domingo, 31 de julho de 2016

Volto porque sou otária

Acordou com uma cosquinha, dessas que batem em dias ruins. Uma tristeza que se escondia em forma de mau humor. Mal humor dizem alguns, como se existisse Bem humor. Enfim, esses errinhos da língua mãe a faziam ainda mais irritada. Como se não cansasse de cometer os seus próprios erros. inclusive gramaticais. 

Antes fossem só esses...

Alguma coisa não batia bem. Saiu murros e facas pela vida. Vontade de soltar indiretas nas redes sociais, bem sabendo que quem devia ler jamais o faria. 

E que coisa mais besta falar por entrelinhas e não diretamente nos olhos. Se uma coisa aprendeu na terapia é que mais vale dizer o que se quer dizer, para quem se quer dizer, no momento que se quer dizer a tal coisa do que ficar numa masturbação mental, espremendo a raiva e chutando quem nada tem a ver com isso. 

Mas....

E sempre tem um mas na questão, o alvo da aparente raiva não seja quem ela pensa que é e sim um algo dentro dela. Um quê para ser trabalhado. Não. A palavra certa é enfrentado. As batalhas tem que ser vencidas internamente primeiro. Depois se parte para o embate externo. As vezes nem são necessários.

Amar custa caro. Não aquele amor de namoridinho - pura ternura, ou de  paixão - puro delírio. Muito menos aquele da convivência e cumplicidade que se constrói com o tempo. O amor a que se reportava, o que dava medo desde sempre, é o da entrega de alma. 
..."conseguiram amar-me à bruta, na beleza que existe para lá de mim. Não sei como posso viver sem um par de olhos onde se reflita esse cristal íntimo que não cintila nos espelhos.”
Inês Pedrosa, Inês. “Nas Tuas Mãos.” 
Aquele que te enxerga melhor do que tu mesma. Algumas vezes. Aquele que é simples e complexo. O que tira máscara. Aquele era doído para ela. Medo do que?

Da entrega um pouco. Mas nem tanto. Era capaz de entregas absurdas que deviam vir da sua energia uterina e imemorial. Da dependência talvez. Do compromisso. Quer saber a verdade, nunca tinha na realidade esmiuçado esse lado. Deixa prá lá. Melhor sofrer de amor que entender o motivo das lágrimas existirem.


Tudo bem que achou isso tudo reunido e amplificado em um ser humano. Melhor ainda que fosse homem, tesudo e a quem ela admirava. Perfeito encontro. Daqueles que fazem sentir que a vida vale a pena em um momento.

Alguns poréns. O tal do medo da entrega. Dos poréns dele, fica a curiosidade, mas como tudo o que envolve outra pessoa, são dele e a ele cabem resolver. Os dela ela podia entender. 

Volto ao mesmo ponto, como em círculos, como em volta. Como redemoinho de voragens abissais. Volto, volto, volto...

Falo de mim, falo de outras? Falo do quê, afinal. Da alma de mulher que anda também em círculos e parece não ter saído de velhas questões que há muito julgava ultrapassadas. 
"Tenho pena de tua avó que dizia não por não ter escolha. Igualmente tenho pena de ti que diz sim e também não tem escolha" 
Uma frase escutada há muito tempo. Parada no cérebro pela palavra mágica: escolha. As escolhas me definem, embora sejam sempre apenas escolhas.

"Se parti ou se fiquei, o importante é que emoções eu viviiiiiiiiii...." cantava a plenos pulmões no banho, esperando que todo aquele turbilhão entrasse pelo ralo com a água que caía. 

A diferença entre sentir que as emoções vividas eram sublimes experiências ou meros desastres da vida influíam na qualidade do sentir. Era dentro dela que o milagre se operava. Saber lidar com isso lhe custava uma vida. Suas cicatrizes. 

(levemente inspirado na leitura de "Toureando o Diabo de Clara Averbuck que me fez repensar sobre as mulheres e sua trajetória com o amor e a dor) 

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