segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da chaleira que chia

Tinha jeito não. Já tentara de todas as maneiras que conhecia. E das que imaginara. Não conseguia se comunicar. Essa coisa da convivência não era para ela.

Tirou a chaleira do fogo pensando em fazer um café cheiroso desses de arder a narinas de felicidade. Café tinha dessas propriedades de fazer tudo voltar aos eixos: a cabeça e a alma. Olhou em volta procurando mentalmente a lista das tarefas do dia. Não achou como de costume em meio da bagunça que era sua mesa de trabalho. Não faz mal, pensou. Lembro que era dia de consulta no psiquiatra. Onde ia para ver se conseguia elaborar o porque não conseguia essa convivência tranquila com a vida e o que fazia na real era fingir que falava de coisas importantes para que a pessoa para quem pagava os tubos a visse como alguém normal. Era dessas. Fingia na análise.


A chaleira chiava e sua mente também. Logo na segunda feira que era dia de produção vinha essa letargia da tristeza que teimava em desacalmar sua rotina. Talvez um banho resolvesse mais.

O telefone tocou justo na hora em que cantava sua música predileta a plenos pulmões embaixo do chuveiro. Se desafinava ou não, os vizinhos que julgassem. O som da chamada mais o chiado da chaleira lhe desafiavam a paciência. E a vontade de um banho demorado.

Vestiu sua roupa de baixo mais charmosa. Nunca se sabe, sorriu maliciosa, enquanto colocava as três ou quatro gotas do perfume predileto. Aquele que reservava para os momentos especiais. Ou os dias em que precisava amar a vida como se não houvesse amanhã.

Olhou no espelho embaciado e viu uma senhora precisando de uns retoques. Diabo de reflexo! Pensou em criar um espelho que refletisse o que vinha de dentro. Melhor ainda, um que viesse com filtros e mostrasse o que queria sentir de dentro. Ia ficar rica com essa ideia.

Ficar rica de dinheiro sonante seria uma bela solução. Pessoas miliardárias nem precisavam se comunicar. O mundo já abria as portas para elas. O mundo era bondoso com gente que tinha uma conta bancária abonada. Sempre fora assim, desde o começo dos tempos. Fosse mais esperta tinha seguido o conselho que o velho pai lhe dera quando jovem: feminismo de verdade é ter uma profissão e se sustentar. E o sustento que dá direito à escolha não é um salário de sobrevivência não. É aquele que abre portas. O que vem carregado de vários zeros. A direita.

Será que se fosse muito rica seus problemas de comunicação iriam se resolver? Assim como um passe de mágica...brincava com a ideia...na verdade já passara do tempo do faz de conta. Sabia com a sabedoria dos anos que pesam que nada se resolve magicamente. Tudo depende de algum trabalho. Bem construído e bem consolidado. 

Que a chaleira fosse chiar outra hora. Era tempo de construir a vida, essa que passa rápido por mais chiados que as chaleiras façam. 

Tomou o café correndo. Vestiu sua roupa de enfrentar os problemas. Sorriu para a senhora do espelho que lhe deu uma piscada de olhos.

Abriu a porta e saiu.     

sábado, 25 de novembro de 2017

Melancolia rima com melancia

Melancolia rima com melancia
Fruta que se delicia
Sem sentir que adormecia

E desde quando as rimas e as coisas têm que fazer sentido? Desde quando dá para acordar e já saber que ainda existem leilões de escravos, que gente persegue pesquisadores, que a arte virou coisa de museu e deve ser bem comportada. Que tem gente que acha que todo ser humano é tratado igual mas vocifera quando um privilégio seu é bolinado. Quando mulheres são mortas por serem mulheres. Quando o ontem parecia mais moderno e se acorda com a sensação de ter entrado em uma máquina do tempo, daqueles filmes classe B, em que tudo é pesadelo e a gente acorda num titanic (e óbvio na terceira classe) ou em uma fogueira da inquisição onde a tortura e a delação eram aceitas como forma de justiça. 

Melancolia rima com agonia
Talvez seja nossa apatia
Que traga tanta Paralisia 

Em dias de gris interno e externo, nossa letargia aumenta. Nosso desfazer se torna mais intenso. Nossa força de vontade se esvai. Melhor colocar uma máscara de louca, um roupa violeta e um imenso girassol de neon na cabeça para ver se alguma parte de dentro esboça um sorriso de ternura, já que a alegria de arrebentar anda ausente. Melhor esquecer as listas de boas intenções. O ano já se foi mesmo, de relevante pouco se fez. Fosse capaz de anotar as pequenas boas ações diárias talvez os nove foras forem positivos. Mas cadê memória para isso agora? As ajudas, os sorrisos para quem pouco os recebe, os auxílios para obras de arte, para os projetos que somados pouco a pouco, conseguiram sair do papel. Os cuidados com o corpo. Os trabalhos feitos e terminados. Os livros, filmes, séries e escritos que germinara em bons momentos. Todos se esvaíram no momento melancólico em que o coração aperta como se fosse garra forte. Cruel.

Melancolia rima com letargia
Aquela que tudo anestesia
Te deixando sem nenhuma simpatia

Onze meses já passados. O tempo corre em sua roda implacável. Às vezes brincaste de mocinha. Outras o espelho te mostra que a princesa virou rainha. Ou bruxa. Ou fada. Ou ainda apenas uma mulher que fantasia.


Melancolia rima com porcaria
E se houver uma pitada de nostalgia
Tudo acaba em poesia

Era dia de colheita

Depois da chuva tormentosa, resta procurar nos céus o arco íris. 

Embora otimista, restava nela uma amargura germânica, dessas que faz a natureza desconfiada. Dessas de procurar migalhas em vez de aproveitar a fartura. Dessas de metamorfosear de gris, o que pode ser luz.

Agora que o tempo alcança essa tranquila (e angustiante) curva do mais para lá do que para o começo que se dava conta que nunca precisara ter sido assim. Podia ter levado a vida mais de roldão, mais de boas. Podia ter sido mais sincera de coração, podia ter sido mais leve. 

Podia ter sido mais ela. Menos outros. 

E como estava no tempo do já que, urgia recomeçar. 

Era tempo de colheita. 

Da vida ia aproveitar o que restasse. O que tinha semeado. 

O olhar mais ligeiro. O amor mais faceiro. Ia gritar seus amores, suas dores. Seus desconfortos. Mas ia mesmo era amar muito. Ia rir mais que chorar. Ia relevar.

Ia fazer roseiras dos espinhos. Ia saber regar cada pedacinho de terra já antecipando a sementinha que cresceria. 

Ia viver. E mesmo que o mundo estivesse explodindo de incompressíveis alaridos de embates, tantos inúteis, outros tão necessários, dentro dela havia armistício. 

Podia que não compreendesse tantos modos díspares de ver o mundo. Podia seu coração se apertar de tanta mesquinharia mundana. Podia mesmo. E continuava. Mas também sabia que seu tempo findava. Outros e outras depois dela haveriam de buscar. 

A ela restava aproveitar. Amainar. Amar amando seus amores.

Ser piegas. Ser leve. Ser jardineira e colher.

Recolher.

Renascer. 

sábado, 18 de novembro de 2017

Amor se ama cantando

Era tempo de construção. 
Difícil entender que o parir qualquer coisa demanda tempo. E aquele lento rolar de minutos, horas e dias que antecedem a concretização era algo que a sua alma não entendia. E se entendia, não aceitava.
Mas não havia nem de onde nem por que, tinha que sentar e esperar.
Até lá cantarolava.
A melodia que viesse à cabeça. Às vezes acordava com uma e ela ia e vinha, meio que perene, na sua mente. Só no chuveiro se arriscava a deixar sair algum som. Desafinado. 

Era tempo de construção.
Desses de colocar adubo em cada gesto. Colocar ternura em cada palavra e trazer o olhar mais sincero para expor ao Outro sua delicadeza de alma e sentimentos. 

Em tudo se revelava. E nesse desvelo colocava seu melhor Eu para fora. Sua atenção mais especial, suas qualidades mais bonitas. Era em tudo uma maravilha de pessoa que se deixava descortinar.

E ele também devia fazer o mesmo porque homem mais fantástico nunca tinha conhecido. Adivinhava seus desejos, mesmo os sexuais. Era atencioso nos gestos, nunca o prato sem servir, nunca o vinho por faltar na taça. Nunca o esperar. Nunca o não estar. Tudo era redondo e bem embalado. Ele se vestia de presente. E ela se divertia em se deixar desamarrar em fitas e celofanes.


Amor se ama amando. E o amor cabe se fazer bonito. E a paixão gostosa. O olhar que arrepia. A vontade danada de boa que amolenga, derrete de tanto tesão e se faz entrega.

Ela e Ele eram NÓS. 

Nas risadas. Na cumplicidade. No querer com.

Tudo era construção. E cada pedrinha se encaixava como que por milagre, sem pressa e sem forçar. Mas...

A cada dia que corria ela sentia que faltava fundação. E temia.


Era tempo de consolidação e a música escorria lenta e nostálgica. 

Deixou de cantar os ritmos mais ardentes. Começou a solfejar os lá lá lá, os estribilhos que não pedem atenção. Se deixou levar pelo normal da rotina. Se tornou molenga como elástico que vai e vem, se amoldando aos senões e espinhos que parecem desconcertantes, mas inocentes. Se sofria, se sorria, se morria, nem sentia. Ou fazia de conta que não. 

Escrevia cartas que não mandava. Tomava atitudes que não tinham vazado na realidade. Voava por outros universos onde seus sonhos voltavam a ter miragens e utopias. 

Urgia construir. Gemia vontades. 

Era tempo de estagnação. Foi ficando pequena. Foi ficando sem vontades. Foi se tornando tão aquelas outras de quem ria. Não ela. Não mais ela. Não mais celofanes. Não mais magias. 




Tomava pílulas de felicidade. Tomava drageas para esquecer. Para viver. Para não morrer. Ele cada dia mais outro. Não mais nós. 

Era tempo de distração. Outros olhares, outras vozes. Foi ficando distraída. Deixou de lado pequenas atenções. Cada dia mais carente. Cada dia mais exigente. Cada dia mais distante. As músicas mais bolero. Mais dupla sertaneja. Mais gemidas de separação.

Amor se ama cantando repetia como mantra. Seu quarto cada dia mais bagunçado. Seu coração cada dia mais desocupado. Seus dias mais desolados. 

Era tempo de reconstrução. Se valia botar por terra, puro pó. Se valia reforçar estruturas, reaproveitar. Se valia se amar e se tornar ela mesma toda refulgente. 

Ainda não sabia. Apenas cantarolava. 


   

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Pratos especialmente memoráveis da infância

Retomando o projeto 52 perguntas, 52 respostas que andava adormecido. 

Tenho essa mania de revirar o passado e anotar o que vou descobrindo, além de gostar de ouvir os tios e tias mais velhos. Foi assim que descobri muita coisa de minha família e atualmente estou reunindo essas informações em dois blogs para que mais pessoas possam também usufruir dessas descobertas.

Lembrei especialmente deste projeto que achei na internet tempos atrás lendo para minha mãe as recordações que ela e suas irmãs escreveram sobre as suas infâncias. Se não fossem por elas muitas das coisas que sei sobre meus antepassados teriam se perdido no limbo da história. E porque acho importante preservar a memória dos que me antecederam? Uma que é uma forma de homenagem. Outra que me mostra de onde vim e quais são os valores e heranças afetivas e comportamentais que deles herdei.

Algumas das recordações mais importantes de nossas vidas estão relacionadas aos sentidos. As músicas e sons que ouvimos. Os cheiros e os gostos. Particularmente esses dois juntos nos lembram as comidas da infância. Então lá vão dois ou três pratos que sua mãe ou seu pai faziam que eram especialmente memoráveis

Uma coisa básica para me entenderem: Eu e a comida tínhamos uma relação meio complicada... 

Sim, eu era meio chata para comer....Vocês não imaginam o drama na hora das refeições quando eu ainda sentava na cadeirinha alta. Não comia o que não queria. Alminha ariana (de signo) se revelando desde a tenra idade. Arroz, por exemplo, não passava um grão. Separava com a língua, tirava da boca e olhava bem firme. E jogava longe. Juro que queria ter guardado um pouco desse ímpeto de saber bem o que queria e o que não queria. Me faz falta hoje em dia.

Mas não era magrinha não, sinal de que comia. E bem. Aliás, acho que muito dessa birra talvez viesse dessa relação que a criança faz com a ansiedade materna. E digo isso com conhecimento de causa porque minha irmã adolescente enchia o saco, me pegava pela mão e me levava para o quarto. E de lá voltávamos com o prato vazio. (Não sei que tinha arroz ou não no prato...). Até hoje há quem jure que ela me batia. Mas nunca. Apenas sentava e tranquilamente me dava as garfadas. E eu comia com a maior tranquilidade!

Mas tinham algumas comidas que eu comia até com a minha mãe.

Batata frita. Clássico, né. Batata frita de mãe, dessas de antes de se saber que fritura podia ser prejudicial à saúde. Tinha gosto de quero mais. E a mãe fazia uns pratos bonitos, enformava o arroz em porções individuais, colocava uma folha de salsinha por cima. Um bife de carne vermelha passado na manteiga e as batatas fritas do lado....Coisa feita com amor. Super simples mas muito bonito. E antes do pai chegar, ela ainda tomava um banho, colocava uma roupa bem limpa, se perfumava toda e ia recebe-lo na escada. Todos os dias. Eles tinham essas delicadezas de namorados pela vida afora. Inclusive na comida.          

Outro prato que lembro com água na boca eram as sopas de feijão que a mãe fazia. Um adendo: eu também não comia feijão. Fui aprender a comer - e a gostar - muitos anos mais tarde, depois que deixei de comer carnes vermelhas, quando fui em busca de proteínas. Mas a sopa de feijão da mãe....nas noites frias do inverno, ela pegava o feijão do meio dia, passava no liquidificador e quando estava quase quente, jogava devagar um ovo que ia lentamente fazendo desenhos amarelos e brancos enquanto cozinhava no calor. Gente....vocês não imaginam o sabor dessas sopas! Tinham gosto de amor, de aconchego, de colo quentinho. Curavam qualquer gripe que se iniciasse...
Meu pai não cozinhava. Não era coisa da família dele. A irmã também nunca aprendeu. E a vó e a outra tia acho que cozinhavam (e bem) só por obrigação. Não era vocação em absoluto. Mas o pai amava comer. E era bom garfo. Desses que não tinham muitos quereres prediletos, apenas algumas coisas que gostava menos (aipim um delas, mas comia). Nunca exagerava embora dissesse que sempre tinha apetite. E sempre elogiava. Uma característica de meu pai: sempre elogiar porque tinha essa visão privilegiada que o fazia ver sempre um ponto positivo e bonito em tudo. Dele então não lembro de nenhuma comida em especial. Mas os picolés que me levava para comer antes do Papai Noel chegar, no anoitecer do dia 24 de dezembro vão ter sempre um sabor que sorvete nenhum no mundo vai poder superar.

Se esses pratos marcaram minha vida? Creio que sim. Mas marcaram mais porque eram símbolo de um carinho de todo dia, era um afeto de cuidados e atenções que eles sempre tiveram conosco. Fui e sou extremamente privilegiada de ter dois seres humanos especiais como pai e mãe e sempre serei eternamente grata às suas lições e atos memoráveis pela minha vida.

domingo, 5 de novembro de 2017

Teias de descobertas

Dia Um - a noite que termina


Era de madrugada e logo a luz viria com toda a intensidade.

Não importava. Tinha passado a noite em claro mesmo. Era sempre assim. Um período de intensa alegria e logo em seguida vinha a realidade pra dizer que isso não era pra ela. Essa alegria bem prosaica de compartilhar e gozar era para os outros. Para ela ficava a sensação de coisa nunca terminada. Quando se permitia a entrega e soltava sua ternura mais funda,as coisas se invertiam e fugiam da sua mão. Sempre fora assim. 


Arisca,gata fugida e vadia.

Gata de rua,medrosa,manhosa

Acostumada a apanhar. Já não sabia nem mesmo no que acreditar. Nem nela própria. As melhores horas ainda eram os momentos vividos sem preocupação com o amanhã ,sem preocupação com o futuro. Fazer planos lhe era difícil. Não que não gostasse. Adorava sonhar e planejar como todo mundo. Mas tinha essa ferida nunca cicatrizada no coração que começava a incomodar e doer. Era uma consciência perturbadora da realidade. Era mesmo? As vezes duvidava dela mesmo. Era como se estivesse longe do mundo.

E nessas madrugadas de insônia ficava pensando no quanto era difícil se enquadrar no mundo. Tudo o que queria um canto seu onde ninguém perturbasse,onde pudesse estar em paz. Principalmente para pensar.

Pensar era importante. Pensar era fundamental. Até mais que sentir. Nessas madrugadas a vontade era pegar um espumante,uma taça borbulhante e sair por aí,cabelo ao vento, sem rumo, sem meta. Sem chegada,sem partida. Sair ao leo, feito gata vadia. E como conciliar esse ladinho aventureiro com o outro. O que era calmo, mais domestico, mais caseiro. Esse outro que dava vontade de se enrolar em uma almofada fofa e encostar a cabeça naquele ombro querido e ir achando o seu cantinho. Ficar afofadinha e quentinha,cheia de segurança, sem medos.

Como me é importante a fato de ser amada. De me sentir amada. Tão fundamental essa sensação profunda de pertencer. E como perceber que pertencer também significa conceder. Compartilhar. Não sei compartilhar. Acho que nunca cresci. E na atual circunstância da minha vida nem sei se quero crescer. (pensamentos da madrugada)

E não é que o sol começou a entrar e ela nem se deu conta. Os sons começaram a se modificar também. Não sei se já repararam, mas os sons se modificam com as horas que passam. Nessas meio frenéticas do despertar, eles também vão gradualmente despertando e são mais claros, talvez mais descansados,mais inteiros que no resto do dia. 

Gostava dos sons da manhãzinha,gostava dos sons da noite. Os da madrugada a fascinavam. E assustavam. Eram perturbadores como eram Tudo o que é mais profundo,mais intenso. Muito melhor lidar com o superficial,com o corriqueiro. Mais fácil. Muito mais. Sem divagações soltas. 

Novo dia - a descoberta

Hora da chuveirada matinal e do café corrido. O ônibus apinhado e a redação do jornal. As mesmas noticias, pequenas e mesquinhas do dia a dia. A mesmice das mesmas brincadeiras e do mesmo ar de indiferença e inveja das pessoas em volta. Todas apressadas,cansadas,entediadas, todas cadáveres ambulantes de um palco de marionetes vagabundo que ameaçava desabar. As pessoinhas continuam seu caminhinho de todo dia,seus passinhos controlados,seus paninhos poidos,seu enredo vulgar e repetido. Todas não. Algumas,muito poucas, tem um certo ar de vida,em suas faces mal pintadas.

Uma delas era Miguel,que por trás da sua cara de palhaço risonho e ferino, tinha olhos vivos e arteiros e um ar de criança terna, como o tem todos os meninos arteiros, mesmo os crescidos. Miguel vivia do seu salário pouco do dia a dia, mas mantinha escondida uma curiosidade insaciável e inquieta. Por vezes o observava e franzia a testa. Era uma incógnita. Talvez um dia seus caminhos se cruzassem,pois a vida tem dessas manhas. Os bonecos podem fazer de conta que comandam seus passos, mas as pessoas acordadas,as sem cordas,não.


Revelações de uma sabedoria secreta

As coisas acontecem para elas de acordo com o que tem que acontecer. De outra maneira não funciona direito. Deve ser uma daquelas leis arcaicas que nunca foram renovadas. Naquele tempo em que foram feitas, as pessoas ainda estavam acordadas, ainda não era moda ser marionete. Foi depois, aos poucos que as coisas foram mudando e quando se notou não existia mais plateia, apenas atores. E tudo recebeu o nome de vida. Foi quando as pessoas começaram a brincar de ser feliz. Mesmo os que manejavam os cordéis há muito tinham desaparecido. E ninguém mais se dava conta. As pessoinhas tinham um medo quase paranoico de viver sem amarras. Alguém espalhara, muito tempo atrás, que era fatal viver sem elas. Até tratados e livros foram escritos,e isso acabou virando dogma. Mesmo os que se percebiam sem cordas, agiam como se elas existissem, por puro medo de serem exterminados. Por isso eram tão fugidios, por isso eram tão discretos.

Por isso não se davam a conhecer. Era preciso um cruzar de olhares,era preciso que acontecesse. Ela tinha uma curiosidade que acontecesse com Miguel.
Ela queria sentir essa sensação de vitória,gozo,felicidade, nem que fosse por um instante fugitivo e perdido. Quem sabe um dia, quem sabe hoje.

Hoje ela tiraria a máscara e sorriria seu sorriso mais sincero, hoje ela sairia sem disfarces,sem cordas, hoje ela sairia acordada e inteira. Quem sabe sua aura brilhasse tão forte que seria impossível não perceber. Quem sabe seria possível brincar com o destino, até transformá-lo sem perecer. Quem sabe seria possível correr atrás da própria felicidade e ousar ser inteira por longos momentos, por toda a vida.

Por toda a eternidade.



POA-ll/03/88

(De vez em quando acho páginas escritas de décadas atrás, datilografadas e amareladas. As recupero porque parte de minha trajetória. Um dia saíram de mim, são como filhos pródigos que recebo de volta porque algo hão de querer me dizer algo ainda)

sábado, 4 de novembro de 2017

Urgia acontecer

“Eu ainda faço café para dois.”(Zak Nelson)

Acordou com luxos de guria nova. Resplandecia. Desejos inconfessos, desses que cabem como luva quando se tem a carne dura e os peitos altivos, cresciam nela. Por ela. Vontades escusas e tardias e por isso mesmo tão cheias da urgência de quem se descobre atrasada na vida. Suspirou três vezes. Tinha essa mania do três desde pequena. Três toques, três beijinhos na face, três trepadas sem gozar, três amantes fugidios. E agora três motivos para partir. E nenhum para ficar.

Um lugar qualquer perto da Terra do Nunca, um dia de novembro de um ano perdido no tempo.

Querida amiga Manoela,

Acabo de acordar e lembrei de ti. De nós e nossas travessuras de adolescentes que se descobriam. Morri de vergonha de pensar nelas. Tu também? Nem sei a razão de lembrar  disso agora já que só estou escrevendo para mandar meus sentimentos pela tua perda. Antonio era um bom pai, bom marido e bom avô. Tenho a certeza de que Deus em sua infinita bondade o está recebendo de braços abertos agora. Te consolo com o meu carinho e te desejo muita paz junto aos teus.

Tua amiga de sempre  

Releu a carta com olhos de fora e achou justa. Pena os de dentro apontarem várias hipocrisias dessas que se aprende a manejar para levar a vida mais de roldão. Falar em Deus, logo ela que nem religiosa era....sem contar que Antonio era um safado, desses de não poupar nem as amigas da mulher. Se bem que um safado gostoso, já que fora um dos três amantes fugidios de sua vida, com gosto de coisa proibida mas quero sim. E lembrar as travessuras com a amiga fora ato falho. Mas vai assim mesmo que pelo menos posso faze-la rir nessa hora de desconforto e dor. 

Olhou de soslaio para o homem que roncava de boca aberta em sua cama. Já fora um amante magnifico desses de rolar no chão da cozinha e foder em praia deserta. Olha agora o que sobrava. Um homem gordo roncando de boca aberta. E ela resplandecia.

Prezado Dr Miguel,

Poderia passar em seu escritório no fim da tarde para tratar de assuntos pertinentes ao inventário de meu amado tio? Se positivo, por favor avise.

Cordialmente

Olhou o email com calma e apertou a tecla enter. Que fosse o que que fosse. Aquele Dr Miguel parecia perfeito para resolver seu problema. Todos eles. Já demonstrara seu potencial nos amassos que trocaram durante o velório do amado tio. Sorriu por dentro ao imaginar que isso era pecado. Mas o tio não só entenderia como daria uma piscadela maliciosa lembrando que a vida passa rápido e deve ser aproveitada ao máximo. Fazia tempo que deixara essa coisa de brincadeiras eróticas de lado. Os três amantes fugidios eram coisa do passado. Depois dos filhos e dos netos, se acostumara à presença daquele homeme que um dia lhe fizera gemer de prazer e hoje ressonava de boca aberta. Passaram pelas etapas do bom humor, do carinho, do sexo morno, do viagra e das fechadas de olho. Agora urgia.

Urgia nela resplandecer. Urgia sentir de novo a carne tremendo, o arrepio e o tesão crescendo, fazendo aquela magia de parar o tempo e o mundo. Urgia fazer acontecer. Nela. Por ela.

Amor,

Deixei pronto o almoço e a janta. A geladeira está abastecida. Não esquece de buscar a Julinha na escola, ela tem aula de bale pelas 3 da tarde. O Pimpom tem veterinário na sexta. (Deixei meu carinho e meu amor adormecido em algum lugar e nunca deixei de te amar. Só que me amo mais)

#Partiu

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Das agruras de sentir conforme a Lua


As vezes se perguntava o que era ser mulher. Era mais que vestir rosa quando pequena ou sangrar todo mês desde criança ainda. Era mais que os não devias e os devias, limiar muito estreito que ouvia e seguia desde que se entendia por gente.

Era mais que abotoar uma blusa até em cima ou desabotoar de acordo com as circunstâncias. Era sem dúvida bem mais que ser bela em alguma etapa da vida e ser disponível para ajudar em outra.

Lá no fundo do seu ser se sentia mulher. Nem em outra encarnação, se existisse isso, queria voltar sem ser fêmea. Das agruras de sentir conforme a Lua, isso ela entendia. Mesmo que não tivesse parido, mesmo que não tivesse um macho para chamar de seu, ela sabia. 

Que isso de nascer mulher não depende apenas de uma conjunção de combinações de óvulos e espermatozoides. 

Mulher se criava nas sombrias e luminosas veredas dos universo, sob arranjo de deusas e anjas aladas que ruminavam antigas rezas para que de quando em quando, se gerasse na face do planeta terceiro daquele sistema de estrelas um ser que fosse em tudo apenas mulher.

Mas mesmo que se sentisse tão poderosamente mulher, tinha vezes em que era apenas uma garotinha carente. Dessas que caem na lábia de um lobo perverso. Desses lobos maus que a gente sempre acaba por se apaixonar porque em tudo mais interessantes que o caçador amigo.

Era uma vez um conto de faz de conta desses que se conta (e que talvez faça algum sentido se alguém não te interrompa, achando que teu trabalho de juntar letras pode ser retomado em um passe de mágica).

Era uma vez uma mulher que se sabia, que se sentia, que se amava
Vez que outra se desamava, se perdia, 
Perecia
Era uma vez um conto sem ponto
Um esgar de coisas sem muito sentido
Colchas tecidas por mãos alheias
Costuras que a mulher teimava reconhecer
Era um conto de faz de conta
Uma louca desvairada
Um sapato perdido num canto
um mancha de rímel desbotada
Era um olhar cintilante
Era uma risada desbragada
Eram tantas coisas juntas, esmagadas, retorcidas
Era apenas um rascunho
Mas amanhecia
A festa terminava
E a mulher reinava no seu reino de agruras enluaradas. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Primeiro surto, depois converso


Acordou com o sol da meia noite. Não, não estava em um país desses de contos de fada nórdicos, seu sol real fazia o movimento normal de ir e vir nos céus com alguma variação dependendo da estação. Era dentro dela que a claridade se fazia em plena escuridão. l

Uma estranheza. Apenas um quê que bateu esquisito na conversa de sempre. O dia tinha sido tão lindo que mal notou. Ou fez de conta que não notou. Ou não quis notar. Na verdade não.Tudo nela renascia e tudo nela não queria notar nada que destoasse do sol imenso que começava a brilhar por dentro.

Mas....o que pipocava dentro dela. Mais que as palavras ouvidas, o tom de voz era cortante. Ou eu coisa dela? Desconfiada desde que nascera, alma fugidia dessas que se entregam com as malas atrás da porta, prontas para seguirem viagem ao primeiro senão. 

Era ela. Surtava. 

Mas surtava calmamente. Com classe. Com elegância. 

Talvez como algumas vezes acontecia ia convergir paranoia e realidade muito tempo depois. As vezes décadas. 

Enfim, acordou com o sol da meia noite e surtou. 

Toda ela era um retorcer de pedacinhos de ilusão que se desfaziam, um a um. Conhecia esse sentimento de despertencer. 

Agora não. Respirou fundo com a certeza dos que já passaram dos cinquenta anos. E dos que fizeram terapia. E dos que acham que já se conhecem. E dos que encheram o saco de surtar dia após dia. Hoje não.

Hoje vou me dar ao luxo de descrer de mim. Vou fazer de conta que as respostas de fora não balançam, que talvez nem existam, que nada pareça não fazer sentido. Hoje vou me recompor.

Ou tentar.

E já nem importa se é amor que me falta, que quantas loucuras se faz por ele, pela falta dele, pela ânsia dele. Só por hoje vou respirar e deixar para lá. Vou desconstruir essa paranoia que me acomete em forma de desconfiança, pedacinho a pedacinho. Vou olhar para cada um deles e vou rir.

Talvez dias depois fosse realmente rir de tudo. Ou se não, o peso do coração talvez fosse menor. Talvez recolhesse de novo cada caquinho de sentimentos, unisse tudo em um mosaico colorido de boas vontades, colados com durex, com cuspe, com paixão e olhasse para cada um dos mosaicos que ia refazendo pela vida e que, pensando bem, formavam já uma linda colcha de retalhos.

Só por hoje. Só mais um dia.    

sábado, 14 de outubro de 2017

De um olhar fez-se o encontro

Era um dia de inverno cheio de brumas. Tantas que o avião marcado às pressas demorou horas para levantar voo. Mal sabia que sua vida ia mudar em poucas horas. Por ora apenas se lamentava daquele tempo que lhe atrasava a vida.

Enquanto descia as escadas da escala nem podia imaginar que um olhar a seguia. Nem quando sentou na espera interminável do destino. Sua mente divagava entre a observação de uma turma de nipônicos que faziam mil mesuras e a urgente necessidade de fazer com que a sua bagagem enfim fosse para o mesmo lugar que ela.

Levantou suas pernas em meias brancas, sua saia e blusa branca. Ela toda branca não fora uma casaco cor de maravilha. Ela toda maravilhas. 

Um balcão. Um olhar que a acompanhava desde a escada se faz homem. Ela desatenta nem presta atenção. Não fora o atendente mais sutil, talvez o momento não se fizesse.

Uma poltrona ao lado da outra. Uma conversa como tantas outras. Um observar analítico como tantos outros. Seria nada se não fora uma frase acidental que deixara escapar para aquele homem em tudo interessante que estava ao seu lado por acidente.

Um olhar se fez. Por um instante que durou uma eternidade ele a despiu em público. Não apenas seu corpo, mas sua alma, sua calma, seu bom senso, sua fêmea.

E ela gostou.

E esse gostar era em tudo diferente de tantos olhares que recebera em sua vida. Ali fez-se o encanto.

Não, não pensou ter encontrado sua alma gêmea. Apenas se permitiu viver.

Sua alma partida de um amor dolorido precisava de um porto. Altamente perturbador mas ao mesmo tempo seguro. Alguém que a fazia percorrer abismos com mais certezas que percorrera rotas normais. Alguém perverso mas que tirava dela o seu melhor.

Não pensou e mergulhou. Não de cara. Não de vereda. Mergulhou com calma e foi indo, indo e quando viu estava nadando em um oceano de plenitudes efêmeras e eternas.

Onde ia dar? Não sabia. E nem importava.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Palavras ao vento

"De amar muito deixas amor em teu redor, e quem passa por perto crê que tens a rosa por dentro..." tradução livre do poema que Omara Portuondo sussurra em meus ouvidos enquanto tento me concentrar para trabalhar nessa sexta feira 13 de um chuvoso outono nesta mui leal e valorosa cidade que um dia foi um Porto Alegre.

Um teste fajuto desses de redes sociais feitos com certeza para saber mais dos meus hábitos que para mim nada rendem, mas para que, unidos aos de muitos, se tornam uma das mais valiosas moedas de valor dos dias de hoje, a tal da Economia da Atenção...o tal teste me disse (na lata devo admitir) que não sou das mais tapadas, mas a procrastinação me impede de voar mais alto.

Sim. E com certeza. Procrastino com consciência. Preciso desse hiato para me religar no processo criativo. Absolutamente não sou das pessoas que agem. Sou das que pensam. E o pensamento está cada dia mais obsoleto....o que me leva a admitir que sim, sou um ser em extinção.

Absorvida em mil atividades nada financeiramente produtivas. Vá lá, deve haver alguma sabedoria oculta no universo. Espero.

Palavras ao vento. Cada dia me sinto mais em universos paralelos que se tocam infinitamente. É como se mergulhasse passado/presente/futuro em um turbilhão louco que gera o caos. E o caos há de ser sempre o prelúdio dos Re nascimentos.

Palavras ao vento para que delas se façam eco em algum recôndito ser, talvez exista um mundo onde as palavras recebam afeto e atenção. Talvez nesse Universo em particular, seja rentável se dedicar a pensar. Talvez nem saibam o significado da palavra dinheiro e das pessoas se espere apenas que façam algum significado. Para algo. Para alguém.

Enquanto sonho, o mundo real gira. Seus problemas urgem. Os boletos chegam. Os projetos me esperam. Mais que sonhos e ideias, precisam de significados e detalhamentos reais. 

Palavras ao vento. Recolho uma a uma. Uno em uma colcha de retalhos que formam mosaicos de uma vida que espera apenas fazer sentido. Um dia. Quiçá.   

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"Aborrescentes tardios" - tipos sem noção

"Criatura que não fez as bobagens na adolescência e resolve fazê-las na melhor idade..." Ouvi esta frase alguns anos atrás. Na época guardei mais como curiosidade que constatação. Mas com o rolar das páginas da vida (outra pérola que um antigo mestre de obras me brindava para falar das agruras das obras) e quanto mais cabelos brancos escondidos por tintas tenho na cabeça, mais encontro alguns espécimes peculiares de homens que fazem cantadas sem noção. E aqui uma pequena advertência, nada contra e tudo a favor de cantadas inteligentes e focadas na minha pessoa. O que acho risível e digno de pena até são os tipos que classifico abaixo:

METRALHADORA GIRATÓRIA - aquele que saí atirando a esmo. Mal te conhece e já vem mandando bala. E com uma cantada que cheira a receita de bolo. E de longe já sabes que faz o mesmo com qualquer ser de saia que passe perto dele. Imagino que a sua auto estima seja tão baixa que deva espalhar sua artilharia de forma aleatoria na esperança que alguma acerte...

MAIOR CARENTE - uma variante peculiar. Um pouco mais seletivo que o metralhadora, o maior carente apela para o sentimento maternal de toda mulher para destilar algum gatilho emocional que a faça querer salvá-lo. 

INTERESSEIRO POR SEGURANÇA - o cara parece tudo de bom, é querido, charmoso, promete e às vezes cumpre fidelidade é romance. Mas na verdade seu foco não é a pessoa em si, mas o que ela pode proporcionar: uma casa para morar (de graça de preferência), um plano de saúde, um carro...enfim, seu mote é bem material. Há quem só se dê conta depois de passar tudo o que tem para ele. Que corre para a próxima vítima. 

LOBO SOLITÁRIO: Um dos mais perigosos. Quase profissional. É inteligente e charmoso. Tem elevada auto estima e parece ser quase perfeito. Te acompanha na igreja, ajoelha e reza se for preciso. Vai à exposições de arte. Faz o que for preciso para chegar ao seu maior prazer. Que não é você, mas a conquista. Hábito que exercita para se manter em forma.

É lógico que existem os homens normais. Aqueles que não são perfeitos, não tentam se encaixar nas nossas expectativas e se aproximam com um real interesse por nós. Não tentam ser o que não são e sabem avaliar uma troca. E que bom que assim seja! Faz com que os outros, na comparação, assumam o seu mesquinho lugar de aborrescentes tardios.....

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Brincante das palavras

Ando pelas ruas procurando um tal tema que me agrade e que faça as palavras saírem fáceis e faceiras. Todos parecem não fazer já muito sentido. Nada parece fazer muito sentido. 


Eu já não faço sentido.

Quando a vida perde seu foco de nos permitir a busca de nossas necessidades básicas, entre elas a felicidade. ( e já parei várias vezes de escrever para tapar buracos de carência de alguém que também largou mão de seu foco para cuidar dos outros). E isso me leva a refletir que a vida não só é uma troca e só vale a pena se assim fôr(mania de tirarem os acentos diferenciais, for é muito esquisito, prefiro o errar com circunflexo. No fundo tenho alma rococó) como também nos pede respostas ao nosso próprio foco interno. 

Não sei se muitos já conviveram com pessoas mais velhas, bem mais velhas, naquele período em que já estão mais lá que aqui, e mesmo as mais gentis e educadas, sempre se tornam mais imediatas. Querem o que querem JÁ. E o que querem? Atenção.

O que queremos nós? Atenção. Do mundo, de nós, da vida. De quem amamos.

Fazemos o que fazemos em busca de atenção. Quando somos mais jovens pode ser em forma de clicadas, de alcance de objetivos, de compras, de polpudos salários e/ou honorários. Quando o espelho nos sorri podemos nos dar ao luxo de sermos mais condescendentes com a vida. Mas quando este mesmo espelho se torna mais cruel é que o essencial em nós toma conta.

Limites. Os que nos colocam. Os que colocamos. Os que rompemos de alguma maneira na despedida quando o fazer os noves fora pode nos dar sorrisos ou lágrimas imensas. Valeu a pena? Vale a pena? Cada um de nós sabe a sua resposta. Creiam que rodopiar pela vida vale a carga para alguns. Rodopiar por dentro para outros. Brincar com as palavras me faz sentido. Nem importa se cabe nos meus sonhos, se faz mais alguém sorrir, se é fácil de ler, se o português está correto. O jorro saí, sem rumo, sem planejamento e dele me abasteço.

Quando nada mais parece fazer muito sentido. Quando me sinto despejada em um universo paralelo onde todos (quase todos) estão tão ou mais atônitos que eu as respostas parecem ter desaparecido. Estão algures. Não que tenham também perdido o sentido que verdade não as perde nunca. Perderam a rota. Se fecharam em caixas mágicas onde talvez nos exijam buscas tipo o Santo Graal, tipo Xangri-lá, tipo algum sonho que nos habita desde sempre.

No meio da vida. Na verdade mais para o meio de lá que o de origem. Mas convivendo demais com a decrepitude. Com os esquecimentos. Com as eternas repetições. Com o não fazer sentido. Meus amparos se erodindo. Como não enlouquecer para manter a sanidade?

Brincante das palavras. Brincante de algum resquício de esperança que possa ainda morar em mim. Na verdade já me fui. Resta apenas carimbar o passaporte.  

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Todos os caminhos convidam e eu mergulhei

Confesso a vocês que li algumas resenhas depois de ler de uma sentada só o primeiro romance de Cinthia Kriemler. Seu nome? Todos os abismos convidam para um mergulho.

Já venho acompanhando a obra da Cinthia desde que a redescobri naquela rede social que a gente reencontra amigos de outras eras. A Cinthia pré adolescente que eu conhecera não só crescera como se tornara escritora. Ora vivas! Para uma leitora voraz como eu nada mais instigante. E não é que era das boas! Seus poemas e contos me tomavam de assalto, tinham ritmo não só das palavras e frases bem construídas, mas faziam a minha mente de arquiteta viajar pelos espaços que ela criara. Quando soube do seu primeiro romance tive que mergulhar. Pela primeira vez.

Quando o livro chegou li em um dia e meio. E porque tive que parar para atender outras coisas. E já concordo com todas as resenhas que li: não é uma leitura cômoda. Mas é inebriante. 

No começo fui tomada pela sensação que a contadora de contos (perdoem a redundância) tinha seguido seu instinto e a história era um retalho deles. Muito bem escritos mas pedaços de realidades. Até que: segundo mergulho. Os mosaicos se encaixaram de vez, os caminhos bifurcados começaram a se encaixar e o romance surgiu. Pleno. Cru. Perfeito.
Beatriz, seus amores, suas dores. Tantas mulheres com rotas não iguais, mas quase ou semi quase. Tão humana em suas falhas ou não acertos, ou tentativas. Ou apenas humanidades que buscam um sentido.

Seus personagens são densos. Mesmo os coadjuvantes são atores principais. Deles sentimos suas almas, seus também descaminhos, seus mergulhos, seus anseios.


Terminei a leitura com um nó no estomago. Mas não fiquei pesada. Apenas e tão somente com aquele suspiro que acompanha a vida real, por mais trágica e intensa que nos seja. Torcendo para um final feliz da Beatriz mas...

SPOILER - não leia se não leu o livro. Mas se resolver ler mesmo assim, você é dos meus, não se importa com saber ou tentar saber as respostas antes porque se sabe capaz de descobertas pelo caminho que nem sempre são as mesmas de outros.

Mas e como último mergulho antes de fechar o livro, gostei que a Cinthia não tivesse optado pela resposta fácil de que no fim tudo se resolve. As vezes, muitas vezes, os caminhos nos levam à mergulhos bem complicados e o que resta afinal é reconhecer os convites. E mergulhar.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma história de fim de tarde

Era tarde. Pelo menos parecia que era.

Não que fosse importante mas já corria o meio da tarde e urgia que corresse se quisesse saber a resposta. Nesses dias meio assim, sem som, sem chuva, em que a vida parecia correr sem pressa e sem graça, as urgências perdiam sua necessidade.

Talvez fosse bom. Vá lá se saber.

Correu os olhos pelo armário. Entulhado de roupas que um dia lhe serviram. Devia se livrar delas de uma vez já que não conseguia fazê-las caber em seu corpo. Colocou a mesma calça que lhe dava a harmonia das coisas conhecidas, uma camiseta mais básica e um sapato confortável. Disso não abria mão. Já aprendera que a vida é muito curta para bolhas nos pés. Abriu a porta e foi.

Antes uma gota de perfume e um batom ligeiro que mesmo na pressa não urgente havia lugar para alguma vaidade. 

Ligou o carro com a calma das rotinas. O rádio na mesma estação. AM que noticia lhe deixava mais atenta que música. Olhou rápido para o relógio. Mentalmente fez as contas. Sim, dava tempo. Detestava chegar tarde e tomar tempo dos outros.

Era das gentilezas diárias. Cresceu assim, educada e gentil. Achava bom. Fazia o mundo parecer mais civilizado. No fundo não entendia essas pessoas que precisavam se afirmar sendo grossas e deselegantes. Não sabiam então que quem tem razão não precisa gritar nem impor? 

Pareciam não saber. 

Não importava porque não era de se ligar à comportamentos que reprovava. Que fossem o que fossem se os deixava felizes. 

Enfim chegou. Não antes de dar voltas atrás de uma vaga. Detestava fazer balizas e não se importava em caminhar mais. Até gostava. 

Parou um pouco antes de bater na porta. Pensou que podia voltar, deixar para lá, esquecer, fugir. Respirou fundo. Se viera até ali, não ia ser agora que ia dar meia volta.

D. Luana! Gritou a recepcionista, sempre gentil, no seu uniforme cinza e batom vermelho. Sentimos sua falta. Palavras de praxe para todas as ex senhoras que cruzavam aquele caminho. Luana já era. Tinha sido. Agora não mais. Agora outra qualquer. Katrina. Joana. Marlene. Um nome diferente para mulheres tão iguais em seus sonhos e suas sinas. Um dia fora elas. Agora não mais.

Seu tempo tinha chegado. Era história. Na vida de alguém era história. Na sua era rota e trajetória. Sorriu para a moça com o sorriso de sempre. Por fora. Por dentro sorria era para si mesma. 

Correu os olhos pela sala. Um dia tinha entrado ali cheia de sonhos. Agora saía também cheia deles. Outros. Uma leve angústia marcou sua alma. Um frio gelado parou sua espinha. Era hora.

Abriu a porta. Entrou certezas.

domingo, 24 de setembro de 2017

Reflexões de um domingo entre ensolarado e cinzento

"Nada mais chato que ex fumante."

Ouvi muitas vezes dizerem isso ao meu pai que após deixar o vício vivia tentando convencer os outros a também agir assim. Sei de suas boas intenções e talvez até tenha conseguido ter alguém que o ouvisse, mas creio que seu exemplo talvez tenha sido mais profícuo que suas palavras.

Lembro também de uma definição de religião que li muito tempo atrás. Era mais ou menos assim, tipo a caverna de Platão: pessoas trancadas em uma casa em um dia esplendoroso de sol se recusam a sair, não importam os argumentos usados. Aí se grita FOGO, FOGO, FOGO e as pessoas correm para a rua. Ao abrir a porta são banhadas pela luminosidade e compreendem. Ou sentem. Ou enfim, não importa, curtem o momento. 

It's real life, my dear. Cada um tem o seu momento e sua trajetória. Se conselho vingasse não repetiríamos erros mas também não encontraríamos novas soluções. Assim é meio inglório apontar soluções, mas não deixamos de faze-lo. E ao fazer, contamos como achamos as nossas. E nesse contar, sem nos darmos conta, mostramos exemplos de como fazer: 


  • Olhar o mundo por uma nova perspectiva e fazer nossas versões pode ser uma maneira.
  • Meditar pensando numa parede branca como meu fazia, outra. Ele nem sabia que meditava, mas o fazia.
  • Enfrentar cada problema por vez.
  • Não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.
  • Saber escolher as prioridades para fazer o hoje.
  • Lutar pelo que acredita, mesmo que não seja a verdade absoluta da época.
  • Amar muito.
  • Não se contentar com o mais ou menos.
  • Trabalhar com a positividade, com o sim e deixar o não de lado.
  • Não dar murros em ponta de faca. Afinar a sensibilidade para saber a hora de trocar de rumo.
  • Aprender com as lições, seguir adiante e não as ficar remoendo mais.
  • Em uma encruzilhada, escolher um caminho e esquecer os outros.
  • Saber conciliar seus desejos com os desejos de quem se ama.
  • Se amar sempre. Auto estima é fundamental para a sobrevivência. 
  • Agir. A teoria é bonita, mas é a prática que move o mundo
Enfim, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E sempre saber que o dia amanhece, mesmo depois da noite mais escura.


sábado, 23 de setembro de 2017

Ninguém disse que me fazer de forte me doeria tanto

Fazia tempo que uma noite não era tão comprida. Pensar, remoer, doer. 
Doía. 
A vida doía como bem lembrara sua amiga escritora. 
Em algum ponto do caminho derrapara na curva. Urgia encontrar o retorno. Se ainda havia algum. Às vezes achava que se fosse um pouco mais corajosa podia meter o pé no pedal e mergulhar no fim. Mas até para isso pensava nos outros primeiro. Não queria machucar ninguém. Que se machucasse sozinha. Ninguém mesmo se importava. 
Havia sim quem se importasse. Achava que havia. 
Suas dores que a carregasse sozinha que assim tinha sido escrito. Era seu carma. 
Essa coisa de carma é explicação besta para dizerem: fique com suas queixas e não venha nos amolar. Cada um carrega as suas e assim foi e sempre será. 
Queria ter estômago para aparentar mais fake happines. Aquele saudável egoísmo de expor uma vida esplendorosa nas fuças de todos para que a admirassem. Qual o quê. Tinha mais paciência para isso não. 
Tinha esgotado. 
Que contasse com seus ombros que eram frágeis mas eram fortes. Que acumulasse tensões que viraram bolas imensas que as mãos da massagem nem conseguissem dissolver.
Tinha que haver uma razão. As daqui não faziam mais sentido. Quem sabe alhures....

domingo, 17 de setembro de 2017

Abriu a porta

Abriu a porta.

Tudo era novo naquele olhar que amanhecia para a vida. Correu os olhos pelas paredes em que a pintura carecia de novo retoque. Pousou seus dedos pelos móveis que revelavam um passado mais ditoso e onde os cupins marcavam sua fome. 

"Para que uns sobrevivessem, outros tinham que fenecer." Riu da sua ideia. Pareceu tolice de adolescente, coisa que ela tinha uma vaga recordação de ter sido um dia.

Mas mesmo assim, sorriu. A vida lhe pareceu boa. E fosse lá explicar esse milagre de achar graça onde tudo parecia ruína? Tem coisas que não se explica não. Se deixa sentir e só.

Abriu a porta.

Sentiu falta de uma violeta que pudesse lembrar ternura. Anotou mentalmente na sua lista de compras. Havia de sobrar uns trocados para um gesto de beleza. De repente entendeu o cara que morava na rua, aquele que trancrava a respiração, envergonhada, pelo cheiro que empesteava suas narinas, dos dias e anos sem uma gota de água a lavar humores e fluídos que de tão naturais, não se fala, só se faz escondido. Ele que, mesmo em meio à feiura da miséria, guardava uma garrafa usada onde colocava uma flor furtada de um jardim qualquer. Da próxima vez vou piscar para ele anotou mentalmente.

Abriu a porta.

Olhou de leve o jornal, as redes sociais. As manchetes gritavam obscenidades. Melhor seria largar tudo e ir à uma exposição ver um outro jeito de ver a vida. Qual o quê, já tinham fechado. Se não restasse mais a arte, mesmo que polêmica, exatamente por ser polêmica, como ia aguentar o tranco? Afastou a ideia, era loucura pensar que o mundo poderia voltar à tempos em que tudo isso acontecia. Nunca mais, pensou aliviada. Mas e se (?) pensou assustada.

Abriu a porta.

Leu comentários de sua bolha social. Bons tempos esses em que a tecnologia já filtrava o que se podia ver e principalmente a quem ler. A gente até chegava a imaginar que o mundo concordava com a gente e era como uma volta à infância onde a gente podia brincar de faz de conta que o mundo nos entende. Mas tinha uma coisa acontecendo. Seus iguais agindo como os outros. Deixaram de ser feministas e começaram a xingar uma mulher de vaca, de mal comida, de arrogante e de outros afins por um ato que a seus olhos era normal. Ou deveria ser. Tentou pensar que era ela a errada. Quem sabe...

Abriu a porta.

Tentar sobreviver talvez seja isso. Navegar apesar de. Não se fiar em tribos nem em dogmas. Acreditar em ideias e não apenas em pessoas. Era ter suas versões da história, dos enredos, era rir de si mesma. Era alguma coisa que um dia descobriria. Por enquanto se limitava a abrir portas a cada dia. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Acordou velha

Era um tempo complicado. Ela saia de si às vezes para tentar achar um rumo que fizesse mais sentido que o que vivia.
Todos me chamam de Moira. Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos comigo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas. Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passaram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorável, o fruto da maturidade. Benoîte Groult, Um toque na estrela
Acordou velha. E não apenas pela pele flácida e os cabelos brancos que teimavam em aparecer sobre as camadas de pintura que tentavam driblar o tempo nesse mundo onde ser jovem é quase uma obrigação. Tudo bem que os remédios, antes inexistentes, iam aumentando a cada consulta médica, que os amigos iam morrendo sem explicação e que o tempo que sobrava era infinitamente menor que o que percorrera. Nada disso no entanto a fazia mais velha que a desesperança que teimava em lhe acompanhar a cada manhã.

E nem vinha tanto dela que era otimista desde que abrira os olhos ao mundo. E foi em um parto com penumbra, música de fundo e pai no quarto. Anos antes do Leboyer se tornar famoso e propor o seu parto sem violência. Talvez essa recepção à vida lhe marcasse profundamente e lhe desse esse jeito diferente de ver e entender o mundo. Talvez fossem as conjunções astrológicas que a fizeram ser uma dupla ariana com total imersão na 12 casa. Talvez fosse DNA, lembrança ancestral de gente que sentia e lutava e amava e vivia que a fizera assim. Talvez fosse ela. Vá lá se saber.

Mas com tudo isso e mesmo assim acordou velha. Pesada. Descrente. Uma vontade pela vez primeira de ter a coragem suficiente de largar tudo e ir começar em outra pátria um mundo mais generoso. Ou menos tacanho o que, como já dizia Francisco, não é o mesmo, mas é igual. 

Uma réstia de luz, um arco iris, um unicórnio voador, uma deusa celta, qualquer coisa mais simpática para brilhar seus olhos que teimavam em focar na hipocrisia e teimavam em tentar encaixar sua maneira empática de ser com a sua própria convicção interna. 

As vezes se sentia como aquele marciano do conto de Bradbury que se metamorfoseava em muitos para sobreviver e terminava morrendo em pedaços que não se encaixavam nele.     

Acordou velha porque nela as luzes iam se apagando. Uma a uma como naquele outro conto "Os 9 bilhões de nomes de Deus". Sim, lera o Despertar dos Mágicos. Como lera o Relatório Hite, O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir e obviamente Capra e Gestalt. Anos 70 eram fecundos. Ela era jovem e questionava. Participava. Tinha opinião formada sobre tudo. 

Os anos passaram para todos. Até para ela. Seus antigos amores morreram. De doenças normais da velhice. Suas amigas falavam de netos. A roda do mundo andava e era cruel. 

Nem tanto no corpo que ele é consequência de suas escolhas e ações. "Aos 20 temos o corpo que a natureza nos deu, aos 40 o que merecemos". Aos 60, mesmo agindo mais que fizera, dificilmente deixaria de revelar os sinais do tempo. A menos que se deixasse seduzir pelos botox que fazem mais pela igualdade de gênero que muita revolução. Não podia deixar de sentir uma certa ironia por ver como muitos homens e mulheres lustrosos se pareciam cada vez mais.

Talvez a velha ironia, agora transformada em um olhar mais amargo, tivesse sua parcela de culpa na velhice que lhe acometera. Difícil ter um olhar mais ingênuo olhando a loucura do mundo atual. Mas era justamente isso que escutara de avós e pais que repetiam que seus tempos eram melhores. 

Chegara ao seu tempo de ser velha.

Urgia trocar a roupa da amargura pela da maturidade. Urgia fazer um pacto com Moira para voltar a ser leve como um pássaro que alça voo.