domingo, 28 de maio de 2017

Guardiã das memórias


Acordou. Foi aos poucos. 

No começo uma estranheza pequena. Uma vírgula fora do lugar. Uma frase desconexa. Uma palavra com outro significado.

Mas como o mundo parecia tão igual não notou.

As vírgulas se transformaram em pontos. De exclamação. Ela tentava juntar as peças. Contava com uma boa memória e com farta bibliografia, recortes de jornais, todo tipo de lixo acumulado que teimava em guardar nem bem sabia o porquê.

Agora compreendia.

Era a maneira de ligação. 

No começo achava que era com o passado. Mas qual passado? 

O que ela lembrava, e onde construiu suas certezas, tinha uma história. 

Esse no qual acordou tinha outras histórias. No começo achou que eram versões e visões diferentes. Mas não podia ser tão simples. Pessoas lhe contavam de um passado que ela não vivera. E com total sinceridade. Não podiam estar inventando. Nunca. 

Teve que admitir que em algures cruzara um portal e entrara em uma realidade paralela. 

Era a explicação mais lógica. 

Interessante que outras pessoas cruzaram com ela. E todos tão perplexos como ela. Seria o tão falado final dos tempos? Ou apenas uma brecha perdida em multiversos naquelas teorias que ela nunca compreendia em seu pouco alcance intelectual.

No começo ficou incomodada. Lutava. Gritava. Respondia a cada incongruências com analíticas observações. Aos poucos notou que era uma batalha de Sisifo. 

Deixou-se estar. 

Tinha a secreta esperança de encontrar a porta para o seu mundo. E se não, quem sabe outro,mais  paradisíaco ainda. Brincava com a ideia de reencontrar pessoas amadas que ainda viveriam nesses outros mundos. Ou com dimensões onde os tempos se cruzassem. Em sonhos até conseguia. Mas sonhos todos sabem que são criações de nossas mentes. Ela queria era a realidade.

Mas não essa realidade que via na rua. Essa que as pessoas arrotavam suas incoerências com a coragem dos parvos. Queria a do mundo em que as pessoas se desnudam e tem a ousadia do arremesso nas suas verdades. Essa em que os corações batem na mesma sintonia do universo e com ele formam uma sintonia. 

Mas qual! Até mesmo no seu mundo isso era visto como coisa estranha. Talvez os universos paralelos fossem no fim criação das mentes humanas em um imenso jogo parido sabe-se lá por quem.

Até lá teria que conviver com as incertezas e com uma única certeza: a de ser guardiã do que tinha havido. 

Para quem? Nem importava mais. Para ela mesma. Para que não adormecesse. Para que não enlouquecesse. Para que não morresse.

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