terça-feira, 20 de junho de 2017

Tulipa na cabeça

Fazia frio naquele julho gaúcho. Não mais que já tinha feito em outros invernos. Mas este era especialmente doloroso. Era dentro dela que a dor doía.

Em outros anos ela tinha uma companheira quase que constante. Esperança era seu nome. Nos dias mais cinzentos, Esperança voejava ao seu redor, abrindo janelas, espantando temores, dando aquela coragem que só as amigas de verdade sabem dar. 

Um dia Esperança sumiu. E ela começou a ficar doida. 

No começo achou que fosse uma escapada qualquer, dessas que as pessoas dão quando querem repor as energias. Ela mesma tinha feito isso ano passado. Pela primeira vez em dez anos. Fora tão bom. Vai que Esperança tivesse feito o mesmo.
Mas não. Sumiu. Não mandou recado, não deixou celular. Nem e-mail. Procurou nas redes sociais. Tinham várias Esperanças. Mas nenhuma a sua.

Quando se deu conta enfim que ela não ia mais retornar foi que compreendeu. Tinha enlouquecido.

Olhava ao redor e nada mais tinha graça de antes. Nada a comovia e até a sua criatividade foi se acabando. Olhava uma folha em branco e nem mesmo a velha angústia que precedia a boa criação lhe vinha. Uma folha em branco era agora apenas uma folha em branco. Continuaria uma folha em branco. Indefinidamente. 

Foi ficando mesquinha. Uma carência pegajosa se apossou dela como se a atenção, mesmo que por migalhas, de outras pessoas fosse lhe abastecer a alma. Qual o quê. Era a falta da Esperança, sua Esperança, que abria aquele buraco sem fundo.

Todo dia tudo era igual. Ela convivia com o esquecimento dos que amava. Nem sabia mais se amava. Não se amava mais. 

Férias: anotou na agenda. Foge! Gritava o coração, naquele pedacinho que ainda teimava em ser são. 

Uma coragem afoita de quando em vez e parecia que ia conseguir. Mas o universo parece conspirar contra quem não está em sintonia consigo mesmo. Nada dava certo. E a força pequeninha ia pelo ralo.

A memória ao redor dela enlouquecia. Sua casa se carcomia. E ela apenas olhava como se fosse expectadora em um palco mambembe. Já vira essa história. Sabia como acabava. E sem a maldita da Esperança o buraco negro ia pega-lá também. Talvez fosse melhor mesmo esquecer tudo. Os nomes, as palavras. Ser louca tinha lá suas vantagens.
Enlouquecer. Por mais que tente permanecer na essência da vida, vou enlouquecer. Conviver diariamente com mentes que se vão, faz a minha embranquecer. Minguar. Sumir. Melhor ficar doida. Colocar uma tulipa na cabeça e sair feito bailarina ao sol, recitando velhas poesias que nunca escrevi (Antônia Bandeira da Luz )


Talvez a morte enfim fosse isso. Se deixar acabar. Ir se consumindo até que nada mais da antiga personalidade restasse e ficasse ela: a Essência. E doidamente as duas se unissem em um antiga dança cósmica do amor e fossem vagar pelas estrelas, pelas ruas, pelas vidas. Sendo. Querendo. Vivendo enfim.


"No caminho dessa descoberta, não tem compromisso
Com trilhar o que já foi trilhado
Deixo tudo ali do lado e parto cego e sempre em frente
Um tanto quanto alucinado
E nado para estar presente
Nada como estar assim ciente
Sem estar cansado
Sem estar à margem
Sem estar doente
Sem faltar coragem"
Feito Um Picolé No Sol)

sábado, 17 de junho de 2017

Esmagado pelo asteroide

O jornal caído no chão tinha uma notícia instigante. E assustadora.

Era ainda nostálgica e gostava da palavra impressa, essa coisa narcótica e anacrônica de ver símbolos sobre o papel. A cama desfeita guardava o calor da noite. E os cheiros também. Já repararam como o cheiro da gente se acentua nas noites, especialmente as mal dormidas? Fica uma inhaca forte no ar que precisa ser dissipada com o ar que renova as manhãs.

Um copo de café semi quente ao lado da taça de vinho de ontem formavam uma moldura e contavam uma história na mesa de cabeceira. Junto com o livro de perguntas, aberto na página do dia 12 (ontem), ainda em branco. O lápis sobre ele era um apelo mudo para uma resposta que não vinha. A pergunta? "Quem desperta teu cinismo?" Não era quem, mas o quê. Mas ela teimava ler quem. E por isso não escrevia. Ela sabia a resposta. 

Era uma pessoa de bom senso. Não demonstrava grandes mudanças de humor. Era serena. E isso era alardeado como uma qualidade. Nunca um defeito. Gostava disso.

Gostava também dos bombons que a chamavam da caixa fechada. Tinha resolvido começar o enésimo regime do mês. E só estava no dia 13. Foda-se, pensou. Abriu a caixa e antes que o senso comum a fizesse desistir, abriu com pressa a embalagem, pegou um ao acaso e comeu. A mesma sensação de prazer que o pastel da noite. Que o pão de queijo da tarde, que o sanduíche da manhã. Não era de espantar que as roupas no armário lhe olhassem com saudades, esquecidas nos cabides, por falta de sintonia entre elas e o corpo que já não lhes apetecia. 

O dia a esperava. Era feriado e isso era bom. Fazia sol o que era melhor ainda. Dia de sair à rua, encontrar os amigos, pegar um cinema. Talvez também o novo amigo que conhecera nas redes sociais. 

Seria um dia normal. Não fora a notinha ao pé da página do jornal caído no chão. 

Em geral lia de forma sintética. As manchetes, alguma opinião. O obituário porque achava falta de respeito não dedicar uns momentos de atenção à quem tinha partido. Mesmo que não os conhecesse.

Mas semanas atrás, por essas forças sincrônicas da vida, seu olhar fora atraído por uma notícia da TV. Lá na longínqua Rússia um cientista, um tal de Damir, alertava que um asteroide podia colidir com as coordenadas geográficas que eram as de sua cidade natal. Como sabia? Era astróloga amadora e já tinha se arriscado a fazer o seu mapa astral. e para isso fora em busca de dados do lugar. Na verdade era menos que amadora. Era curiosa mesmo. Não era para se alarmar não. Não era dessas pedras que circulam no universo e que podem destruir planetas e vidas. Talvez só algumas. Sabe-se, segundo a notícia, que toneladas de pedras caem do espaço na Terra. Todos os dias. Muitas tão pequenas que nem fazem cisco. Outras tão imensas que podem ter matado dinossauros. Outras como essa que ele previa podiam quando muito abater florestas. E ia cair na sua cidade natal.

Fazia anos que tinha saído de lá. Não sentia falta. Não mesmo.

Sempre fora perseguida pelas línguas ferinas do lugar. A chamavam de gorda quando pequena. De puta assim que emagreceu e foi à forra. De vagabunda quando namorou quem quis. Eram maldosos. Todos.

Talvez nem todos. Tinha a tia que trabalhava na farmácia e era bondosa. Olhar distante e coração meigo. E tinha o Joaquim. Seu melhor amigo. Seu amor secreto. Ela queria crer que não fora ele que apontara o dedo de acusação que a fizera decidir fugir. Ele não. Fora tolhido pelas circunstâncias. Fora pego nas redes mesquinhas das línguas ferinas da cidade. (Línguas ferinas era um clichê que lera em um romance barato e adotara porque clichês são bons justamente para isso. Qualquer um, mesmo os mais tapados, entendem).

E se. E se o asteroide realmente caísse? Brincou com essa ideia por dias. Em algumas vezes a bola chegava perto da cidade. Ia aumentando que nem o pânico das pessoas que ela podia ter avisado e não o fizera. Esquentava mais que deserto e antes que caísse, explodia no espaço em mil pedaços que iam destruir os telhados, fazer estragos, mas não matar ninguém. Era o seu lado gentil que se manifestava até nos sonhos mais escondidos.

Em outras ela aparecia em um carro branco (que cavalo não ia saber montar mesmo) e avisava as pessoas que, no início, duvidavam, mas depois a seguiam por uma rota segura. E de cima de uma montanha viam o asteroide se espatifar na cidade. E seus habitantes, salvos, a aplaudiam como a heroína e lhe pediam perdão de joelhos.

E assim ia sua imaginação, da mais irônica e mesquinha à mais piegas e babaca.

Esqueceu da coisa e foi viver. Até hoje. Lá ao pé da página, no meio do jornal, uma nota perdida de uma cidade esquecida: "Queda de asteroide mata habitante de X." Sua cidade! O asteroide que o tal Damir falou. E não é que caiu mesmo? E ela nada fez! Seu coração gelou. Foi em busca do nome do morto. Ou morta. Qual o quê! Devem ensinar nas aulas das faculdades de jornalismo a aumentar a angústia das pessoas ao nunca colocar de cara os nomes dos bois. Dos mortos, quero dizer. Basta ter notícia de tragédia que noticiam: acidente na rota 345 com um óbito. Fodam-se os amigos e parentes dos milhares que estavam por ali no momento. Fodam-se as preocupações e os sentimentos que o que vale é vender mais. E quando mais gente angustiada, mais leitores.

Joaquim?! Só podia! Porque mais o universo ia lhe trazer tal notícia com tanta antecedência? Era para se preparar. Já tinha imaginado a sua morte de mil maneiras (mentira que acreditara em suas boas intenções). Mas nunca assim, esmagado por um asteroide! Melhor que morto por um tiro que arma ela nunca teria coragem. Nem faca. Coisa mais suja. Veneno talvez fosse mais simbólico. Mas asteroide! Um sinal dos céus. Deus enfim a tinha recompensado!

Não teve dúvidas. Correu para a garagem e pegou seu carro. Vermelho. Cor de sangue. Para inveja das pessoinhas do lugar ela tinha vencido na vida. Segundo os valores deles. Tinha se tornado uma expert em sentimentos humanos. Dava palestras que eram muito bem pagas.

Demorou umas duas horas para chegar ao lugar. Continuava o mesmo. Nem sinal do asteroide. Pelo jeito não causara destruição aparente. Uma pena.

A mesma praça pequena. As mesmas lojas de antes. O mesmo calor infernal. Mesmo no frio que fazia, ela podia sentir aquele ar gosmento e fétido. Eles eram os mesmos. Ela, nunca mais.

Chegou a tempo de ver uma procissão saindo da capela municipal. Aparentando ser uma turista, perguntou distraída: quem era o defunto? O seu Joaquim do Boteco. Morreu de cirrose. E o tal do asteroide, quis saber? Era um que passava na cidade, se escondeu embaixo de uma árvore quando viu a bola de fogo. Não é que deu azar e a árvore caiu sobre ele?

Enquanto voltava pela estrada estadual, aumentou o som da música. Que tocou a sua da adolescência. Bosta de vida, pensou consigo. Nem nos céus se pode mais confiar. E apertou o acelerador.    

   




quarta-feira, 14 de junho de 2017

Rascunho da vida cinzenta

Amanheceu a manhã de um dia qualquer. Um daqueles que escorre devagar e vai se formando na alma da gente como gota que pinga de um remédio. 

Arrastou as cobertas de supetão, mas antes correu os olhos pela tela que lhe mostrava o que tinha acontecido enquanto dormia. Deu um suspiro ao ver as notícias. Melhor ver os gatinhos que eram mais fofos e enterneciam mais que as tragédias e mesmices dos sites de imprensa.

Passou por debaixo do chuveiro sem tempo para aquele banho demorado em que podia meditar. De todos os pecados inconfessados destes tempos de cobranças comportamentais, o banho era o pior. Gastava água sim. Sem remorso. Sem vergonha. Tinha lá os seus pecados. 

Engoliu um café preto misturado com pedaços de pão com manteiga e saiu à rua.



A rua. Cada dia mais assustadora. Tinha vezes em que se imaginava nos tempos em que as pessoas não tinham necessidade de sair dos muros e quando o faziam, eram em comboios intensamente vigiados. Mas não só os perigos de fora a detinham. Os de dentro eram os mais assustadores. 

Por fora era calma e serenidade. Por dentro vulcão e caos. 

Todos deviam ser meio assim nesses tempos loucos em que ninguém se revela mais. Ou seria só ela a sentir de maneira tão completamente diferente que nada mais fazia o menor sentido?   

Bobagem. Parou e respirou mais fundo.

Devia ser o cinza que teimava em não ir embora...Quando o sol aparecia, tudo se tornava mais fácil. Até lá restava aquilo que era cada vez mais difícil de lidar.

Tanto lidou com a morte que a vida perdeu o encanto. Assistir às agonias de tantos, suas decadências e refletir sobre se suas trajetórias tinham valido a pena a faziam perder o gosto mais profundo das frutas e gostosuras. A vida afinal, pensava, não passava de uma sobrevivência em que todos voltaremos ao pós e de nós nada mais restará. Nem a lembrança dos que um dia nos amaram a ponto de se importar conosco.

Um dos primeiros sinais foi uma estranheza com a rotina. Não que ela ficasse ruim. Pelo contrário, ficou mais leve e necessária. As ousadias que faziam o coração bater mais forte foram se perdendo pelo caminho. Encostadas numa cadeira, esquecidas ao pé da mesa. Sumiram.

Depois foi um esquecimento. Começou com as palavras. Elas teimavam em sumir na hora mais necessária. O vocabulário foi minguando, simplificando. Meio que se limitou ao banal.

Depois foram os amigos. Os amores. Até os amantes foram sendo largados como fardo que se despe para facilitar o caminho mais árduo.

O olhar foi ficando mais longe. Parecia a mesma. Só que não. Não mais.

A cada dia cravava a faca mais um pouco. Ninguém notava. 

O sol nascia. Morria. E ela também

terça-feira, 13 de junho de 2017

Patética

Aquele dia/semana/tempo que não acaba em que tudo fica cinza. Não é depressão não. É um quê de inadequação, de desligar de si mesma.

Patética.

Quem nunca?
Nada dá certo. Pior que isso, não dá vontade nem de tentar. Muito patético.

Qualquer migalha vira montanha. E nem TPM a gente tem mais para servir de desculpa. A criatividade míngua. A fome aumenta. (Parece que são interligados - estômago e mente se unem e desunem em total sintonia esquisita que aumentam e diminuem de acordo com a circunstância.)

Uma vez eu imaginava que havia em mim um botão de liga e desliga. Era antes de existir essa coisa de bipolar. Era coisa de adolescente.

Mas vamos convir que já deixei o aborrecido período teen há várias décadas atrás. 

O me sentir tão patética de hoje tem mais a ver com uma desesperança de agir. De sentir que o meu pensar e sentir se tornou tão absoleto. Que o que saí de mim é irrelevante. 

Eu me perdi de mim.

Obvio. Não sou burra e já me conheço de longa data. Já fiz terapias de autoconhecimento, gestalts, biodanças, li livros de auto ajuda. Fiz grupo, individual. Sei todas as receitas que possam me dar. E que agradeço pelo carinho.

Mas eu me perdi de mim.

E quando me perco, não há braço que sirva para me tirar do redemoinho. Eu fico no meu "patético período de desligamento". Minha energia se esvai feito espuminha no ralo. E eu fico expectadora. 

Cheia de expectativas.

Não sei se são ovo ou galinha. As expectativas atrasam a vida de gente. E nesses períodos de patética sensação, elas assomam de uma maneira atroz. 

Talvez seja tudo uma questão de auto estima e a minha esteja baixa. Na verdade a necessidade de respaldo externo para contrapor à insegurança interna.

As respostas estão na ponta da língua. Engolir e digerir talvez façam o botão ligar a luz interna. Vá lá se saber.

(junho - mês complicado e sem inspiração. Escrevendo a base de boleros para ver se alguma parte de mim reage, nem que seja por sentimentalismo barato e essa apatia medonha vá embora)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Fale seu amor para que ele perdure


Estava arrumando umas coisas e achei uma folha escrita à caneta tinteiro. As linhas já meio apagadas numa folha daquelas bem finas que a gente usava para escrever cartas. A data? 12 de junho de 1967. 

Quem não é desse tempo não entende. A gente não tinha whatsapp, nem email, nem celular. A gente escrevia a mão. E como o correio demorava, entre uma e outra correspondência, a gente escrevia muito. Longas cartas. As minhas tinham desenhos, recortes, cores, tudo o que pudesse mostrar para a outra pessoa o que a gente estava sentindo.

Era tipo olhar o universo. A gente mira uma estrela, mas aquela luz pode nem existir mais nas enormes distâncias que atravessa para chegar até nós. 

Assim eram as correspondências. 

E por isso as folhas finas. Imaginem cinco, sete, dez folhas em um envelope! Sim!!! Eram textões! E como eram aguardados! A gente não se contentava com telegramas. Estes eram para as notícias urgentes, e normalmente elas não eram boas...."se fosse ruim a gente já sabia" era uma frase comum. As más notícias vem à galope! As boas vinham pelo correio.

Mas tinham os whatsapps da vida. Aqueles recados que a gente não dava ao vivo. Guardava para serem entregues por escrito. Uma dessas achei nos meus guardados.

Em tempo: sou acumuladora. Nasci de um pai acumulador. Curto o passado e as histórias. Acho que alicerçam o futuro. 

Dito isso, volto ao tema principal. Em pleno junho de 2017 encontro em uma folha fina de papel, escrita com caneta tinteiro quase gasta, uma declaração de amor de meu pai para minha mãe. Um poema que veio, segundo as suas palavras, junto com um buquê de rosas. E como sempre assinava "teu eternamente enamorado/apaixonado" Paulo.

Fiz uma cópia digital e passei para um papel mais durável para que minha mãe sinta, aos seus 91 anos, o amor de seu namorado que se foi há três anos, mas que deixou mais que recordações que a sua memória vai aos poucos misturando. Deixou palavras escritas que se juntam às que disse e aos carinhos que praticava diariamente. 
Por isso quando vejo, hoje, tanta gente em busca de um amor bonito, desses que durem até a gente ficar bem velhinho e façam a lembrança resgatar momentos que justifiquem uma vida, eu lembro: adubem. Falem. Gritem seu amor de forma bonita. Ele não perdura se não for regado de forma sistemática. Além do respeito e da cumplicidade, lembrem do romance e do encantamento.

Façam com que o amor seja como uma estrela que continua brilhando mesmo depois de perecer. E que encanta a alma de quem a vê nas noites mágicas em que os cabelos brancos se perdem no coração eternamente jovem. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

De uma mulher qualquer

Iluminada.

Acordou cheia de luz. Dessa luz que não importa o cinza nublado de fora, ela inunda a alma e se esparrama feito maria mole pela vida. Nem bem sabia o porquê. Nem tinha motivo.

Ela que fora parida por Maria/Joana/Clarice/Rosemari. Gerada em uma noite de lua cheia e ardente em que fora seduzida pelo Mario/Miguel/João/Claudenir que a envolveu em seus braços, arrotando palavras de sedução tão novas e delirantes.

Mentira. Foi uma foda dessas de fim de noite, entre duas pessoas que nem mais se olhavam de tão conhecidas, dessa convivência que vira fardo, vira vida tão normal que cansa. Cansa até os poros. Nem sabe como tiveram energia para que um ovulo se abrisse a um espermatozóde. Deve ter sido descuido. Só pode.

Oito meses depois nasceu aquela guria mirrada. Feinha que dava dó. O Mario/Miguel/João/Claudenir já tinha morrido em um acidente de trabalho. Depois de uma jornada de oito horas, foi fazer bico de segurança. Bala perdida numa briga qualquer de bar. Um número nas estatísticas e uma notinha de blog policial. E fim. De herança deixou uma foto 3x4 e uma certidão de casamento. Com outra que não era a Maria/Joana/Clarice/Rosemari.

Oito meses. Sempre fora apressada. Não esperava as coisas se ajeitarem. Ia em busca delas nem que tivesse que passar por cima dos conselhos da tia. A mãe tinha partido em busca de novos caminhos. (Ela imaginava para amenizar a dor de a ter perdido para uma dessas epidemias de dengue/gripe/sarampo/febre-amarela que grassavam por aí)

Cresceu inquieta. Tinha uma secreta luz, uma quimera escondida que teimava em arder nas horas mais esquisitas. Tentava esconder. Vestia roupas maiores que ela, as que lhe davam de favor. Deixava o cabelo crescer para que tapasse o peito. As vontades. Os desejos.

Os desejos sangravam dentro dela. Ela mesma sangrava.

No começo levou um susto. Brincava ainda de bonecas quando veio aquela coisa gosmenta. Achou que tinha se machucado. A tia explicou que era assim mesmo. Sina de mulher. Vinha todo mês e tinha que deixar as brincadeiras com o Joaquim/Francisco/Antonio/Vicente (na verdade com todos eles). Agora era mais complicado. Ela tinha que pensar no futuro. Era mercadoria valiosa se bem cuidada. (A tia devia estar esclerosada, onde já se viu? Aqueles amassos é que a faziam se sentir querida e amada. Mais que nunca na vida)

Mas tinha uma coisa que não abria mão. Ela escolhia.

Sei lá, já nasceu assim. Esquisita. Cheia de manias.

Ouvia boleros. Lia muito. Gritava de prazer. Criava suas próprias versões para a vida. Por dentro.

Por fora era comum. Até demais. Mais uma dessas Magalis/Anas/Iaras/Lúcias que passam nas ruas, espantadas e sobreviventes de uma linhagem secreta de amazonas que caíram sem nem saber em uma terra de misérias.

Um dia, quem sabe, mistério/êxtase/luz/caminho, lhe resgatariam dela mesma.

Porto Alegre, junho chuvoso de 2017. Brincando de escrever contos como um desafio. E como sempre deixando sair de borbotão, se refinamentos e sem revisões. E morrendo de medo (e vontade) de perguntar a opinião sincera de vocês.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Atire a primeira pedra quem nunca errou

Quase todo dia somos bombardeados por uma polêmica nova nas redes sociais. E algumas são claramente calcadas em uma total Intolerância com o pensamento alheio que, muitas vezes, nem merece uma lida ou ouvida com atenção e despida de pré conceitos. Sabem aquela velha prova de interpretação de texto que pegava muita gente no colégio? Continua pegando. Tem gente recebendo pedradas de quem não entendeu nada do que ouviu ou leu. E acha que entendeu.

E não estou falando nem em ter opinião diferente. Isto é outra coisa. É não captar mesmo o contexto. Pessoa citou algo como exemplo e pronto, é julgada e condenada como se o exemplo fosse sua prática ou tivesse a sua concordância. 

E quando as ideias não combinam, então, saí da frente, porque as pedras vão vir. A maioria sem argumentos mesmo. Vão do vômito ao xingamento, sem apelo nem habeas corpus. Aliás estes instrumentos jurídicos parecem estar ficando obsoletos em tempos mais pragmáticos como os de hoje onde os fins justificam os meios. 

Sócrates bebendo cicuta
Não que perseguição às ideias contrárias seja novidade histórica. Que o digam Sócrates e as bruxas de Salem (e de onde mais estivessem). Sem esquecer das fogueiras e cadafalsos de uma história nem tão longe assim.
Caça às bruxas
O que distingue os tempos de agora são o alcance que essa intolerância alcança. Mesmo com erros que todos cometemos. Eu já os cometi, obvio. Já fui preconceituosa, mesquinha e maldosa em algum período de minha vida (me julguem). Por sorte tive a oportunidade de refletir e aprender. E a mudar comportamentos se os achava errados. E a pedir desculpas. E de aprender a não repetir. E isto ficou entre mim e a quem eu, involuntariamente, possa ter magoado.

Hoje não. Vira estigma. Um erro vira uma marca que talvez nunca mais saia. Tipo uma queima em uma fogueira virtual onde os mais fracos e/ou sensíveis podem acabar imolados. Alguns não aguentam a pressão. E a vida segue seu baile. Sem dar chances.

Atire a primeira pedra quem nunca errou.

Sim, eu sei que a frase original tinha a palavra pecou. Mas eu tenho um senão com a palavra pecado. Acho que vem carregada de muita carga religiosa e para muitos é uma linha intransponível. 

Minha noção de pecado é um pouco diferente. É tudo aquilo que se faz intencionalmente de mal para alguém. E este mal é tudo aquilo que eu não gostaria que este alguém fizesse para mim. 

Bem subjetivo. Mas para mim funciona bem.


E agora partindo de um ponto de vista bem pragmático: de que serve dar cicuta para alguém que nos incomoda beber ou decapitar desafetos? O que nos acrescenta como pessoas? O que acrescenta à humanidade? Não é isso que fazemos quando usamos nossos dedos e mentes para julgar, condenar e aplicar a pena em alguém? Que muitas vezes nem conhecemos? Que ouvimos falar, que lemos numa rede social? Que nem sabemos se é de verdade ou mentira o que disse ou o que disseram que disse?

Fazer justiça com as nossas mãos nos dá que tipo de prazer? Não seria mais producente acharmos uma alternativa de conhecer mais a fundo, olhar o outro com um olhar mais isento? Tentar entender seu ponto de vista? (Ah! vai dizer isso para quem matou, roubou, feriu? Tá com pena, leva para casa, dirão os mais extremados). O que me sugerem é voltarmos aos tempos de Antes de Cristo? Olho por olho, dente por dente? Alguém matou meu amor, eu vou lá e mato a pessoa, ou o seu amor para que sinta o mesmo? Vai trazer meu amor de volta ou vai me transformar em um assassino como ele?

Humanidade.

Não creio que seja uma palavra sem sentido. Amor, generosidade, compreensão e empatia. Receitas simples para um mundo em convulsão. Começa dentro de cada um de nós. Pode ser trabalho de formiguinha, mas acho que vale tentar.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Assassinei a minha franja

Acordei com essa fúria que acomete as mulheres (algumas) quando tudo parece meio nebuloso e o rosto do espelho não traz alívio. Coloquei de lado minhas dúvidas, me armei de uma tesoura afiada e cortei sem dó nem piedade....

Não foi a primeira vez.
Além das bonecas que sofriam operações com caneta tinteiro de injeção e cortes radicais em seus cabelos que nunca mais cresciam, também fiz isso com a minha franja. Tinha cinco anos se muito. Minha mãe tentou arrumar como deu, mas a foto colorizada eternizou aquele caminho de ratos ad eternum. E nem internet tinha na época.

Devia estar no DNA. Minha irmã fazia maestrias com bobs e escovas. Mas também algumas experiências inovadoras. Uma tinta meio fora de validade (na verdade não tinha isso de validade naquela época) tingiu seus cabelos de verde. No dia do baile de escolha da Miss RS 1963, aquele que ia consagrar a moreninha Ieda Maria Vargas, que seria coroada como Miss Brasil e Miss Universo logo em seguida. E minha irmã de cabelo verde!

Obvio que ela resolveu, nem sei como. E nem por isso deixou de fazer muitas e muitas experimentações estéticas. Sempre foi de se arremessar na vida.

Eu nem tanto. Sou a mais básica dos irmãos. Compro livros em vez de roupas. Mas tenho uma vaidade. Meus cabelos.

E acabo de assassinar minha franja. Aos 60 anos quando devia ter um pouco mais de bom senso.

Uma nevoa de comiseração quis se abater sobre mim. Mentira. Quis não. Se abateu sim. Foi como se fosse uma versão feminina de Sansão e me tirassem um pouco das forças.

Nesse mesmo instante uma de minhas melhores amigas estava na sala de operação colocando um cateter para aprimorar a quimioterapia de tumores que lhe chegaram quando não deviam. Não ela. Não alguém que sempre foi tão guerreira, tão alegre, tão vitoriosa. Tão cheia de amor que meu irmão, seu marido, a definiu como uma pessoa com uma capacidade infinita de amar. Tão cheia daquela força que me dá a certeza de que ela vai vencer essa batalha.

Eu mal consigo acompanhar sua luta, aqui distante. Devia estar mais perto, ela que tando me auxiliou em momentos tão difíceis. Eu aqui, mesquinha e preocupada com uma franja, alguns fios de uma cabeleira imensa.

Há tanta injustiça na vida, a gente sabe. Por quê ela? Por quê alguém? Por quê a vida é curta? Porquês que a gente nunca tem resposta mas tenta mesmo assim responder. Ou atacar. Ou assassinar dentro (ou fora da gente) para que a Vida pareça mais suportável. 

domingo, 28 de maio de 2017

Guardiã das memórias


Acordou. Foi aos poucos. 

No começo uma estranheza pequena. Uma vírgula fora do lugar. Uma frase desconexa. Uma palavra com outro significado.

Mas como o mundo parecia tão igual não notou.

As vírgulas se transformaram em pontos. De exclamação. Ela tentava juntar as peças. Contava com uma boa memória e com farta bibliografia, recortes de jornais, todo tipo de lixo acumulado que teimava em guardar nem bem sabia o porquê.

Agora compreendia.

Era a maneira de ligação. 

No começo achava que era com o passado. Mas qual passado? 

O que ela lembrava, e onde construiu suas certezas, tinha uma história. 

Esse no qual acordou tinha outras histórias. No começo achou que eram versões e visões diferentes. Mas não podia ser tão simples. Pessoas lhe contavam de um passado que ela não vivera. E com total sinceridade. Não podiam estar inventando. Nunca. 

Teve que admitir que em algures cruzara um portal e entrara em uma realidade paralela. 

Era a explicação mais lógica. 

Interessante que outras pessoas cruzaram com ela. E todos tão perplexos como ela. Seria o tão falado final dos tempos? Ou apenas uma brecha perdida em multiversos naquelas teorias que ela nunca compreendia em seu pouco alcance intelectual.

No começo ficou incomodada. Lutava. Gritava. Respondia a cada incongruências com analíticas observações. Aos poucos notou que era uma batalha de Sisifo. 

Deixou-se estar. 

Tinha a secreta esperança de encontrar a porta para o seu mundo. E se não, quem sabe outro,mais  paradisíaco ainda. Brincava com a ideia de reencontrar pessoas amadas que ainda viveriam nesses outros mundos. Ou com dimensões onde os tempos se cruzassem. Em sonhos até conseguia. Mas sonhos todos sabem que são criações de nossas mentes. Ela queria era a realidade.

Mas não essa realidade que via na rua. Essa que as pessoas arrotavam suas incoerências com a coragem dos parvos. Queria a do mundo em que as pessoas se desnudam e tem a ousadia do arremesso nas suas verdades. Essa em que os corações batem na mesma sintonia do universo e com ele formam uma sintonia. 

Mas qual! Até mesmo no seu mundo isso era visto como coisa estranha. Talvez os universos paralelos fossem no fim criação das mentes humanas em um imenso jogo parido sabe-se lá por quem.

Até lá teria que conviver com as incertezas e com uma única certeza: a de ser guardiã do que tinha havido. 

Para quem? Nem importava mais. Para ela mesma. Para que não adormecesse. Para que não enlouquecesse. Para que não morresse.

sábado, 13 de maio de 2017

Palavras que nunca foram escritas

Acordei.

Tanto tempo dormindo, meio que anestesiada da vida, do não sentir, do não poder. Acordei.

Os olhos que já não eram tão meus correram a vida que parecia de outra pessoa e era estranho olhar no espelho e sentir que uma imagem, vagamente parecida, com a eu que eu fora, me olhava de volta com olhos também de estranheza.

Acordei. Mas o mundo não era mais meu.

As certezas tinham virado pó. Vagava em volta, tentava achar um ponto de apoio e nada. O sonho, por mais obscuro que fosse, parecia mais coerente. 

Alguém me explica em que mundo acordei e em que mundo ficaram minhas certezas? Qual a porta que tomei sem querer que me trouxe para uma outra realidade, nesse multiverso onde os pontos se tocam, mas eternamente se bifurcam. Alguém já disse isso. Li em um livro em alguma biblioteca de algum ponto do universo. Também não importa. 

Acordei aqui.

Meu lado Polyana da vida me sussurra que tenho uma nova possibilidade de construir uma versão. Mas porra, Poli, até aqui tu me persegue! Me deixa ser uma personagem diferente. Uma mais ousada, uma menos calada. Uma mais alguma coisa que não foi tentada.

Na vertigem dos dias que passam, um momento de equilíbrio (além dos sonhos que levam à mundos conhecidos/desconhecidos/) é quando as palavras se acercam. O namoro com livros ou com qualquer texto que faça um sentido por dentro. Palavras que nunca foram escritas. Uma versão que mora dentro de cada um e que um dia, talvez, alguém consiga explorar e traduzir em um conto/romance/textão/telegrama.

Até lá a busca será constante. E os olhos calmos revelarão o turbilhão que corre feito lava quente em tempo de guerra e destruição.  

Acordei. Em algum lugar dentro de mim coexiste uma percepção de que a história um dia fará sentido. Até lá as palavras vagarão feito ondas murmurantes em busca de terra firme.

Acordei. Só para avisar.  

quinta-feira, 20 de abril de 2017

9 verdades e uma mentira

Brincadeiras revelam as pessoas. Devo admitir que essa que corre nos dias de hoje naquela rede social que pretende definir o que é verdadeiro no mundo, me fez conhecer mais a fundo muitas das pessoas com quem convivo. Virtualmente e na realidade.

Eu já tinha me feito esse desafio ao revelar aqui no blog, bem antes disso, ao revelar 20 coisas interessantes que já experimentei na vida e nos 60 fatos da minha vida que você nem desconfiava (I, II, III e IV) 

Interessante analisar como quase todos nós temos a tendência de rotular alguém (e mesmo a nós) com uma imagem. Para muitos sou a mulher elegante e bem educada e há quem não me julgue capaz de fazer nada que saia da linha de comportamento aceito socialmente. Também faço isso com outras pessoas. Talvez por isso olhar uma lista, feita muitas vezes de brincadeira, mas que revela facetas não conhecidas por nós, nos revele uma pessoa mais complexa que tínhamos delineado.

Nossas verdades, ou versões do que nos aconteceu, fazem parte do que somos, construção de uma História ainda incompleta. Somos a criança birrenta que não comia arroz que se transformou na mulher que ama risoto. Só para dar um exemplo prosaico das transformações por que passamos.

E se as nossas verdades sofrem essas mudanças, que dizer da mentira? 

Primeiro que somos ensinados que mentir é feio. Mas mamãe e papai mentem. E quando somos capazes de discernir, eles nos explicam que há verdades que machucam e mentiras sociais que ajudam. Complexo para a cabeça de crianças que adoram dizer que a Vó querida é feia e velha porque tem rugas e braços flácidos. E nos seu jeito de expressar amor, nem percebe se a Vó ficou triste...Do verniz social passamos às mentiras que nos socorrem (fiquei doente, professora, e não consegui fazer o tema de casa) às mentiras convenientes que se encaixam em nossas versões. E que de tão repetidas, se tornam parte de nossas verdades. E quando menos esperamos nosso olhar se cristaliza e a NOSSA versão passa a se encontrar com a versão de outras pessoas. As vezes coincidem e olha a tribo formada. As vezes são tão divergentes e se não cuidarmos, surge a rivalidade, a intolerância, a guerra. 
Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade. Aristóteles Onassis
 Podemos nós dizer em sã consciência, depois de algumas décadas de vida, o que de nossas versões relatadas correspondem aos fatos? Quando rompemos com aquele ex amor, nossas razões parecem as mais relevantes. E as dele? Seriam menos verdadeiras? Quando fomos despedidos, deletados, relegados por algo ou alguém, o que de verdade existe na versão alheia? 

A capacidade de se colocar na visão do outro, a tal da empatia parece coisa de museu. Tanta que já há tentativa de resgata-la porque foi esquecida na vida cotidiana. 

Por isso gostei da brincadeira. Por instantes me coloquei na versão alheia. Enxergando amigos e amigas como eles se enxergam quando colocam verdades sobre eles que não imaginamos. 

E a pegadinha da mentira é para que vejamos o quanto é difícil discernir o fato e a imaginação...

E para quem ficou curioso com as verdades e uma mentira que postei na rede:

1 mentira e 8 verdades...Será que você descobre?

1- Eu era muito chata para comer. Arroz então, se escapava um para dentro da boca, eu parava tudo e jogava longe. Com três anos.
2- Uma das mais deliciosas sensações da minha vida foi subir a serra na garupa de uma moto.
3- Uma das minhas maiores vergonhas de criança foi ter feito xixi quando dormia na cama de meus tios.
4- Nunca usei ou provei drogas. Exceção para um cigarro normal.
5- Minha matéria favorita no colégio era desenho.
6- Joguei futebol no colégio em Brasília.
7- Meu primeiro beijo foi depois dos 20 anos
8- Já dormi em uma casa de pescador em um carnaval
9- Desfilei em um bloco de rua em outro carnaval

domingo, 2 de abril de 2017

60 fatos de minha vida que você nem imagina (IV)

“o que ela quer agora é entrar no rio, talvez morrer, nem sabe, mas entrar no rio, isto é o que importa, de costas para aquela máquina de enlouquecer que chamam de mistério” João Gilberto Noll. “Harmada.”


Quando a perspectiva de vida saí da balança e se vê que os anos que restam são menores que os anos que se foram, bate uma melancolia leve. Uma coisa de "puxa, se eu soubesse tinha aproveitado mais"...embora a cabeça lhe aponte que coisa nenhuma, teria feito do mesmo, que a Vida se encontra para ser vivida, do jeito que der, do jeito que se quer no momento em que se vive. E essa utopia de voltar, mas mais sábia, é coisa que não existe. Se existisse a gente usava toda essa sapiência para não errar de novo. E balela, vamos continuar fazendo das nossas, que o que realmente se assenta em nós são as manias. Essas velhas conhecidas que confortam nosso cotidiano. Nossa linha de conforto. Nosso sapato velho com seus calos mais que conhecidos.

Vamos ao final dos fatos. Não esperem picantes revelações. Sempre fui discreta e não seria ao ficar idosa que me tornaria saliente. E tem mistérios que ficam lindos a dois. E assim já revelei nas entrelinhas que não curto mais que quatro olhos (os meus e os dele) nos meus momentos mais intensos.     

46 - Embora a noite me fascine, sou das manhãs. Acordo cedo, mesmo aos domingos e feriados. Sempre fui assim. Normalmente acordava de madrugada para estudar. No dia da prova.
47 - Tenho intuições. Tinha sobre o que ia cair numa prova, sobre pessoas. Mas nunca tive sobre loterias e mega senas...
48 - Mas mesmo assim sigo fazendo um jogo mínimo semanal. Para mim ainda é a forma mais barata de sonhar. 
49 - Minhas leituras prediletas sempre foram História e Psicologia. A primeira batendo a segunda em algumas quadras de distância. Era daquelas de ver filmes históricos e devorar toda a literatura existente para saber o que era verdade e o que era mentira. Ou ficção. Ou pós verdade.
50- Nunca usei drogas. Mesmo as que me foram oferecidas. Sempre brinquei que meu problema não é sair da realidade. Isso eu faço desde sempre. Preciso de algo que me faça pisar no chão. Só fumei um cigarro lícito para provar e achei uma droga. 
51- Era daquelas que dizia não se não queria dançar. E retrucava um convite para uma cerveja com um prosaico: não tomo cerveja, me leva para tomar vinho.
52- Quase não me formei com a minha turma porque não tinha feito Educação Física que era obrigatória. Eu trabalhava e não dava tempo. Mas como era estágio não era considerado trabalho. Minha turma foi fantástica e queriam fazer um movimento para que ninguém se formasse se eu não estivesse lá. Corri, tive ajuda e consegui me formar com eles. Gratidão eterna. Nunca disse isso a eles.
53- Choro em comercial de margarina. Mas enfrento uma situação limite com calma e tomando decisões.
54- Detesto esportes radicais e nunca me verão nem em uma roda gigante. 
55- Morro de medo de água e de tudo onde não estiver com o pé no chão. Não faço nem brincadeira de João Bobo porque não me entrego à confiança de que vão me segurar.
56- Sou desconfiada. Muito.
57- Sou uma excelente pesquisadora. Seria uma detetive de primeira. Precisando que eu encontre algo na internet, me procure. E não sou hacker.
58- Nunca fiz cursos de informática e fui aprendendo na prática. Tanto que o primeiro PC Windows eu tive que apagar porque estourei a memória de tanta janela aberta. E não tinha a mínima ideia de como fechar...
59- Gosto de abrir coisas para ver como funcionam. De rádios a motor de carros. 
60- Sou tímida. E morro de medo que não gostem de mim.

Não sei se foram fatos, se foram confidências. Sei que num instante eu estava brincando de princesa, em outro momento estava passando num vestibular apertado, em outro tocando uma obra e agora "aquela que me olha do espelho, tão mais velha que eu (obrigada Quintana) assiste atônita uma outra eu que brinca de fazer de conta que seis décadas não são nada demais.

E quem quiser que conte outra que essa história segue em frente.

Querem ver o começo? Vejam AQUI   

terça-feira, 28 de março de 2017

60 fatos de minha vida que você nem imagina (III)

" ....por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido” Houellebecq, Michel. “Submissão.” 


Páginas em branco sempre me foram mais amistosas que pessoas. Mais amigas.  Mais fáceis de mergulhar. Palavras sempre foram companheiras. Tipo amuleto que se apega em tempos obscuros e bálsamo para dias cinzentos.

31 - Sempre gostei de ter diários. Nunca foram secretos. Nunca escondi o que escrevia, mas senti muito quando alguém muito próximo o leu para amigos comuns. Eu tinha 14 anos. Não senti pelo que escrevi exposto, embora fossem bobagens, mas pela traição de expor coisas que não lhe pertenciam. 
32 - Acho que comecei a fazer blogs como se fossem diários. Não tinha a pretensão de que fossem um ganho financeiro (que aliás nunca foram). Por isso também não registrei o nome do meu blog que uso desde 2004. Óbvio que alguém fez isso muito tempo depois. 
33 - Quando leio gosto de sublinhar e escrever nas páginas. Um dos motivos de gostar mais de livros impressos. Isso e a mania de colocar coisas lá dentro: recortes de jornais, panfletos, folders...muitos de meus livros viram memórias do tempo que se foi.
34 - Comecei a usar a internet na época em que fiz mestrado. Era discada e muito cara. Ainda era século passado, coisa do final dos anos 90. Desde então sigo uma máxima: tudo o que posto é aberto (com exceção de fotos de crianças que procuro resguardar). Tudo o que não quero que seja visto por todos, não posto. Simples assim. Não existe privacidade na internet.
35 - Através do mundo virtual conheci pessoas maravilhosas. Grandes amigos e amigas que muito me acrescentam. A internet é como a vida real, a gente atraí o que procura.
36- Não tenho muitas vaidades. Cuido do meu cabelo com regularidade. Mas não uso maquiagem, apenas um rímel e batom. Não curto muito manicurar pés e mãos. E esqueço de passar cremes para rejuvenescer...
37 - Tenho roupas e sapatos com mais de 20 anos. E eles me confirmam a máxima de que o preço de algo é sempre uma relação custo beneficio. Algo baratinho que uso pouco é mais caro que algo dispendioso que uso por muitos anos. E se me fizer feliz vale cada centavo que gastei. Em dobro! 
38 - Se eu pudesse escolher um dom seria de ter um vozeirão para ser uma cantora de protesto: tipo uma Mercedes Sosa. Só pelo prazer de levantar uma multidão com a minha música. 
39 - Não canto em público. Nem em karaokê....mas canto no banheiro. E caminhando na rua. E já fiz um encontro de musicoterapia.
40 - Já fiz terapia de grupo e Biodança.  E nesta última soube que tenho um caminhar animal. Por causa dele tive que dar uma volta na sala, tipo desfile, para mostrar aos colegas como se faz. Não tive vergonha. 
41 - Vivo até sem celular, mas nunca sem rádio. 
42 - Entrei para a faculdade com 17 anos, após pular dois anos da formação normal. E perdi esses anos quando me transferi de faculdade. Na vida, o tempo é relativo. O que importa é o que se aprende.
43 - Não me lembro de ter terminado um ciclo de estudos em uma mesma cidade. Ou em um mesmo colégio. Me tornei uma nômade não por opção, mas por circunstâncias de vida familiar.
44 - Sempre me emociono em formaturas. Mesmo que nem conheça a pessoa. Sempre lembro da trajetória e das batalhas que se trava para chegar ao fim. 

Pinceladas de minha alma. Flashes de minha vida. Lembranças que me ficaram. Se foi assim ou assado já nem importa. "O importante é que emoções eu vivi" 

PS: Fui a um show do Roberto Carlos. Presente de um namorado italiano legítimo que, entre outras coisas, queria me dar a lua com a sinceridade dos piscianos. Uma das pessoas mais certas que me chegou no momento mais errado. Não era para ser. Mas o show me lembro até hoje....

60 fatos da minha história que você nem desconfiava (II)

“Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme.” Rivera Letelier, Hernan. “A Contadora de Filmes.”


As memórias vão se fundindo com versões das versões. Já não posso afirmar com certeza se o que vou relatar aconteceu assim ou se foi mudando em minha mente à medida em que ia crescendo e amadurecendo. 

16 - adorava ler desde muito pequena. Antes que as letras fizessem sentido para mim, amava que me contassem as histórias. E as memorizava para profundo desgosto de quem queria adiantar as páginas...
17- minha história predileta. Duas na verdade. A princesa e a ervilha. Obviamente que a entendo até hoje. Um grãozinho podem melar a melhor das noites e obviamente também, apenas uma princesa de verdade vai se importar ( e perceber isso). A segunda? A rainha da Neve. Ou de como se sacrificar pelo amor e passar o Diabo que o pão amassou para que o objeto do amor se dê conta da nobreza de caráter que estava desdenhando. Caso de análise. Urgente.
18- Sempre fui fóbica social e morro de medo de gente. É sim, já fiz psicoterapia de apoio. Melhorei um monte, mas ainda tenho medo de gente.
19 - Sou boa para começos e terrível para términos. Abismos de alma me fascinam e atos prosaicos me custam energias homéricas. 
20 - Nunca fui o tipo mocinha. Gostava mais de ter amigos que amigas. Mas também nunca fui moleca. Nunca tive quarto cor de rosa para desgosto de minha mãe. E meu vestido de 15 anos foi um micro preto.
21 - Era gordinha e isso me causava muitos traumas. Deixei de fazer muitas coisas por não querer expor o corpo. E nem tinha tanto excesso de peso assim. 
22- Quando cheguei em Brasília e tive que falar em sala de aula, fui recebida com risadas por causa do sotaque gaúcho. 
23- Mas isso não me marcou tanto como o comentário de que iam indicar um colega para a caloura mais bonita me mostrando que eu não merecia nem concorrer. Eu ri da piada, mas meu coração se magoou. Até porque a adolescente que me morava tinha feito roupa especial e tinha sonhado em desfilar.
24 - Sempre guardei meu eu mais profundo. Conto nos dedos as pessoas para quem me abri profundamente. 
25 - Gosto muito mais de salgados que de doces. Mas muito mais mesmo.
26 - Detestava arroz quando era pequena. E amo risoto agora. Um exemplo prosaico de como os gostos mudam. E a gente também. 
27  - Meu primeiro beijo foi aos 20 anos. E foi inesquecível. Era um namoradinho que não durou muito, não me lembro direito dele. Mas beijava divinamente. 
28 - Meu tipo de homem é moreno. Olhos negros. Meu maior amor tinha olhos azuis. Olhos me ganham.
29 - Durante muitos anos não sorri em fotos - e acho que nem ao vivo - porque achava meu sorriso feio. 
30 - Perdi muito tempo me exigindo perfeição. Meus olhos de hoje relembram fatos e gostariam de embalar (e sacudir) aquela menina que sofreu tanto sem necessidade...

São fatos? São versões? São pedaços de minha vida... ( continua

domingo, 26 de março de 2017

60 fatos da minha história que você nem desconfiava (I)

Como todos devem saber faço 60 anos este ano. (Quem não sabia acabou de descobrir). Sou da boa safra de 1957.

Confesso para vocês que ainda não assimilei de verdade essa passagem de década e entrada nos chamados anos sexies. Eu brinco dizendo que tenho um projeto chamado #idosagostosa que vem desde 2012, com algumas interrupções por problemas alheios à minha vontade.


Mas agora não dá mais para fugir. O calendário vai mudar e sim, serei uma pessoa idosa. O que virá, eu sei lá que nunca fui de muito planejar. Até planejo, na verdade, mas nem sempre sigo a risca esses planos. Deixo a vida me levar a maioria das vezes.

E esses 60 anos...como passaram???? Deixa recordar com vocês 60 fatos sobre eles.... Vai ser meio ser ordem cronológica porque vou fazer um voo sobre o passado.


  1. Eu poderia ter me chamado Elizabeth Cristina ao invés de Elenara. Houve um sorteio lá em casa e meu irmão ganhou.
  2. Só fui me habituar com o meu nome lá pelos 40/50 anos mas...
  3. Nunca chamei nenhum namorado pelo seu nome. E também não gosto que me chamem pelo meu.
  4. Queria muito ter tido apelidos (devia ser consequência da estranheza do nome - mas o que tinha em casa não me agradava: Baixinha.
  5. Deixei de ser chocólatra quando caí de um banco ao buscar um ninho de Pascoa escondido. Agradeço até hoje a minha mãe por te-lo escondido...
  6. Adorava séries de ficção e tinha paixonites secretas (ou nem tanto) pelo Capitão Kirk de Jornada das Estrelas (série original) e o Major West de Perdidos no espaço.
  7. Era fóbica social desde pequena. Fui conhecer o então namorado de minha irmã (meu atual cunhado) uns três anos depois do começo do namoro porque eu me escondia atrás do sofá da sala quando ele chegava.
  8. Pelo mesmo motivo tinha vergonha de agradecer e jogava fora os presentes de aniversário quando era pequena.
  9. Era telemaníaca e sabia as horas pelo programa de TV.
  10. Tirei o primeiro lugar no primeiro ano primário e ganhei medalha que guardo até hoje. 
  11. Pulei a quinta série e fiz exame de admissão para o ginásio por minha vontade própria.
  12. Fiquei menstruada (se dizia ficar mocinha) com dez anos. Estava brincando de boneca e não fazia ideia do que era aquilo.
  13. Um cara me seguiu na rua, falando umas coisas esquisitas quando eu tinha uns 10 anos. Contei sobre isso em Meu primeiro assédio
  14. Fui esquecida no jardim de infância. Todo mundo confiou que o outro ia me buscar e fiquei lá sozinha, eu e minha boneca.
  15. Não aprendi a andar de bicicleta porque na época de tirar as rodinhas nos mudamos para a capital e minha mãe achava perigoso que eu andasse na Praça da Matriz de bike.
Tá, eu sei que recordações pessoais são enfadonhas e por isso vou fatia-las para que sejam mais palatáveis. Já escrevi uma vez sobre 20 coisas interessantes que já provei na vida e prometo que vou me esforçar para que as 45 restantes sejam mais interessantes...

Até lá.... (Continua)

domingo, 5 de março de 2017

Cuidar de mim para poder cuidar dos outros

Desde pequena meus testes de aspirações sempre apontavam uma alma generosa. Com os outros.

Quer me ver mover mundos e fundos? Sentir que alguém precisa de minha ajuda. Deixo timidezes e medos internos e faço coisas que não faria por mim.

Errado.

Não, ajudar os outros é bom e me faz bem. Não preciso deixar de ser generosa com o mundo. Ele bem que está precisando disso e acho que pode ser minha contribuição de formiguinha.

Mas até quando testezinho bobo de rede social te aponta um caminho, é porque a vida está mandando sinais...


E o errado é que eu estava me esquecendo de mim. E com isso a minha generosidade ia pelo ralo. Estava me tornando intragável, mal humorada, sem folego e sem energia.

Ponto UM: e eu sempre repeti como mantra: pessoas felizes são mais generosas com a vida.

E se eu sempre soube disso tanto que alardeava para todos, e praticava comigo, o de procurar pelo menos um momento de felicidade por dia, onde foi que me perdi???

Na roda viva do mundo. Nas agruras das doenças e naquelas coisas que nem nascendo em lar mais privilegiado ficamos imunes. E sem tempo para respirar fui colocando sempre o outro na frente e eu para lá. 

Eu cada vez mais para lá. Descendo a ladeira.

Deixei de me cuidar fisicamente. Deixei de traçar metas. Me deixei.

ERRADO!!!!!

Meta número um sempre: minha saúde e bem estar. Sem eles não vou conseguir ajudar ninguém.

E veja bem, estar na meta primeira da vida não significa egoísmo infantil nem que vou largar tudo e SÓ seguir minhas vontades. Deixei de ser criança há muito tempo e aborrescente também. Pessoas adultas tem escolhas e tem responsabilidades. E dentre as minhas não se encontra largar tudo para o alto e flanar feliz, leve e solta pelo mundo.

Minhas escolhas e minha felicidade incluem trocas e tudo o que de trabalho elas implicam. E isso que faz a parte boa também. Aparar as arestas. Se conhecer e conhecer o outro. Os outros. Sentir amor. Sentir mágoa. Falar. Elaborar. Não deixar passar. Não deletar por medo de enfrentar.

Então no meu 2017 (ano dos sessenta) entro mais firme no projeto Idosa Gostosa. E nem no sentido de ficar sarada, mas no de ser uma pessoa mais legal. Inclusive comigo.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

As muitas eus dentro de mim





O Livro do Desassossego - Bernardo Soares (ou é obvio, Fernando Pessoa), Obvio? Nem tanto. Se o fosse não haveria a necessidade de heterônimos que são as outras facetas de cada um de nós. 

Existe em mim a Espantada de Souza que quanto mais lê, menos entende e prefere se refugiar nos poemas e gatinhos. 
Da vida e suas inquietudes. Ando pelas ruas procurando um algo que faça sentido e talvez o sentido do algo seja justamente não ter nenhum. Niilista? Mas se nem sei direito o que é isso, que nunca fui dada a entender profundamente teorias. Sempre achei meio cafona andar arrotando sapiência de gente que já morreu faz tempo. Ou se está vivo, é tão inteligente que nem parece de verdade. Se disse e serviu para ele, que faça bom uso. Me aproprio do que me serve. O resto junto na lata das possibilidades que não me calam à alma. Largo tudo e vou ronronar.  Espantada de Souza
Existe a Antônia Caparelli, a alma gringa que me habita, que escreve poemas eróticos, bebe muito vinho e gargalha de prazer. 

Hoje acordei de alma cigana. Dessas de correr o mundo, sem eira nem beira. Vestido rodados, muita cor, muito ouro brilhando para mostrar riqueza. Meu olhar te procura em todos os olhares que sinto sobre meu corpo enquanto rodopio na dança. Todos me desejam. E eu desejo a ti. Nem que seja por momentos loucos entre um vinho e outra dança...Antônia Caparelli  
Há ainda a Maria da Silva Só, a de olhar puro e alma ingênua que teima em acreditar na humanidade e ter esperanças na vida. 
Sim, creio. Creio na potencialidade humana, ainda que mal aproveitada. Creio nas pessoas e na sua infinita capacidade de renovação. Creio na luz que me cerca e que um dia vai me reunir à sabedoria do universo. Creio na capacidade de escolher e mesmo que seja ilusória, crer me faz feliz e me dá força de ir em frente. Maria da Silva Só   
Fabiana Von Koseritz é a revolucionária do pau oco. A que vive de certezas que não se transformam em ação. Chispa indignações pela venta, mas as transforma em axiomas pessoais e faz das palavras sua arma mais forte. Mas não se arrisca por isso nunca será uma verdadeira guerreira.
A rebelião? Meu avô maragato já estaria com manchetes em seu jornal partidário e de arma em punho partindo para a revolta. E talvez morresse de novo em tenra idade. A mim resta a observação e análise da seletividade dos neo indignados que se moveram de acordo com as cordas que lhes comandam. Falta-me a coragem louca santa de meu avô, o de olhos de águia como meu irmão descreveu. Fico com o mundo dos absurdos, sabendo que nada faço para que ele se termine. Talvez seja mais realista, mais pragmática. Mais medrosa, enfim. Os outros que não agem, não sei a razão, Cada um sabe a sua já que, aparentemente, perdemos a noção de união. E talvez por isso sejamos mais fracos no momento. Fabiana Von Koseritz
E por fim, ainda que não só, que não existe isso de ponto final, existe a Belmira Doralice Estelita Augusta, a que reúne a alma velha de todas as que me precederam....

Sossega o facho guria. Reúne os pedaços de tua alma e faz como todas nós que vivemos antes, carregamos fardos que nem imaginas e nem por isso deixamos de criar filhos, cuidar da casa e sobreviver. Muitas de nós tivemos sonhos e amores irrealizados. Sofremos dores inimagináveis. Fomos meninas, mulheres, amantes ardentes, carregamos várias facetas que nem imaginas. E nem por isso deixamos de te legar nossa história e semente. Assim somos nós, mulheres, carregadoras das lendas e possibilidades. De nós surgiram outras que nos seguirão nessa sina pelos milênio afora até que essa terra que tanto esmagamos vire poeira novamente. E de nós nada mais reste. Nem memórias. Belmira Doralice Estelita Augusta