terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Reflexões ácidas de uma tarde quente


😒😔😕😖😭

Tantas e tantas vezes é tão mais fácil puxar um emoticon da manga e largar pelo mundo. Parece que ele expressa mais e mais fácil que um palavrório que muitos poucos vão se dar ao trabalho de ler.

Qualquer um que tenha nascido nesses tempos de telegramas digitais entendeu perfeitamente o recado acima. Ou entendeu a sua maneira. "O que não é o mesmo, mas é igual" como já disse o Chico em uma música. Mas isso foi naquele tempo em que o Buarque de Holanda era quase unanimidade. No tempo em que talento e ideologia (ou ideias, ou posicionamentos) não eram cobrados com sangue e fogo.

Podia-se sentir com mais suavidade. Podia-se divergir com mais civilidade. 

A gente até podia sofrer com mais elegância. 

Hoje não. É tudo muito mais dramático. O ideal é que a gente supere tudo com low profile, de preferência ainda tirando uma profunda reflexão. Desde que não venha em forma de textão. Ou até pode vir, dependendo da sua influência nas redes sociais. Se for um cara dos bons, qualquer pensamento seu vira viral. Pode até sofrer, desde que seja bem documentado. Perdeu o cachorro? Vai descrevendo a agonia para que todos acompanhem junto, tim por tim tim. Perdeu alguém amado? Deixe que saibam todo o processo fazendo com que a dor se purgue com os comentários de apoio (eu de certa forma fiz isso. E me ajudou).

Não descreia. Acredite. Apareceu na tela. Piscou. Veio de amigos e tem uma certa coerência com a própria interna? Tasca para frente antes que outra bomba venha mais rápido e se perca a primazia de estar por dentro. Do vestido que muda de cor, do gatinho escondido na foto, do boato político, de quem roubou, de quem amou, de quem...e lembre que verdade é algo relativo. Caiu na net, é peixe. 

O velho hábito de olho no olho para checar a velha e boa intuição também vem se perdendo. Conversar? Para que? Tudo está escancarado pelas redes. A pessoa que se apresenta para nós já colocou seus hábitos, seus amigos, seus sonhos e devaneios em alto e bom som para o mundo desvendar. Todos esfinges. Mas todos devidamente propagandeados em maior ou menor tom.

Não demora e já seremos chipados ao nascer. Devidamente monitorados em nossos hábitos desde a incubadora. Catalogados em confiáveis, consumistas, lerdos, enérgicos, questionadores. Cada um com o seu papel já definido e loucamente prontos para merecer as benesses de um mundo que se abre aos mais capazes.

Generosidade. Empatia. Solidariedade. Credibilidade. Saudável desconfiança. Quantas dessas palavras ainda farão parte (de verdade) de nossos vocabulários dentro de alguns anos? Quais tribos nos aguardam? 

Reflexões mais ou menos ácidas de uma tarde mormacenta de um ano que se finda. De todas as certezas que ainda me restam é que, haja o que houver, ainda restará uma mulher burra nesse mundo a sofrer por algum idiota de plantão. 

Por que meus caros, eu digo e repito: a tecnologia evoluiu, mas nossos sentimentos ainda são da idade da pedra...

domingo, 4 de dezembro de 2016

Portais de emoção

Vi um tempo atrás uma série canadense chamada Mundo de Érica. O enredo era fascinante. Uma moça no limite de suas emoções, quase desistindo da vida, é salva por um psiquiatra. Mas não um terapeuta normal, mas um que abria as portas do passado para que Érica pudesse não apenas reviver, mas mudar pontos chaves de sua vida. Uma mistura de ficção e a teoria dos universos paralelos. 

Devo dizer que sou absolutamente fascinada pelo passado. Seja em leituras de história como em literatura que brinque com a possibilidade de voltar ao passado. Quem nunca, não é mesmo? 

Depois que perdi meu pai comecei a sentir muito forte um sentimento de viver vários momentos ao mesmo tempo. Calma, não enlouqueci. Apenas sinto alguns locais como se fossem portais de emoção. Principalmente aqueles que vivi momentos muito intensos. 

Um desses locais mágicos é o meu sítio. Sinto fisicamente as emoções que vivi ali. E lembro com tal realismo que é como se passados e presente se mesclassem e tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo.
Em sonhos sinto isso com Garopaba e ainda não me arrisquei a voltar ali. Mas quando durmo alguma força magnética me chama para lá. 

Talvez existam portais que nos levem de volta. Gostaria de acreditar muito nisso. De ter a mágica oportunidade de atravessar uma porta e regressar ao tempo. Não precisaria nem mudar nada. Apenas viver e conviver com pessoas amadas com mais intensidade e mais capacidade de saber o quão importante são. 

Mas provavelmente esses portais pertençam à magia, à minha vontade de reviver. À minha saudade. Talvez o portal da emoção seja exatamente lembrar daqueles momentos que foram tão intensamente vividos que se tornaram uma energia que perdurou. E fazer de mais momentos presentes, mais portas de Vida que me reabasteçam hoje. E sempre.