segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Tomo distância para me reaproximar

Das vezes em que a vida me tomou de rasteira, as piores foram quando me perdi de mim mesma.

E não é que nem as palavras, antes tão pródigas, me acompanham nesses dias de ausência de meu eu? A tela me olha e onde parecia tão fácil soltar verdades, mesmo que só minhas, só o vazio me responde.

O que fazer?????

Esse vazio meio oco de consistência talvez seja apenas um entreato de novos recheios. E por isso tomo distância.

A Eu, tão cheia de certezas, de outros tempos dá lugar a uma Eu mais cautelosa. A que tudo observa, cataloga. Pesquisa.

Não pensem que por tomar distância minha mente se ausenta da visão. Ao contrário, parece que ela se aguça, se torna mais crítica e mais científica.

Devoro artigos. Leio sites, vou atrás das referências. E guardo. (Nem tanto, confabulo com outros pesquisadores das sombras).

Minha distância é como se pegasse um avião, subisse às nuvens e visse minha realidade lá de cima. Não apenas o que meus olhos, em seu pequeno alcance, conseguem perceber na sua realidade local. O visse não é o verbo certo. Observasse.

Sim. Leio e observo tudo. 

Os textões das opiniões. As respostas aos textões. As réplicas, tréplicas e ponderações. Algumas absurdas. Outras apenas reflexivas de outros pontos de vista. Guardo os que me fazem pensar, mesmo que não reflitam o que acredito.

Em épocas de afastamento sou bem menos sectária. O que é uma vantagem desses momentos.

Observo também quem defende o que. E se é coerente com o que defendia ardentemente no passado. (Sempre faço isso na verdade, mesmo nos momentos de não distância). Esse processo se simplificou bastante, porque o passado nem é mais contado (e recontado em novas versões) em décadas, mas as vezes em semanas.

Observo como a História é contada em suas versões, não só pelas pessoas, mas por quem deveria nos contar de forma mais ou menos imparcial: a imprensa. A oficial, a poderosa, a nanica. A de todos os vieses. 

Este é um exercício interessante. Ver como são feitas as manchetes e, me acreditem, algumas vezes os textões de dentro dizem o contrário dos "pega otários" em fontes garrafais que nos fazem parar e ler. Ou, mais comumente, replicar nas redes sociais.

Esse replicar sem ler é muito semelhante ao ouvi dizer por aquele vizinho que a gente considera bem informado. Mas não sabe muito bem (ou finge não saber) o que ele realmente pretende com o que diz. 

O ler nos traz de volta ao nosso centro. E ler não é passar os olhos por cima e concordar quando se fala o que acreditamos. O ler é refletir sobre. Para que possamos tirar nossa opinião. As vezes o ler exige distanciamento.

Voltei ao tema inicial. Tomar distância. Também serve para não cairmos no fundamentalismo e na histeria de grupo. E sim, é bem mais fácil do que acredita nossa vã filosofia que isso aconteça. Talvez por sermos animais gregários que necessitem da aceitação e/ou do pertencimento do bando.

instinto gregário: tendência que leva os homens ou os animais a se juntarem, perdendo, momentaneamente, suas características individuais. 

Talvez pelas minhas características pessoais de ser meio loba solitária (e quem leu "Mulheres que correm com os lobos" entenderá), talvez por ter me domesticado faz tempo, de tempos em tempos necessito tomar distância para me reaproximar. De minha essência mais profunda.  

Vou continuar resgatando ossos

2 comentários:

  1. Gostei demais do teu texto, porém acho que quando encontramos "Nosso bando", pela afinidade de pensamentos, de idéias, encontramos nossas almas gêmeas.

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    1. Mas para mim o processo é interno. Tenho que me reencontrar e aí posso reconhecer meu bando novamente. ;) Beijos

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