sábado, 18 de fevereiro de 2017

As muitas eus dentro de mim





O Livro do Desassossego - Bernardo Soares (ou é obvio, Fernando Pessoa), Obvio? Nem tanto. Se o fosse não haveria a necessidade de heterônimos que são as outras facetas de cada um de nós. 

Existe em mim a Espantada de Souza que quanto mais lê, menos entende e prefere se refugiar nos poemas e gatinhos. 
Da vida e suas inquietudes. Ando pelas ruas procurando um algo que faça sentido e talvez o sentido do algo seja justamente não ter nenhum. Niilista? Mas se nem sei direito o que é isso, que nunca fui dada a entender profundamente teorias. Sempre achei meio cafona andar arrotando sapiência de gente que já morreu faz tempo. Ou se está vivo, é tão inteligente que nem parece de verdade. Se disse e serviu para ele, que faça bom uso. Me aproprio do que me serve. O resto junto na lata das possibilidades que não me calam à alma. Largo tudo e vou ronronar.  Espantada de Souza
Existe a Antônia Caparelli, a alma gringa que me habita, que escreve poemas eróticos, bebe muito vinho e gargalha de prazer. 

Hoje acordei de alma cigana. Dessas de correr o mundo, sem eira nem beira. Vestido rodados, muita cor, muito ouro brilhando para mostrar riqueza. Meu olhar te procura em todos os olhares que sinto sobre meu corpo enquanto rodopio na dança. Todos me desejam. E eu desejo a ti. Nem que seja por momentos loucos entre um vinho e outra dança...Antônia Caparelli  
Há ainda a Maria da Silva Só, a de olhar puro e alma ingênua que teima em acreditar na humanidade e ter esperanças na vida. 
Sim, creio. Creio na potencialidade humana, ainda que mal aproveitada. Creio nas pessoas e na sua infinita capacidade de renovação. Creio na luz que me cerca e que um dia vai me reunir à sabedoria do universo. Creio na capacidade de escolher e mesmo que seja ilusória, crer me faz feliz e me dá força de ir em frente. Maria da Silva Só   
Fabiana Von Koseritz é a revolucionária do pau oco. A que vive de certezas que não se transformam em ação. Chispa indignações pela venta, mas as transforma em axiomas pessoais e faz das palavras sua arma mais forte. Mas não se arrisca por isso nunca será uma verdadeira guerreira.
A rebelião? Meu avô maragato já estaria com manchetes em seu jornal partidário e de arma em punho partindo para a revolta. E talvez morresse de novo em tenra idade. A mim resta a observação e análise da seletividade dos neo indignados que se moveram de acordo com as cordas que lhes comandam. Falta-me a coragem louca santa de meu avô, o de olhos de águia como meu irmão descreveu. Fico com o mundo dos absurdos, sabendo que nada faço para que ele se termine. Talvez seja mais realista, mais pragmática. Mais medrosa, enfim. Os outros que não agem, não sei a razão, Cada um sabe a sua já que, aparentemente, perdemos a noção de união. E talvez por isso sejamos mais fracos no momento. Fabiana Von Koseritz
E por fim, ainda que não só, que não existe isso de ponto final, existe a Belmira Doralice Estelita Augusta, a que reúne a alma velha de todas as que me precederam....

Sossega o facho guria. Reúne os pedaços de tua alma e faz como todas nós que vivemos antes, carregamos fardos que nem imaginas e nem por isso deixamos de criar filhos, cuidar da casa e sobreviver. Muitas de nós tivemos sonhos e amores irrealizados. Sofremos dores inimagináveis. Fomos meninas, mulheres, amantes ardentes, carregamos várias facetas que nem imaginas. E nem por isso deixamos de te legar nossa história e semente. Assim somos nós, mulheres, carregadoras das lendas e possibilidades. De nós surgiram outras que nos seguirão nessa sina pelos milênio afora até que essa terra que tanto esmagamos vire poeira novamente. E de nós nada mais reste. Nem memórias. Belmira Doralice Estelita Augusta   

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Cura para um coração partido

Ano passado me dei de presente um livro chamado "Uma pergunta por dia". 365 perguntas - 5 anos - 1825 respostas. Parece coisa de adolescente. E é. 

Para a adolescente que teima em morar em mim, em ti, em nós. Sei de gente que guardou para iniciar no ano novo, zerando o velho. Eu não. Boa ariana e noa neta de minha Vó Belmira, que só conheci de fama, comecei assim que comprei.

Já respondi sobre tudo e várias perguntas me fizeram pensar. O que é o mote de qualquer livro, inclusive os diários. Mas a pergunta de amanhã me pegou mais: 
Escreva a cura para um coração partido   

Vocês se deram conta da profundidade da pergunta????? Todos já passamos por isso, em maior ou menor grau. Seja por decepções amorosas, seja por mágoas com amigos, parentes, pessoas que importam demais para nós e em quem colocamos expectativas.  

Primeira palavrinha para prestar atenção: Expectativa 
Expectativa : situação de quem espera a ocorrência de algo, ou sua probabilidade de ocorrência, em determinado momento.

Esperar algo sempre é roubada. Ainda mais quando se é criativa E sensível. A gente imagina a situação FUTURA com riqueza de detalhes e quando ela não acontece, ou não acontece como a gente espera....a probabilidade de haver uma contusão no coração é enorme.

Tá, tudo bem, a gente caiu na cilada. Se apaixonou. Se entregou. Confiou num amigo/amiga. Achou que o mundo ia nos responder do jeitinho que a gente responde para ele...e se ferrou. O amor sumiu, desapaixonou, fomos traídas, os amigos foram levar a vida deles e a gente ficou num cantinho. Coração gemendo de dor e mágoa. Partido.

Fazer o que? 

Reconhecer a dor em primeiro lugar. Acho que é nem luto. A gente reluta, custa a crer. Fica achando desculpa e se enganando que não aconteceu. E aconteceu. Ponto. Chore, grite, esperneie. Mas caia na real e reconheça que está sofrendo.

Li esses dias que para cada coisa ruim na vida, devemos ter três coisas boas. Pelo menos. Então mime-se. O mundo não te ama? Ame-se

Ninguém vai amar quem não se ama e não se respeita. Portanto se dê presentes, faça coisas que lhe façam bem só pelo prazer de fazer. Mas pense em coisas que não custem nada. Só um exercício. Uma que não vai fazer um rombo no orçamento e outra que vai fortalecer o SER e não apenas o TER.

Uma lição que eu aprendi na vida: não faça mudanças radicais nessas horas. Espere para faze-las quando tudo estiver mais calmo e seu coração mais inteiro. Vá com calma e respeite o seu tempo. 

Respeito. Outra palavrinha mágica. Mude o foco de ninguém me ama, ninguém me quer, por uma visão mais amena e amorosa sobre você. Liste as suas qualidades (sem exagero), mantenha a realidade de se saber gente e não ser perfeita. No que errou, lembre de não repetir e de aprender.

Torne-se uma pessoa que você gostaria de ter por perto. 

Sorria. Sorria para você. Sorria para o mundo.

Agradeça. E lembre de reconhecer os belos momentos que vive hoje. E se abasteça dos que já viveu.

Não fique incensando quem já se foi. Mesmo que ainda do teu lado. Dê a liberdade que cada um merece de sentir e fazer o que quiser. 

Se isso cura coração partido? Não sei. O meu, nas inúmeras vezes em que se partiu (mentira, foram bem menos que isso) se curou ao perceber que a vida continua, é bela e nada como um dia após o outro, percebendo que a gente sobrevive sim. E ainda vive outras situações bem melhores.

Boa sorte na costura.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A vida me cobra mudanças

Dia cheio. Algumas coisas boas que nem tudo é ruim na vida da gente, mesmo quando tudo parece ruir feito circo vagabundo ao nosso redor. Mas mesmo assim cansaço mental. Às vezes nem sei se os neurônios estão começando o namoro com o alemão (ou desnamoro) ou se estão em tal estresse que andam feito tontos tentando entender em que gaveta se escondeu qual informação. 

Juro que vou tentar pensar que é coisa das seis décadas que se aproximam. Me arrumo para desopilar escrevendo. Isso depois de ajudar mãe a ir ao banheiro, fazer café, correr para cá e lá enquanto atende cliente pelo WhatsApp e tenta lembrar tudo o que tem que fazer tendo a certeza de que as poucas horas que dispõem na sexta feira naovão dar conta.

Aí escuto ruídos estranhos. Lembro que dei a gosminha para a gata vomitar pelo (gateiras entenderão ), corro para o quarto a tempo de ver a felina vomitar em cima da minha bolsa. De palha. 

Limpo. Respiro. 

Respiro de novo. Vontade de sumir para longe. Tão longe que nada conhecido me chegue perto. Aí me lembro que não só não renovei o passaporte, como para fazer isso tenho que fazer nova identidade. E mudar obviamente todos os documentos e locais onde ela consta como RG oficial. (Minha identidade é do DF. Do tempo de antanho quando eram feitas pela Polícia Federal....)

Nunca quis renovar porque tem só seis números e sempre achei muito vip dizer que meu RG é do Departamento de Polcia Federal. Agora vou ter que meter essa coisa "chique" no saco e enfrentar mais essa mudança.

Não gosto de mudanças. Quer dizer, até gosto de mudanças profundas, mudanças de ideias, mudanças de cidade, mudanças de vida. Até mudança de cabelo eu curto. Não gosto é dessas mudanças do dia a dia. 

O dia a dia me cansa. Não nasci para as rotinas da vida. 

Talvez isso esteja me cansando demasiado. Gasto uma energia imensa para coisas que as pessoas fazem no automático. E levo de letra aquilo que muitos precisam de terapias e comprimidos para enfrentar. Aquela frase da Clarice das coragens absurdas e dos medos bobos, foi feita para mim...

Ando em tempos de cobrar da vida. Cobrar de mim mesma. Gritar em silêncio as mágoas e medos. E no fundo só o que preciso é respirar e ter um tempo para mim mesma. Preciso ser egoista como as pessoas que conheço que fazem isso numa boa e a mim me custa cobranças imensas. 

O estado de não sei - embora sabendo bem - me ronda. A cabeça absurdamente cheia. E desorganizada. 

Fecho a década dos cinquenta com a preemencia de ser enfim mais eu. Seja lá o que isso for. A vida me cobra mudanças. Que venham então.