas antes correu os olhos pela tela que lhe mostrava o que tinha acontecido enquanto dormia. Deu um suspiro ao ver as notícias. Melhor ver os gatinhos que eram mais fofos e enterneciam mais que as tragédias e mesmices dos sites de imprensa.

Passou por debaixo do chuveiro sem tempo para aquele banho demorado em que podia meditar. De todos os pecados inconfessados destes tempos de cobranças comportamentais, o banho era o pior. Gastava água sim. Sem remorso. Sem vergonha. Tinha lá os seus pecados. 

Engoliu um café preto misturado com pedaços de pão com manteiga e saiu à rua.



A rua. Cada dia mais assustadora. Tinha vezes em que se imaginava nos tempos em que as pessoas não tinham necessidade de sair dos muros e quando o faziam, eram em comboios intensamente vigiados. Mas não só os perigos de fora a detinham. Os de dentro eram os mais assustadores. 

Por fora era calma e serenidade. Por dentro vulcão e caos. 

Todos deviam ser meio assim nesses tempos loucos em que ninguém se revela mais. Ou seria só ela a sentir de maneira tão completamente diferente que nada mais fazia o menor sentido?   

Bobagem. Parou e respirou mais fundo.

Devia ser o cinza que teimava em não ir embora...Quando o sol aparecia, tudo se tornava mais fácil. Até lá restava aquilo que era cada vez mais difícil de lidar.

Tanto lidou com a morte que a vida perdeu o encanto. Assistir às agonias de tantos, suas decadências e refletir sobre se suas trajetórias tinham valido a pena a faziam perder o gosto mais profundo das frutas e gostosuras. A vida afinal, pensava, não passava de uma sobrevivência em que todos voltaremos ao pós e de nós nada mais restará. Nem a lembrança dos que um dia nos amaram a ponto de se importar conosco.

Um dos primeiros sinais foi uma estranheza com a rotina. Não que ela ficasse ruim. Pelo contrário, ficou mais leve e necessária. As ousadias que faziam o coração bater mais forte foram se perdendo pelo caminho. Encostadas numa cadeira, esquecidas ao pé da mesa. Sumiram.

Depois foi um esquecimento. Começou com as palavras. Elas teimavam em sumir na hora mais necessária. O vocabulário foi minguando, simplificando. Meio que se limitou ao banal.

Depois foram os amigos. Os amores. Até os amantes foram sendo largados como fardo que se despe para facilitar o caminho mais árduo.

O olhar foi ficando mais longe. Parecia a mesma. Só que não. Não mais.

A cada dia cravava a faca mais um pouco. Ninguém notava. 

O sol nascia. Morria. E ela também

terça-feira, 13 de junho de 2017

Patética

Aquele dia/semana/tempo que não acaba em que tudo fica cinza. Não é depressão não. É um quê de inadequação, de desligar de si mesma.

Patética.

Quem nunca?
Nada dá certo. Pior que isso, não dá vontade nem de tentar. Muito patético.

Qualquer migalha vira montanha. E nem TPM a gente tem mais para servir de desculpa. A criatividade míngua. A fome aumenta. (Parece que são interligados - estômago e mente se unem e desunem em total sintonia esquisita que aumentam e diminuem de acordo com a circunstância.)

Uma vez eu imaginava que havia em mim um botão de liga e desliga. Era antes de existir essa coisa de bipolar. Era coisa de adolescente.

Mas vamos convir que já deixei o aborrecido período teen há várias décadas atrás. 

O me sentir tão patética de hoje tem mais a ver com uma desesperança de agir. De sentir que o meu pensar e sentir se tornou tão absoleto. Que o que saí de mim é irrelevante. 

Eu me perdi de mim.

Obvio. Não sou burra e já me conheço de longa data. Já fiz terapias de autoconhecimento, gestalts, biodanças, li livros de auto ajuda. Fiz grupo, individual. Sei todas as receitas que possam me dar. E que agradeço pelo carinho.

Mas eu me perdi de mim.

E quando me perco, não há braço que sirva para me tirar do redemoinho. Eu fico no meu "patético período de desligamento". Minha energia se esvai feito espuminha no ralo. E eu fico expectadora. 

Cheia de expectativas.

Não sei se são ovo ou galinha. As expectativas atrasam a vida de gente. E nesses períodos de patética sensação, elas assomam de uma maneira atroz. 

Talvez seja tudo uma questão de auto estima e a minha esteja baixa. Na verdade a necessidade de respaldo externo para contrapor à insegurança interna.

As respostas estão na ponta da língua. Engolir e digerir talvez façam o botão ligar a luz interna. Vá lá se saber.

(junho - mês complicado e sem inspiração. Escrevendo a base de boleros para ver se alguma parte de mim reage, nem que seja por sentimentalismo barato e essa apatia medonha vá embora)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Fale seu amor para que ele perdure


Estava arrumando umas coisas e achei uma folha escrita à caneta tinteiro. As linhas já meio apagadas numa folha daquelas bem finas que a gente usava para escrever cartas. A data? 12 de junho de 1967. 

Quem não é desse tempo não entende. A gente não tinha whatsapp, nem email, nem celular. A gente escrevia a mão. E como o correio demorava, entre uma e outra correspondência, a gente escrevia muito. Longas cartas. As minhas tinham desenhos, recortes, cores, tudo o que pudesse mostrar para a outra pessoa o que a gente estava sentindo.

Era tipo olhar o universo. A gente mira uma estrela, mas aquela luz pode nem existir mais nas enormes distâncias que atravessa para chegar até nós. 

Assim eram as correspondências. 

E por isso as folhas finas. Imaginem cinco, sete, dez folhas em um envelope! Sim!!! Eram textões! E como eram aguardados! A gente não se contentava com telegramas. Estes eram para as notícias urgentes, e normalmente elas não eram boas...."se fosse ruim a gente já sabia" era uma frase comum. As más notícias vem à galope! As boas vinham pelo correio.

Mas tinham os whatsapps da vida. Aqueles recados que a gente não dava ao vivo. Guardava para serem entregues por escrito. Uma dessas achei nos meus guardados.

Em tempo: sou acumuladora. Nasci de um pai acumulador. Curto o passado e as histórias. Acho que alicerçam o futuro. 

Dito isso, volto ao tema principal. Em pleno junho de 2017 encontro em uma folha fina de papel, escrita com caneta tinteiro quase gasta, uma declaração de amor de meu pai para minha mãe. Um poema que veio, segundo as suas palavras, junto com um buquê de rosas. E como sempre assinava "teu eternamente enamorado/apaixonado" Paulo.

Fiz uma cópia digital e passei para um papel mais durável para que minha mãe sinta, aos seus 91 anos, o amor de seu namorado que se foi há três anos, mas que deixou mais que recordações que a sua memória vai aos poucos misturando. Deixou palavras escritas que se juntam às que disse e aos carinhos que praticava diariamente. 
Por isso quando vejo, hoje, tanta gente em busca de um amor bonito, desses que durem até a gente ficar bem velhinho e façam a lembrança resgatar momentos que justifiquem uma vida, eu lembro: adubem. Falem. Gritem seu amor de forma bonita. Ele não perdura se não for regado de forma sistemática. Além do respeito e da cumplicidade, lembrem do romance e do encantamento.

Façam com que o amor seja como uma estrela que continua brilhando mesmo depois de perecer. E que encanta a alma de quem a vê nas noites mágicas em que os cabelos brancos se perdem no coração eternamente jovem. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

De uma mulher qualquer

Iluminada.

Acordou cheia de luz. Dessa luz que não importa o cinza nublado de fora, ela inunda a alma e se esparrama feito maria mole pela vida. Nem bem sabia o porquê. Nem tinha motivo.

Ela que fora parida por Maria/Joana/Clarice/Rosemari. Gerada em uma noite de lua cheia e ardente em que fora seduzida pelo Mario/Miguel/João/Claudenir que a envolveu em seus braços, arrotando palavras de sedução tão novas e delirantes.

Mentira. Foi uma foda dessas de fim de noite, entre duas pessoas que nem mais se olhavam de tão conhecidas, dessa convivência que vira fardo, vira vida tão normal que cansa. Cansa até os poros. Nem sabe como tiveram energia para que um ovulo se abrisse a um espermatozóde. Deve ter sido descuido. Só pode.

Oito meses depois nasceu aquela guria mirrada. Feinha que dava dó. O Mario/Miguel/João/Claudenir já tinha morrido em um acidente de trabalho. Depois de uma jornada de oito horas, foi fazer bico de segurança. Bala perdida numa briga qualquer de bar. Um número nas estatísticas e uma notinha de blog policial. E fim. De herança deixou uma foto 3x4 e uma certidão de casamento. Com outra que não era a Maria/Joana/Clarice/Rosemari.

Oito meses. Sempre fora apressada. Não esperava as coisas se ajeitarem. Ia em busca delas nem que tivesse que passar por cima dos conselhos da tia. A mãe tinha partido em busca de novos caminhos. (Ela imaginava para amenizar a dor de a ter perdido para uma dessas epidemias de dengue/gripe/sarampo/febre-amarela que grassavam por aí)

Cresceu inquieta. Tinha uma secreta luz, uma quimera escondida que teimava em arder nas horas mais esquisitas. Tentava esconder. Vestia roupas maiores que ela, as que lhe davam de favor. Deixava o cabelo crescer para que tapasse o peito. As vontades. Os desejos.

Os desejos sangravam dentro dela. Ela mesma sangrava.

No começo levou um susto. Brincava ainda de bonecas quando veio aquela coisa gosmenta. Achou que tinha se machucado. A tia explicou que era assim mesmo. Sina de mulher. Vinha todo mês e tinha que deixar as brincadeiras com o Joaquim/Francisco/Antonio/Vicente (na verdade com todos eles). Agora era mais complicado. Ela tinha que pensar no futuro. Era mercadoria valiosa se bem cuidada. (A tia devia estar esclerosada, onde já se viu? Aqueles amassos é que a faziam se sentir querida e amada. Mais que nunca na vida)

Mas tinha uma coisa que não abria mão. Ela escolhia.

Sei lá, já nasceu assim. Esquisita. Cheia de manias.

Ouvia boleros. Lia muito. Gritava de prazer. Criava suas próprias versões para a vida. Por dentro.

Por fora era comum. Até demais. Mais uma dessas Magalis/Anas/Iaras/Lúcias que passam nas ruas, espantadas e sobreviventes de uma linhagem secreta de amazonas que caíram sem nem saber em uma terra de misérias.

Um dia, quem sabe, mistério/êxtase/luz/caminho, lhe resgatariam dela mesma.

Porto Alegre, junho chuvoso de 2017. Brincando de escrever contos como um desafio. E como sempre deixando sair de borbotão, se refinamentos e sem revisões. E morrendo de medo (e vontade) de perguntar a opinião sincera de vocês.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Atire a primeira pedra quem nunca errou

Quase todo dia somos bombardeados por uma polêmica nova nas redes sociais. E algumas são claramente calcadas em uma total Intolerância com o pensamento alheio que, muitas vezes, nem merece uma lida ou ouvida com atenção e despida de pré conceitos. Sabem aquela velha prova de interpretação de texto que pegava muita gente no colégio? Continua pegando. Tem gente recebendo pedradas de quem não entendeu nada do que ouviu ou leu. E acha que entendeu.

E não estou falando nem em ter opinião diferente. Isto é outra coisa. É não captar mesmo o contexto. Pessoa citou algo como exemplo e pronto, é julgada e condenada como se o exemplo fosse sua prática ou tivesse a sua concordância. 

E quando as ideias não combinam, então, saí da frente, porque as pedras vão vir. A maioria sem argumentos mesmo. Vão do vômito ao xingamento, sem apelo nem habeas corpus. Aliás estes instrumentos jurídicos parecem estar ficando obsoletos em tempos mais pragmáticos como os de hoje onde os fins justificam os meios. 

Sócrates bebendo cicuta
Não que perseguição às ideias contrárias seja novidade histórica. Que o digam Sócrates e as bruxas de Salem (e de onde mais estivessem). Sem esquecer das fogueiras e cadafalsos de uma história nem tão longe assim.
Caça às bruxas
O que distingue os tempos de agora são o alcance que essa intolerância alcança. Mesmo com erros que todos cometemos. Eu já os cometi, obvio. Já fui preconceituosa, mesquinha e maldosa em algum período de minha vida (me julguem). Por sorte tive a oportunidade de refletir e aprender. E a mudar comportamentos se os achava errados. E a pedir desculpas. E de aprender a não repetir. E isto ficou entre mim e a quem eu, involuntariamente, possa ter magoado.

Hoje não. Vira estigma. Um erro vira uma marca que talvez nunca mais saia. Tipo uma queima em uma fogueira virtual onde os mais fracos e/ou sensíveis podem acabar imolados. Alguns não aguentam a pressão. E a vida segue seu baile. Sem dar chances.

Atire a primeira pedra quem nunca errou.

Sim, eu sei que a frase original tinha a palavra pecou. Mas eu tenho um senão com a palavra pecado. Acho que vem carregada de muita carga religiosa e para muitos é uma linha intransponível. 

Minha noção de pecado é um pouco diferente. É tudo aquilo que se faz intencionalmente de mal para alguém. E este mal é tudo aquilo que eu não gostaria que este alguém fizesse para mim. 

Bem subjetivo. Mas para mim funciona bem.


E agora partindo de um ponto de vista bem pragmático: de que serve dar cicuta para alguém que nos incomoda beber ou decapitar desafetos? O que nos acrescenta como pessoas? O que acrescenta à humanidade? Não é isso que fazemos quando usamos nossos dedos e mentes para julgar, condenar e aplicar a pena em alguém? Que muitas vezes nem conhecemos? Que ouvimos falar, que lemos numa rede social? Que nem sabemos se é de verdade ou mentira o que disse ou o que disseram que disse?

Fazer justiça com as nossas mãos nos dá que tipo de prazer? Não seria mais producente acharmos uma alternativa de conhecer mais a fundo, olhar o outro com um olhar mais isento? Tentar entender seu ponto de vista? (Ah! vai dizer isso para quem matou, roubou, feriu? Tá com pena, leva para casa, dirão os mais extremados). O que me sugerem é voltarmos aos tempos de Antes de Cristo? Olho por olho, dente por dente? Alguém matou meu amor, eu vou lá e mato a pessoa, ou o seu amor para que sinta o mesmo? Vai trazer meu amor de volta ou vai me transformar em um assassino como ele?

Humanidade.

Não creio que seja uma palavra sem sentido. Amor, generosidade, compreensão e empatia. Receitas simples para um mundo em convulsão. Começa dentro de cada um de nós. Pode ser trabalho de formiguinha, mas acho que vale tentar.