sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Das agruras de sentir conforme a Lua


As vezes se perguntava o que era ser mulher. Era mais que vestir rosa quando pequena ou sangrar todo mês desde criança ainda. Era mais que os não devias e os devias, limiar muito estreito que ouvia e seguia desde que se entendia por gente.

Era mais que abotoar uma blusa até em cima ou desabotoar de acordo com as circunstâncias. Era sem dúvida bem mais que ser bela em alguma etapa da vida e ser disponível para ajudar em outra.

Lá no fundo do seu ser se sentia mulher. Nem em outra encarnação, se existisse isso, queria voltar sem ser fêmea. Das agruras de sentir conforme a Lua, isso ela entendia. Mesmo que não tivesse parido, mesmo que não tivesse um macho para chamar de seu, ela sabia. 

Que isso de nascer mulher não depende apenas de uma conjunção de combinações de óvulos e espermatozoides. 

Mulher se criava nas sombrias e luminosas veredas dos universo, sob arranjo de deusas e anjas aladas que ruminavam antigas rezas para que de quando em quando, se gerasse na face do planeta terceiro daquele sistema de estrelas um ser que fosse em tudo apenas mulher.

Mas mesmo que se sentisse tão poderosamente mulher, tinha vezes em que era apenas uma garotinha carente. Dessas que caem na lábia de um lobo perverso. Desses lobos maus que a gente sempre acaba por se apaixonar porque em tudo mais interessantes que o caçador amigo.

Era uma vez um conto de faz de conta desses que se conta (e que talvez faça algum sentido se alguém não te interrompa, achando que teu trabalho de juntar letras pode ser retomado em um passe de mágica).

Era uma vez uma mulher que se sabia, que se sentia, que se amava
Vez que outra se desamava, se perdia, 
Perecia
Era uma vez um conto sem ponto
Um esgar de coisas sem muito sentido
Colchas tecidas por mãos alheias
Costuras que a mulher teimava reconhecer
Era um conto de faz de conta
Uma louca desvairada
Um sapato perdido num canto
um mancha de rímel desbotada
Era um olhar cintilante
Era uma risada desbragada
Eram tantas coisas juntas, esmagadas, retorcidas
Era apenas um rascunho
Mas amanhecia
A festa terminava
E a mulher reinava no seu reino de agruras enluaradas. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Primeiro surto, depois converso


Acordou com o sol da meia noite. Não, não estava em um país desses de contos de fada nórdicos, seu sol real fazia o movimento normal de ir e vir nos céus com alguma variação dependendo da estação. Era dentro dela que a claridade se fazia em plena escuridão. l

Uma estranheza. Apenas um quê que bateu esquisito na conversa de sempre. O dia tinha sido tão lindo que mal notou. Ou fez de conta que não notou. Ou não quis notar. Na verdade não.Tudo nela renascia e tudo nela não queria notar nada que destoasse do sol imenso que começava a brilhar por dentro.

Mas....o que pipocava dentro dela. Mais que as palavras ouvidas, o tom de voz era cortante. Ou eu coisa dela? Desconfiada desde que nascera, alma fugidia dessas que se entregam com as malas atrás da porta, prontas para seguirem viagem ao primeiro senão. 

Era ela. Surtava. 

Mas surtava calmamente. Com classe. Com elegância. 

Talvez como algumas vezes acontecia ia convergir paranoia e realidade muito tempo depois. As vezes décadas. 

Enfim, acordou com o sol da meia noite e surtou. 

Toda ela era um retorcer de pedacinhos de ilusão que se desfaziam, um a um. Conhecia esse sentimento de despertencer. 

Agora não. Respirou fundo com a certeza dos que já passaram dos cinquenta anos. E dos que fizeram terapia. E dos que acham que já se conhecem. E dos que encheram o saco de surtar dia após dia. Hoje não.

Hoje vou me dar ao luxo de descrer de mim. Vou fazer de conta que as respostas de fora não balançam, que talvez nem existam, que nada pareça não fazer sentido. Hoje vou me recompor.

Ou tentar.

E já nem importa se é amor que me falta, que quantas loucuras se faz por ele, pela falta dele, pela ânsia dele. Só por hoje vou respirar e deixar para lá. Vou desconstruir essa paranoia que me acomete em forma de desconfiança, pedacinho a pedacinho. Vou olhar para cada um deles e vou rir.

Talvez dias depois fosse realmente rir de tudo. Ou se não, o peso do coração talvez fosse menor. Talvez recolhesse de novo cada caquinho de sentimentos, unisse tudo em um mosaico colorido de boas vontades, colados com durex, com cuspe, com paixão e olhasse para cada um dos mosaicos que ia refazendo pela vida e que, pensando bem, formavam já uma linda colcha de retalhos.

Só por hoje. Só mais um dia.    

sábado, 14 de outubro de 2017

De um olhar fez-se o encontro

Era um dia de inverno cheio de brumas. Tantas que o avião marcado às pressas demorou horas para levantar voo. Mal sabia que sua vida ia mudar em poucas horas. Por ora apenas se lamentava daquele tempo que lhe atrasava a vida.

Enquanto descia as escadas da escala nem podia imaginar que um olhar a seguia. Nem quando sentou na espera interminável do destino. Sua mente divagava entre a observação de uma turma de nipônicos que faziam mil mesuras e a urgente necessidade de fazer com que a sua bagagem enfim fosse para o mesmo lugar que ela.

Levantou suas pernas em meias brancas, sua saia e blusa branca. Ela toda branca não fora uma casaco cor de maravilha. Ela toda maravilhas. 

Um balcão. Um olhar que a acompanhava desde a escada se faz homem. Ela desatenta nem presta atenção. Não fora o atendente mais sutil, talvez o momento não se fizesse.

Uma poltrona ao lado da outra. Uma conversa como tantas outras. Um observar analítico como tantos outros. Seria nada se não fora uma frase acidental que deixara escapar para aquele homem em tudo interessante que estava ao seu lado por acidente.

Um olhar se fez. Por um instante que durou uma eternidade ele a despiu em público. Não apenas seu corpo, mas sua alma, sua calma, seu bom senso, sua fêmea.

E ela gostou.

E esse gostar era em tudo diferente de tantos olhares que recebera em sua vida. Ali fez-se o encanto.

Não, não pensou ter encontrado sua alma gêmea. Apenas se permitiu viver.

Sua alma partida de um amor dolorido precisava de um porto. Altamente perturbador mas ao mesmo tempo seguro. Alguém que a fazia percorrer abismos com mais certezas que percorrera rotas normais. Alguém perverso mas que tirava dela o seu melhor.

Não pensou e mergulhou. Não de cara. Não de vereda. Mergulhou com calma e foi indo, indo e quando viu estava nadando em um oceano de plenitudes efêmeras e eternas.

Onde ia dar? Não sabia. E nem importava.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Palavras ao vento

"De amar muito deixas amor em teu redor, e quem passa por perto crê que tens a rosa por dentro..." tradução livre do poema que Omara Portuondo sussurra em meus ouvidos enquanto tento me concentrar para trabalhar nessa sexta feira 13 de um chuvoso outono nesta mui leal e valorosa cidade que um dia foi um Porto Alegre.

Um teste fajuto desses de redes sociais feitos com certeza para saber mais dos meus hábitos que para mim nada rendem, mas para que, unidos aos de muitos, se tornam uma das mais valiosas moedas de valor dos dias de hoje, a tal da Economia da Atenção...o tal teste me disse (na lata devo admitir) que não sou das mais tapadas, mas a procrastinação me impede de voar mais alto.

Sim. E com certeza. Procrastino com consciência. Preciso desse hiato para me religar no processo criativo. Absolutamente não sou das pessoas que agem. Sou das que pensam. E o pensamento está cada dia mais obsoleto....o que me leva a admitir que sim, sou um ser em extinção.

Absorvida em mil atividades nada financeiramente produtivas. Vá lá, deve haver alguma sabedoria oculta no universo. Espero.

Palavras ao vento. Cada dia me sinto mais em universos paralelos que se tocam infinitamente. É como se mergulhasse passado/presente/futuro em um turbilhão louco que gera o caos. E o caos há de ser sempre o prelúdio dos Re nascimentos.

Palavras ao vento para que delas se façam eco em algum recôndito ser, talvez exista um mundo onde as palavras recebam afeto e atenção. Talvez nesse Universo em particular, seja rentável se dedicar a pensar. Talvez nem saibam o significado da palavra dinheiro e das pessoas se espere apenas que façam algum significado. Para algo. Para alguém.

Enquanto sonho, o mundo real gira. Seus problemas urgem. Os boletos chegam. Os projetos me esperam. Mais que sonhos e ideias, precisam de significados e detalhamentos reais. 

Palavras ao vento. Recolho uma a uma. Uno em uma colcha de retalhos que formam mosaicos de uma vida que espera apenas fazer sentido. Um dia. Quiçá.   

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"Aborrescentes tardios" - tipos sem noção

"Criatura que não fez as bobagens na adolescência e resolve fazê-las na melhor idade..." Ouvi esta frase alguns anos atrás. Na época guardei mais como curiosidade que constatação. Mas com o rolar das páginas da vida (outra pérola que um antigo mestre de obras me brindava para falar das agruras das obras) e quanto mais cabelos brancos escondidos por tintas tenho na cabeça, mais encontro alguns espécimes peculiares de homens que fazem cantadas sem noção. E aqui uma pequena advertência, nada contra e tudo a favor de cantadas inteligentes e focadas na minha pessoa. O que acho risível e digno de pena até são os tipos que classifico abaixo:

METRALHADORA GIRATÓRIA - aquele que saí atirando a esmo. Mal te conhece e já vem mandando bala. E com uma cantada que cheira a receita de bolo. E de longe já sabes que faz o mesmo com qualquer ser de saia que passe perto dele. Imagino que a sua auto estima seja tão baixa que deva espalhar sua artilharia de forma aleatoria na esperança que alguma acerte...

MAIOR CARENTE - uma variante peculiar. Um pouco mais seletivo que o metralhadora, o maior carente apela para o sentimento maternal de toda mulher para destilar algum gatilho emocional que a faça querer salvá-lo. 

INTERESSEIRO POR SEGURANÇA - o cara parece tudo de bom, é querido, charmoso, promete e às vezes cumpre fidelidade é romance. Mas na verdade seu foco não é a pessoa em si, mas o que ela pode proporcionar: uma casa para morar (de graça de preferência), um plano de saúde, um carro...enfim, seu mote é bem material. Há quem só se dê conta depois de passar tudo o que tem para ele. Que corre para a próxima vítima. 

LOBO SOLITÁRIO: Um dos mais perigosos. Quase profissional. É inteligente e charmoso. Tem elevada auto estima e parece ser quase perfeito. Te acompanha na igreja, ajoelha e reza se for preciso. Vai à exposições de arte. Faz o que for preciso para chegar ao seu maior prazer. Que não é você, mas a conquista. Hábito que exercita para se manter em forma.

É lógico que existem os homens normais. Aqueles que não são perfeitos, não tentam se encaixar nas nossas expectativas e se aproximam com um real interesse por nós. Não tentam ser o que não são e sabem avaliar uma troca. E que bom que assim seja! Faz com que os outros, na comparação, assumam o seu mesquinho lugar de aborrescentes tardios.....

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Brincante das palavras

Ando pelas ruas procurando um tal tema que me agrade e que faça as palavras saírem fáceis e faceiras. Todos parecem não fazer já muito sentido. Nada parece fazer muito sentido. 


Eu já não faço sentido.

Quando a vida perde seu foco de nos permitir a busca de nossas necessidades básicas, entre elas a felicidade. ( e já parei várias vezes de escrever para tapar buracos de carência de alguém que também largou mão de seu foco para cuidar dos outros). E isso me leva a refletir que a vida não só é uma troca e só vale a pena se assim fôr(mania de tirarem os acentos diferenciais, for é muito esquisito, prefiro o errar com circunflexo. No fundo tenho alma rococó) como também nos pede respostas ao nosso próprio foco interno. 

Não sei se muitos já conviveram com pessoas mais velhas, bem mais velhas, naquele período em que já estão mais lá que aqui, e mesmo as mais gentis e educadas, sempre se tornam mais imediatas. Querem o que querem JÁ. E o que querem? Atenção.

O que queremos nós? Atenção. Do mundo, de nós, da vida. De quem amamos.

Fazemos o que fazemos em busca de atenção. Quando somos mais jovens pode ser em forma de clicadas, de alcance de objetivos, de compras, de polpudos salários e/ou honorários. Quando o espelho nos sorri podemos nos dar ao luxo de sermos mais condescendentes com a vida. Mas quando este mesmo espelho se torna mais cruel é que o essencial em nós toma conta.

Limites. Os que nos colocam. Os que colocamos. Os que rompemos de alguma maneira na despedida quando o fazer os noves fora pode nos dar sorrisos ou lágrimas imensas. Valeu a pena? Vale a pena? Cada um de nós sabe a sua resposta. Creiam que rodopiar pela vida vale a carga para alguns. Rodopiar por dentro para outros. Brincar com as palavras me faz sentido. Nem importa se cabe nos meus sonhos, se faz mais alguém sorrir, se é fácil de ler, se o português está correto. O jorro saí, sem rumo, sem planejamento e dele me abasteço.

Quando nada mais parece fazer muito sentido. Quando me sinto despejada em um universo paralelo onde todos (quase todos) estão tão ou mais atônitos que eu as respostas parecem ter desaparecido. Estão algures. Não que tenham também perdido o sentido que verdade não as perde nunca. Perderam a rota. Se fecharam em caixas mágicas onde talvez nos exijam buscas tipo o Santo Graal, tipo Xangri-lá, tipo algum sonho que nos habita desde sempre.

No meio da vida. Na verdade mais para o meio de lá que o de origem. Mas convivendo demais com a decrepitude. Com os esquecimentos. Com as eternas repetições. Com o não fazer sentido. Meus amparos se erodindo. Como não enlouquecer para manter a sanidade?

Brincante das palavras. Brincante de algum resquício de esperança que possa ainda morar em mim. Na verdade já me fui. Resta apenas carimbar o passaporte.  

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Todos os caminhos convidam e eu mergulhei

Confesso a vocês que li algumas resenhas depois de ler de uma sentada só o primeiro romance de Cinthia Kriemler. Seu nome? Todos os abismos convidam para um mergulho.

Já venho acompanhando a obra da Cinthia desde que a redescobri naquela rede social que a gente reencontra amigos de outras eras. A Cinthia pré adolescente que eu conhecera não só crescera como se tornara escritora. Ora vivas! Para uma leitora voraz como eu nada mais instigante. E não é que era das boas! Seus poemas e contos me tomavam de assalto, tinham ritmo não só das palavras e frases bem construídas, mas faziam a minha mente de arquiteta viajar pelos espaços que ela criara. Quando soube do seu primeiro romance tive que mergulhar. Pela primeira vez.

Quando o livro chegou li em um dia e meio. E porque tive que parar para atender outras coisas. E já concordo com todas as resenhas que li: não é uma leitura cômoda. Mas é inebriante. 

No começo fui tomada pela sensação que a contadora de contos (perdoem a redundância) tinha seguido seu instinto e a história era um retalho deles. Muito bem escritos mas pedaços de realidades. Até que: segundo mergulho. Os mosaicos se encaixaram de vez, os caminhos bifurcados começaram a se encaixar e o romance surgiu. Pleno. Cru. Perfeito.
Beatriz, seus amores, suas dores. Tantas mulheres com rotas não iguais, mas quase ou semi quase. Tão humana em suas falhas ou não acertos, ou tentativas. Ou apenas humanidades que buscam um sentido.

Seus personagens são densos. Mesmo os coadjuvantes são atores principais. Deles sentimos suas almas, seus também descaminhos, seus mergulhos, seus anseios.


Terminei a leitura com um nó no estomago. Mas não fiquei pesada. Apenas e tão somente com aquele suspiro que acompanha a vida real, por mais trágica e intensa que nos seja. Torcendo para um final feliz da Beatriz mas...

SPOILER - não leia se não leu o livro. Mas se resolver ler mesmo assim, você é dos meus, não se importa com saber ou tentar saber as respostas antes porque se sabe capaz de descobertas pelo caminho que nem sempre são as mesmas de outros.

Mas e como último mergulho antes de fechar o livro, gostei que a Cinthia não tivesse optado pela resposta fácil de que no fim tudo se resolve. As vezes, muitas vezes, os caminhos nos levam à mergulhos bem complicados e o que resta afinal é reconhecer os convites. E mergulhar.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma história de fim de tarde

Era tarde. Pelo menos parecia que era.

Não que fosse importante mas já corria o meio da tarde e urgia que corresse se quisesse saber a resposta. Nesses dias meio assim, sem som, sem chuva, em que a vida parecia correr sem pressa e sem graça, as urgências perdiam sua necessidade.

Talvez fosse bom. Vá lá se saber.

Correu os olhos pelo armário. Entulhado de roupas que um dia lhe serviram. Devia se livrar delas de uma vez já que não conseguia fazê-las caber em seu corpo. Colocou a mesma calça que lhe dava a harmonia das coisas conhecidas, uma camiseta mais básica e um sapato confortável. Disso não abria mão. Já aprendera que a vida é muito curta para bolhas nos pés. Abriu a porta e foi.

Antes uma gota de perfume e um batom ligeiro que mesmo na pressa não urgente havia lugar para alguma vaidade. 

Ligou o carro com a calma das rotinas. O rádio na mesma estação. AM que noticia lhe deixava mais atenta que música. Olhou rápido para o relógio. Mentalmente fez as contas. Sim, dava tempo. Detestava chegar tarde e tomar tempo dos outros.

Era das gentilezas diárias. Cresceu assim, educada e gentil. Achava bom. Fazia o mundo parecer mais civilizado. No fundo não entendia essas pessoas que precisavam se afirmar sendo grossas e deselegantes. Não sabiam então que quem tem razão não precisa gritar nem impor? 

Pareciam não saber. 

Não importava porque não era de se ligar à comportamentos que reprovava. Que fossem o que fossem se os deixava felizes. 

Enfim chegou. Não antes de dar voltas atrás de uma vaga. Detestava fazer balizas e não se importava em caminhar mais. Até gostava. 

Parou um pouco antes de bater na porta. Pensou que podia voltar, deixar para lá, esquecer, fugir. Respirou fundo. Se viera até ali, não ia ser agora que ia dar meia volta.

D. Luana! Gritou a recepcionista, sempre gentil, no seu uniforme cinza e batom vermelho. Sentimos sua falta. Palavras de praxe para todas as ex senhoras que cruzavam aquele caminho. Luana já era. Tinha sido. Agora não mais. Agora outra qualquer. Katrina. Joana. Marlene. Um nome diferente para mulheres tão iguais em seus sonhos e suas sinas. Um dia fora elas. Agora não mais.

Seu tempo tinha chegado. Era história. Na vida de alguém era história. Na sua era rota e trajetória. Sorriu para a moça com o sorriso de sempre. Por fora. Por dentro sorria era para si mesma. 

Correu os olhos pela sala. Um dia tinha entrado ali cheia de sonhos. Agora saía também cheia deles. Outros. Uma leve angústia marcou sua alma. Um frio gelado parou sua espinha. Era hora.

Abriu a porta. Entrou certezas.

domingo, 24 de setembro de 2017

Reflexões de um domingo entre ensolarado e cinzento

"Nada mais chato que ex fumante."

Ouvi muitas vezes dizerem isso ao meu pai que após deixar o vício vivia tentando convencer os outros a também agir assim. Sei de suas boas intenções e talvez até tenha conseguido ter alguém que o ouvisse, mas creio que seu exemplo talvez tenha sido mais profícuo que suas palavras.

Lembro também de uma definição de religião que li muito tempo atrás. Era mais ou menos assim, tipo a caverna de Platão: pessoas trancadas em uma casa em um dia esplendoroso de sol se recusam a sair, não importam os argumentos usados. Aí se grita FOGO, FOGO, FOGO e as pessoas correm para a rua. Ao abrir a porta são banhadas pela luminosidade e compreendem. Ou sentem. Ou enfim, não importa, curtem o momento. 

It's real life, my dear. Cada um tem o seu momento e sua trajetória. Se conselho vingasse não repetiríamos erros mas também não encontraríamos novas soluções. Assim é meio inglório apontar soluções, mas não deixamos de faze-lo. E ao fazer, contamos como achamos as nossas. E nesse contar, sem nos darmos conta, mostramos exemplos de como fazer: 


  • Olhar o mundo por uma nova perspectiva e fazer nossas versões pode ser uma maneira.
  • Meditar pensando numa parede branca como meu fazia, outra. Ele nem sabia que meditava, mas o fazia.
  • Enfrentar cada problema por vez.
  • Não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.
  • Saber escolher as prioridades para fazer o hoje.
  • Lutar pelo que acredita, mesmo que não seja a verdade absoluta da época.
  • Amar muito.
  • Não se contentar com o mais ou menos.
  • Trabalhar com a positividade, com o sim e deixar o não de lado.
  • Não dar murros em ponta de faca. Afinar a sensibilidade para saber a hora de trocar de rumo.
  • Aprender com as lições, seguir adiante e não as ficar remoendo mais.
  • Em uma encruzilhada, escolher um caminho e esquecer os outros.
  • Saber conciliar seus desejos com os desejos de quem se ama.
  • Se amar sempre. Auto estima é fundamental para a sobrevivência. 
  • Agir. A teoria é bonita, mas é a prática que move o mundo
Enfim, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E sempre saber que o dia amanhece, mesmo depois da noite mais escura.


sábado, 23 de setembro de 2017

Ninguém disse que me fazer de forte me doeria tanto

Fazia tempo que uma noite não era tão comprida. Pensar, remoer, doer. 
Doía. 
A vida doía como bem lembrara sua amiga escritora. 
Em algum ponto do caminho derrapara na curva. Urgia encontrar o retorno. Se ainda havia algum. Às vezes achava que se fosse um pouco mais corajosa podia meter o pé no pedal e mergulhar no fim. Mas até para isso pensava nos outros primeiro. Não queria machucar ninguém. Que se machucasse sozinha. Ninguém mesmo se importava. 
Havia sim quem se importasse. Achava que havia. 
Suas dores que a carregasse sozinha que assim tinha sido escrito. Era seu carma. 
Essa coisa de carma é explicação besta para dizerem: fique com suas queixas e não venha nos amolar. Cada um carrega as suas e assim foi e sempre será. 
Queria ter estômago para aparentar mais fake happines. Aquele saudável egoísmo de expor uma vida esplendorosa nas fuças de todos para que a admirassem. Qual o quê. Tinha mais paciência para isso não. 
Tinha esgotado. 
Que contasse com seus ombros que eram frágeis mas eram fortes. Que acumulasse tensões que viraram bolas imensas que as mãos da massagem nem conseguissem dissolver.
Tinha que haver uma razão. As daqui não faziam mais sentido. Quem sabe alhures....

domingo, 17 de setembro de 2017

Abriu a porta

Abriu a porta.

Tudo era novo naquele olhar que amanhecia para a vida. Correu os olhos pelas paredes em que a pintura carecia de novo retoque. Pousou seus dedos pelos móveis que revelavam um passado mais ditoso e onde os cupins marcavam sua fome. 

"Para que uns sobrevivessem, outros tinham que fenecer." Riu da sua ideia. Pareceu tolice de adolescente, coisa que ela tinha uma vaga recordação de ter sido um dia.

Mas mesmo assim, sorriu. A vida lhe pareceu boa. E fosse lá explicar esse milagre de achar graça onde tudo parecia ruína? Tem coisas que não se explica não. Se deixa sentir e só.

Abriu a porta.

Sentiu falta de uma violeta que pudesse lembrar ternura. Anotou mentalmente na sua lista de compras. Havia de sobrar uns trocados para um gesto de beleza. De repente entendeu o cara que morava na rua, aquele que trancrava a respiração, envergonhada, pelo cheiro que empesteava suas narinas, dos dias e anos sem uma gota de água a lavar humores e fluídos que de tão naturais, não se fala, só se faz escondido. Ele que, mesmo em meio à feiura da miséria, guardava uma garrafa usada onde colocava uma flor furtada de um jardim qualquer. Da próxima vez vou piscar para ele anotou mentalmente.

Abriu a porta.

Olhou de leve o jornal, as redes sociais. As manchetes gritavam obscenidades. Melhor seria largar tudo e ir à uma exposição ver um outro jeito de ver a vida. Qual o quê, já tinham fechado. Se não restasse mais a arte, mesmo que polêmica, exatamente por ser polêmica, como ia aguentar o tranco? Afastou a ideia, era loucura pensar que o mundo poderia voltar à tempos em que tudo isso acontecia. Nunca mais, pensou aliviada. Mas e se (?) pensou assustada.

Abriu a porta.

Leu comentários de sua bolha social. Bons tempos esses em que a tecnologia já filtrava o que se podia ver e principalmente a quem ler. A gente até chegava a imaginar que o mundo concordava com a gente e era como uma volta à infância onde a gente podia brincar de faz de conta que o mundo nos entende. Mas tinha uma coisa acontecendo. Seus iguais agindo como os outros. Deixaram de ser feministas e começaram a xingar uma mulher de vaca, de mal comida, de arrogante e de outros afins por um ato que a seus olhos era normal. Ou deveria ser. Tentou pensar que era ela a errada. Quem sabe...

Abriu a porta.

Tentar sobreviver talvez seja isso. Navegar apesar de. Não se fiar em tribos nem em dogmas. Acreditar em ideias e não apenas em pessoas. Era ter suas versões da história, dos enredos, era rir de si mesma. Era alguma coisa que um dia descobriria. Por enquanto se limitava a abrir portas a cada dia. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Acordou velha

Era um tempo complicado. Ela saia de si às vezes para tentar achar um rumo que fizesse mais sentido que o que vivia.
Todos me chamam de Moira. Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos comigo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas. Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passaram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorável, o fruto da maturidade. Benoîte Groult, Um toque na estrela
Acordou velha. E não apenas pela pele flácida e os cabelos brancos que teimavam em aparecer sobre as camadas de pintura que tentavam driblar o tempo nesse mundo onde ser jovem é quase uma obrigação. Tudo bem que os remédios, antes inexistentes, iam aumentando a cada consulta médica, que os amigos iam morrendo sem explicação e que o tempo que sobrava era infinitamente menor que o que percorrera. Nada disso no entanto a fazia mais velha que a desesperança que teimava em lhe acompanhar a cada manhã.

E nem vinha tanto dela que era otimista desde que abrira os olhos ao mundo. E foi em um parto com penumbra, música de fundo e pai no quarto. Anos antes do Leboyer se tornar famoso e propor o seu parto sem violência. Talvez essa recepção à vida lhe marcasse profundamente e lhe desse esse jeito diferente de ver e entender o mundo. Talvez fossem as conjunções astrológicas que a fizeram ser uma dupla ariana com total imersão na 12 casa. Talvez fosse DNA, lembrança ancestral de gente que sentia e lutava e amava e vivia que a fizera assim. Talvez fosse ela. Vá lá se saber.

Mas com tudo isso e mesmo assim acordou velha. Pesada. Descrente. Uma vontade pela vez primeira de ter a coragem suficiente de largar tudo e ir começar em outra pátria um mundo mais generoso. Ou menos tacanho o que, como já dizia Francisco, não é o mesmo, mas é igual. 

Uma réstia de luz, um arco iris, um unicórnio voador, uma deusa celta, qualquer coisa mais simpática para brilhar seus olhos que teimavam em focar na hipocrisia e teimavam em tentar encaixar sua maneira empática de ser com a sua própria convicção interna. 

As vezes se sentia como aquele marciano do conto de Bradbury que se metamorfoseava em muitos para sobreviver e terminava morrendo em pedaços que não se encaixavam nele.     

Acordou velha porque nela as luzes iam se apagando. Uma a uma como naquele outro conto "Os 9 bilhões de nomes de Deus". Sim, lera o Despertar dos Mágicos. Como lera o Relatório Hite, O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir e obviamente Capra e Gestalt. Anos 70 eram fecundos. Ela era jovem e questionava. Participava. Tinha opinião formada sobre tudo. 

Os anos passaram para todos. Até para ela. Seus antigos amores morreram. De doenças normais da velhice. Suas amigas falavam de netos. A roda do mundo andava e era cruel. 

Nem tanto no corpo que ele é consequência de suas escolhas e ações. "Aos 20 temos o corpo que a natureza nos deu, aos 40 o que merecemos". Aos 60, mesmo agindo mais que fizera, dificilmente deixaria de revelar os sinais do tempo. A menos que se deixasse seduzir pelos botox que fazem mais pela igualdade de gênero que muita revolução. Não podia deixar de sentir uma certa ironia por ver como muitos homens e mulheres lustrosos se pareciam cada vez mais.

Talvez a velha ironia, agora transformada em um olhar mais amargo, tivesse sua parcela de culpa na velhice que lhe acometera. Difícil ter um olhar mais ingênuo olhando a loucura do mundo atual. Mas era justamente isso que escutara de avós e pais que repetiam que seus tempos eram melhores. 

Chegara ao seu tempo de ser velha.

Urgia trocar a roupa da amargura pela da maturidade. Urgia fazer um pacto com Moira para voltar a ser leve como um pássaro que alça voo.        

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Perseguida

Puta! 
Mil vezes puta! 
Puta da cara
Puta da vida
Puta destemida

Puta mulher! 
Puta guerreira
Puta da vida
Sempre perseguida

Puta escolha
Puta destino
Puta da vida
Cabeça sempre erguida

Puta merda
Puta do caralho
Puta da vida
Lição aprendida

Puta amiga
Puta ternura
Puta da vida
Menina tímida 

Puta chamada
Puta assumida
Puta da vida
Nunca reprimida

Putas todas nós 
Putas gritantes
Putas da vida
Mulheres escolhidas

Putas que nos parimos 

domingo, 27 de agosto de 2017

Ervilhas, ora direis olhar estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Sem querer abusar do Bilac, mas já lembrando dos tempos idos e vividos, volto ao passado que já nem sei ao certo se aconteceu neste universo, ou em um dos outros tantos em que já vivi. Com certeza em um deles eu era uma andarilha peregrina que achou abrigo em um palacete e onde me colocaram em uma Queen Size Bed de altura astronômica. E onde passei uma noite danada de mal dormida que se traduziu em olheiras terríveis e um mal humor do cão que, obvio, acabou por afastar aquele cara lindo que mais parecia um príncipe. Tudo por causa de um grão de ervilha que alguém esqueceu abaixo da camada de espuma da Nasa.

Em outro universo fui uma menina que trocava o volei e os passeios de bicicleta pela leitura de contos de Andersen. Mas que não abria mão dos patins.   

Ilustração de Nacho Naolino Diaz
Fui crescendo e aprendendo que os contos de fadas são armadilhas, historietas que guardam algum tipo de moral para que mentes inquietas sosseguem a cabecilha. Talvez ainda sirvam para que em algum lugar secreto persista uma pequena ilusão de que a vida é um pouco mais que mera sobrevivência.

Enfim, só sei que das bobagens de infância, guardo uma sensibilidade extremada que se traduz por ervilhas. Montes de ervilhas!

Lá estou eu em um belo projeto, cheia de esperanças e ganas de concretização e, numa virada de olhos, um cerrar de sobrancelhas, uma palavra bonita não dita, aparece aquele carocinho incomodativo. Uma pontinha dolorida, uma aula de alongamento no meio, uma boleta vez que outra, e a ervilha se desmancha.  

Mas tem os dias que nem o fogo brando e um bom vinho conseguem seduzir a 
Pisum sativum leguminosa.
Aquele sábado ensolarado era um desses dias. Se perguntasse o motivo real daquela bolota imensa ter esmagado seus sonhos e sua energia, ela nem saberia dizer. E nessas horas ela se separava de mim. Eu, a tão cheia de certezas mesmo que fossem duvidosas, me tornava mera espectadora de um espetáculo que ocorria com ela.

Minha ervilhinha a chamava um ex amor quando ela entrava naqueles dias. Se fosse uma feminista moderna poderia dizer que ele estava fazendo um daqueles comportamentos de nome esquisito que no fundo queriam transforma-la em uma menina desamparada, tirando todo e qualquer empoderamento que ela pudesse ter.

Mas qual o quê. Era feminista de priscas eras. Tão antigas que já tinha deixado de lado lutas "enfrentativas", estava quase virando um elfo, uma transcendência que pairava acima de conceitos e tentativas de enquadramento.

Já não bastavam os múltiplos universos em que transitara, e as muitos elas que fora, onde as verdades eram todas muito firmes. Não ela de agora. Essa mistura de mundos, essa massa sem forma de vivências, purgações e desistências. A essa de agora só tinha uma vontade: achar a porta do universo mais amado. Aquele em que ela se amava acima de tudo e o que lhe dava segurança de ser alguém.

Enquanto não achava, ficava driblando as ervilhas, grandes ou pequenas, e olhava as estrelas. Quem sabe nelas enfim o caminho do encontro.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas"

PS: No meu universo um texto era apenas um texto. Nada mais que um texto. Não precisava de explicações, não carecia de tentar deixar claro que isso que muitos podiam entender estava na cabeça deles que podiam estar lendo em outro universo paralelo que, se vocês não sabem, se tocam e se mesclam. Que ouvir estrelas era a maneira dela manter a poesia viva. Que adorar conto de Fadas não a fazia frágil e que, droga, tudo o que ela queria era apenas apagar um pouco o turbilhão das palavras e sensações que morava dentro dela. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

da fobia social às distopias

Acordei voragens.

Algo da rudeza do mundo mexeu fundo no estômago, tomou conta do corpo e precisei de um refúgio. Dos melhores que conheço, os livros sempre me recompõem. Embora sejam meus parceiros desde sempre, ando deles alheia. As palavras nem sempre me são amantes inebriantes como eram. Eu, que ando mais neutra. Mais tão sem sal. Tão enclausurada. Em mim. Em minha casa. Em meu mundo pequeno e vasto, conforme a circunstância e conveniência.

Acordei coragens.

Já disse várias vezes que fui fóbica social. Dessas que não parece, tudo a custa de muita terapia e uma certa alma ariana (de signo) que me leva ao encontro do novo, do desafio. E que a coisa interna que me habita teima em pintar de escuridão logo em seguida e me faz recuar.

Acordei inquietudes.

Medo das pessoas. Tem nome para isso? Me dei conta que nunca tinha pesquisado de verdade. Tem nome sim, se chama: Antropofobia (
"A pessoa com o medo extremo entende que seu medo é ilógico. Apesar disso, a fobia de pessoas afeta sua vida diária, educação ou ocupação. Eles organizam estas atividades para que haja o mínimo de interação interpessoal"). Tudo bem, não chego a ter um medo extremo, mas uma necessidade de evitar o contato real, um medo de decepcionar, um receio que nem sei explicar que me faz ser meio bichinho do mato. Quem me conhece de modo virtual nem deve desconfiar porque as palavras escritas são meu porto seguro. Mas devem supor quando recuso convites e não busco formas de aproximação.

Acordei curiosidades.

Porta de entrada das novas ideias. Uma chamada de jornal e eis que mergulho na leitura que me toma inteira como raras vezes tem acontecido nos últimos tempos. O Conto de Aia, um livro já chamado de distopia feminista. (Não pretendo fazer aqui uma resenha do livro, tem algumas no link acima.) Ando meio cansada dos rótulos e dos pretensos enquadramentos de opiniões em caixinhas definidas. O que me chama a atenção e mais que isso, me apunhala de soco, é como esses futuros distópicos parecem tão factíveis.   



Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Distopia – Wikipédia, a enciclopédia livre
Despertei tensões.

Dá uma inquietação quando se mergulha em uma leitura que aponta caminhos que, aparentemente não passariam de ficção, mas que apontam distorções que a gente já reconhece na sociedade onde vive. Este o papel da literatura. Criar tensões. Apontar distorções que não se vê por omissão ou por ignorância. E aí as distopias romanceadas podem se aproximar perigosamente de nossas vidas. Nós, os fóbicos sociais. Nós, os que deixamos de lutar por medos. Nós, que nos escondemos em uma pretensa sobrevivência o mais longe de riscos possíveis.
Um rato em um labirinto é livre para ir onde quiser, desde que permaneça nesse labirinto. O Conto da Aia
Despertei dúvidas.

Como se deixa parir o totalitarismo? Sendo sectário ao extremo (um pouco todos somos, não dá para ser tão isento na vida). O aprisionamento em tribos de pensamento que exclui o questionamento é uma armadilha. Seja político, religioso, de comportamento, não importa. O diálogo e a liberdade de se poder pensar e questionar sempre foram parceiros do crescimento. Quando eles são reprimidos, estamos no extremo oposto a um viver com liberdade. Quando a repressão é clara ainda temos como lutar de peito aberto. É quando ela se infiltra em nós que o perigo se torna mais premente. A serpente em nós. 
Não deixe que esses bastardos te reduzam as cinzas. O Conto da Aia
Respirei fundo.

Assustada porque o futuro não me parece claro e brilhante. Posso me proteger na minha concha de fobias e tentar sobreviver do jeito que dá. É isso que fazem os personagens das distopias ficcionais. É isso que fazem as pessoas que as vivem no mundo real. Posso lutar e tentar ser o mais eu que puder. Posso manter a memória. Posso....

Olhei em frente. E fui. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ser feliz é complicado

"Dá um abraço no velho"

Ouvi essa frase saindo do enterro do pai de um amigo. Muitos anos antes de perder o meu. Só fui dar a devida caída de ficha quando a morte me pegou de roldão e eu entendi toda a imensa saudade contida naquela frase.

Ser feliz é complicado - a voz do Nico Nicolaiewsky grita no meu ouvido enquanto tento arrumar os pensamentos tentando enfim me resgatar no meio dos escombros e ruínas que sobraram do que um dia pude chamar de eu. 

A vida é confusão, teima o Nico em gritar. Algo em mim sobrevive, uma réstia de luz, um urro de vida. Não é preciso se estar doente de corpo. Basta estar de alma. Mas também sou bobona. E quanto.

Mais difícil apenas respirar e recompor os dados que apenas deixaram de fazer sentido. Em algum lugar me deixei morrer. Um processo, com certeza. Todos eles são uma escada para novos renascimentos. Eu tão cheia de certezas de ontem, eu tão sem chão de agora. Eu, promessa de voo amanhã.

Abraça teu velho que a vida é breve e ele apenas espera ser amado. Todos esperamos ser amados. Esperamos fazer sentido para alguém. E não, não apenas para nós. É fácil ser feliz sozinho. Mas qual o sentido de um piano tocando pungente para nada? 

Abraça teu velho que felicidade, mais que da teoria, vem da prática. E esta carece de muita explicação. Prática de vida vai se fazendo no que der, quando vier e como se puder.

Era para ser umas palavras de carinho aos pais. Mas para ser muito sincera, ando cheia de palavras bonitas. Ando carente de música que vibre minha alma, ando ávida de toques e de olho no olho daqueles de vomitar a alma sem pudor. 
"Ser feliz é complicado, a gente é como é todo mundo que sonha no fundo em ser um popstar..."   
Ser apenas importante, ser muito importante para alguém como quando criança quando toda travessura era recebida como arte suprema. Esse olhar puro amor admiração dos pais que talvez nunca mais se repita se não estiver assimilado dentro de nós.

Se abrace, se encaramuje, corra, enlouqueça, deixe-se estar. Esqueça textão, esqueça deverias e teorias. Deixe de lado o curtir, o ter opinião sobre tudo, o ter que parecer o que o mundo julga que se é. 

A música que roja dentro salva. A loucura pessoal salva. A vida não tem roteiro pré escrito. O fracasso para o mundo pode ser a tua vitória pessoal. Não tem receita. A vida flui.

Os que vieram antes apontaram o rumo que eles traçaram e ousaram fazer. A rota deles. A nossa está em construção.

Abraça teu velho. E seja feliz por instantes, nesses momentos em que o palco se ilumina e voltamos a ter olhos de inocência.      
  

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A evolução da Confiança e Kobayashi Maru

Sou uma pessoa extremamente desconfiada. Começo já alertando que acredito sempre pesquisando e tentando ver se não existe algo que não encaixe bem. E ao mesmo tempo sou extremamente pretensa a acreditar no ser humano e no potencial da interação, generosidade e compartilhamento.


Pois a respeito da evolução da confiança, um amigo mandou um link interessante onde, através de uma simulação com a teoria dos jogos tenta explicar o que considera um enigma :
Por que, mesmo em tempos de paz, amigos se tornam inimigos?E por que, mesmo em tempos de guerra, inimigos se tornam amigos? 
Onde nos levará essa epidemia de desconfiança como o site define e quais alternativas temos para resolver isso. Hummmm, nada mais atual.

Já ouvi falar na tal teoria dos jogos e não me perguntem nada sobre ela, também não sei explicar, mas sei que está sendo muito utilizada em várias pesquisas para explicar um monte de coisas.  


No tal link, começamos com um joguinho onde temos duas alternativas: colaborar e trapacear. Obvio que a gente aperta no colaborar e ora! Vemos a primeira grande descoberta dita como verdade absoluta:

Infelizmente, virar o outro lado da face apenas te faz receber outro tapa! (Sério? Nem sempre cara pálida, e contrariando as regras do jogo não faz sentido trapacear. Que ganhos verdadeiros se tem com isso?)
Pronto, já começou meu lado implicante e rebelde. Por mais que o jogo tentasse me fazer a cabeça que um certo grau de trapaça é salutar e conveniente para a sobrevivência eu fui até o fim apostando na colaboração. Conclusão do jogo: os colaboradores TODOS acabam morrendo ou saindo do jogo e quem tem a capacidade de sobrevivência é o copiador, o que vai se adaptando, trapaceando e/ou colaborando, conforme as conveniências. 

Mas nem tudo é tão triste assim, afinal o site admite que segundo a Teoria dos Jogos podemos ter duas ideias bem fortes de lidar com a confiança  
"Jogo soma zero". Esta é a triste crença comum que para um ganhar, o outro deve perder, e vice versa. 
"Jogo soma-não-zero". Este é quando as pessoas se esforçam para criar uma solução ganha-ganha! (ou pelo menos, evitar um perde-perde) Sem um jogo soma-não-zero, confiança não pode evoluir. 
Bingo!!! E é aqui que entra a Kobayashi Maru.




Quem conhece o universo Trekkie, sabe que havia um teste para os cadetes da Federação chamado Kobayashi Maru. Em suma, segundo as regras do teste, não havia como vencer ou desatar o nó. Até que surgiu um jovem cadete chamado James Tiberius Kirk que atacou no ponto chave. Mudou as regras.

Ué? Não podia? Ninguém disse que não. Há sempre uma premissa básica por trás de toda teoria/teste/vida que é encarada como absoluta ou verdadeira.  Muitas vezes a criatividade está justamente em questionar a base e não apenas os resultados. 

E assim chegamos ao que fiz na simulação que falei acima. No meu jogo ninguém que trapaceia ganha. Ao contrário, perde. E quem coopera ganha. E com essas premissas os cooperadores não apenas não sumiram, como cresceram. Assim como os copiadores que os imitaram. Todos cooperando juntos e todos ganhando juntos. 

E creio que tudo a ver com a conclusão da simulação.
O que o jogo é, define o que os jogadores fazem.
Tudo bem, dirão alguns, meu mundo ideal é utópico e nesse que vivemos há trapaceiros, aproveitadores, o jogo de ganha-ganha nem sempre se reproduz e os que pregam o contrário acabam sendo postos de escanteio. Mas quem sabe, um dia, as coisas mudem. Lembrem da frase acima. Até lá cheguei à seguinte conclusão: 

Sou um ser em extinção e por isso mesmo rara. Sugiro que me preservem. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Mulher do Sol, Homem da Lua

Fonte
Ela acorda com o primeiro raio de luz, ele almoça ao fim da tarde.

Mulher do Sol. Luz da energia ancestral que a carrega e impulsiona desde sempre. Homem da Lua. Raios de magnética inspiração que o trazem à vida.
  • Bom dia, Hoje acordei bem cedo e fui caminhar. O dia foi belo e calmo. E me preparo para ver o jornal da noite e cair no sono. 
  • Boa noite! A entrevista do programa da madrugada falou do tempo e dos mistérios da vida. Os cachorros latiram, senti fome e fui dormir com os primeiros raios do sol.
As conversas beiravam ao trivial. Nada se revelava. Apenas se suponha. Falavam de nada como se tudo fosse.

Viviam da possibilidade DE. 

Talvez fosse mais realidade que muitos. Assim iam levando.

Ela, mulher do sol. Ariana convicta. Corajosa como se fosse amazona de longínqua dinastia. Ele, home da lua, Dionísio se sentia.

Rudezas se amenizavam em suas almas. Ausências se tocavam nas suas imperfeitas vivências.

Importa afinal o que se revela ou se esconde? A versão não vale acaso mais que as verdades que apenas se percebem, sem o mínimo comprometimento outro que não seja a poesia de existir.

Poetizar. Se deixar sonhar talvez fosse a forma de não morrer em um mundo cada dia mais distante da compreensão. Se em algum momento Sol e Lua conseguissem o simulacro de um beijo, isso já não importava.

Sonhavam. Cada um em sua vida. Sonhos solares. Sonhos enluarados.

E por breves instantes eles se mesclavam. E os unicórnios argonautas voavam em carruagens de prata e ouro em direção ao infinito.   



terça-feira, 11 de julho de 2017

Focar - necessidade urgente

FOCO!!!!

Socorro, ando precisando de uma lente dessas que foque em um objetivo e me limite as possibilidades. Pessoa curiosa e muito pesquisadora enlouquece com uma biblioteca ficando sem saber qual livro escolher e já pegando meia dúzia para a mesa de cabeceira, namorando a ideia de ler e reler todos.  Nunca consegui fazer uma coisa por vez. Estudava vendo TV. Via TV jogando. Trabalha ouvindo música e navegando.

Navegar. Daquela simples expressão que significava pegar um barco para a atual, passei ainda naquela de voar nas possibilidades: a tal navegar na maionese. Tudo bem que muita gente usa para se referir a pensar coisas que não vão acontecer de tão fantasiosas. Mas eu me apropriei no sentido de dispersão. 

Dispersiva. Presente.

Paro tudo e vou em busca do que me dá mais prazer no momento. E sou compulsiva muitas vezes. É ótimo para a mente e péssimo para o bolso.

Há que haver um equilíbrio entre motivação e foco. E fazer dos objetivos um hábito que se perpetue. Tipo beber água. Eu não bebia H2O. A água, não o refrigerante. Aliás eu SÓ tomava refris. tinha sede? Lá vinha copão, cheio de gelo e refri. Para mudar esse hábito e trocar por outro, não bastou só a força de vontade. Foi um longo processo entre a decisão que foi bem pensada e embasada (nada! Foi de supetão) e a troca por bebida gasosa, por chimarrão e enfim pela água. Uma boa troca.    


Mas...e sempre tem um na vida da gente, o que tem me perturbado é a minha compulsão por abundância de informações. Tanta que resulta que não foco e me perco exatamente por querer abarcar e saber tudo. Resultado: estou sabendo cada vez menos.

Hora de parar.

Repensar.

Respirar.

Respirar de novo. Profundamente.

FOCAR!!!

E voltem à figura lá de cima. Vejam que focar não exclui o resto do panorama. Apenas ressalta um detalhe por vez. 

Talvez isso me ajude a ver com mais clareza o panorama geral em que estamos vivendo/sobrevivendo/tentando. Talvez não e apenas me dê mais fôlego de ir em frente. De qualquer maneira a mudança do mundo começa por nós. É dentro de cada um que a vida se faz.  
   



segunda-feira, 10 de julho de 2017

Somos instantes


Acordou saudades.

Tirou a camiseta antiga que guardava seu corpo nas noites de insônia. Essa não. Dormira profundamente o tal do sono dos justos que lhe vinha de vez em quando. Cada vez mais quando.

Quando tudo bem. Quando não questionava. Quando se enfurnava. Quando era quase sempre.

Se fosse normal como tantos que conhecia, ia em um médico qualquer que lhe receitaria um para te quieto também conhecido por tarja preta. Mas não ela. 

Acordou saudades depois de uma noite bem dormida. Ou quase. O gato peludo a acordara miante. E ela, solícita, largou o sonho que era importante e foi atrás do felino. Como sabia que era importante? Porque ficara repetindo um nome infinitas vezes naquelas formas malucas que o universo tem para sinalizar algo. 

Acordou saudades e esquecimentos. Não lembrava o aviso do sonho. E logo o dia foi lhe tomando e deixando de lado as magias e mistérios que isso é coisa das madrugadas. Os dias exigem mais ação e coragens.

Somos instantes vira em em algum lugar. Calara na alma que ela sempre fora de frases marcantes. Sempre acreditara (ou fingira acreditar) que mais que felicidades infindas, somos feitos de momentos fugazes. Uns intensamente felizes. Outros tão intensos que dava dor de viver e lembrar. Alguns ainda pungentes de tal sofrimento de alma que grudavam na pele, nos ossos, mudavam o DNA e se tornavam parte dela para sempre.

Acordou saudades, esquecimentos e lembranças.

Algumas queria esquecer. Fingir que tinham sido um sonho mau, desses que a gente acorda assustada e dá Graças aos Céus de não terem acontecido de verdade. Mas tinham. Eram dela. Nela. Iam lhe acompanhar feito sombras até o último instante de vida. 

Outras fazia questão de lembrar. Eram tão danados de bons que pareciam ter saído de um conto de fadas, desses que tem final feliz. Ou daqueles filmes que a gente vê uma vez e nunca esquece. Esses ela sabia que iam acompanhar para sempre também. E quando já estivesse perto da porta de saída, eram eles que iam embalar seus medos da travessia. 

Acordou saudades, esquecimentos, lembranças e momentos. 

Despiu a roupa folgada da noite, passou água no rosto cansado e marcado pelas horas e pela vida, sorriu com uma certa melancolia para si mesma. E partiu.

Partiu vida, saudades, esquecimentos e lembranças. Partiu inquietações e certezas.  Mais as primeiras que as últimas. 

Somos instantes murmurou a alma. Somos apenas instantes, respondeu ela.

Acordou...acordou?