segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sou do tempo da palavra


“Eu sou do tempo da palavra”
Trecho de: Pedrosa, Inês. “Nas Tuas Mãos.”
 
Nesses tempos de vídeos e you tubers ganhando fama e muita grana, eu admito: sou do tempo da palavra. 
Gosto das cartas, dos livros, do ato de ler. Gosto do ato de escrever. 

Falar é bom. As vezes. Comunica melhor no instante imediato. Mas é no ato de transpor para o papel, tela, seja lá que ferramenta for, que os pensamentos ganham força, se conformam. Ganham uma vida mais intensa e perene que as palavras que saem ao vento.

Tudo bem, eu sei que o que se diz vira vídeo hoje. Que pode ser guardado e visto ad eternum ou o tanto que durar os meios em que foram gravadas. Mas não é essa eternidade que me refiro. Falo do trabalhar o pensamento, burilar as imagens que se quer transmitir. Talvez escrever se assemelhe a projetar. A narrativa, o que pretendo do projeto, até posso exprimir em vídeo. Posso falar a respeito. Mas o projeto final...esse tem que ser desenhado, graficado, detalhado. É como um livro.

Mas também sou mais da palavra para fazer textão, textinho, tuitar de forma sucinta. Sou do tempo da palavra. Eis tudo.

Também gosto mais de ler. Confesso para todos que vou na contra mão das tendências. Eu fujo dos vídeos. Tenho vários assinalados para ver mais tarde. Dificilmente esse mais tarde se transforma em agora. Vídeo demanda tempo. Muito mais tempo que a leitura. 

Explico: na leitura posso adiantar, ir ao que interessa bem mais rápido que no vídeo. É sim, sou muito apressada. Como rápido, leio rápido, concluo rápido. Nem sempre é bom ou eficaz. Mas deve ser meu lado duplamente ariana, de sol e ascendente. Ou a lua em gemeos, sei lá. Ou algum outro aspecto atravessado nos céus no momento em que nasci. 

Só sei que sou apressada e gosto das palavras. O discurso dito ao pé do ouvido também me encanta. O sussurrar que envolve brilho no olhar e aqueles sinais exteriores que o vídeo não capta com tanta fidelidade como a vida real.

Vídeo é ilusão. Pode ser editado. Deve ser bem feito. Palavras são medidas. Se é para falar, prefiro que seja ao vivo. Editar serve no ato de escrever. No exercício do burilamento das ideias. 

Definitivamente sou do tempo da palavra. Escrita. 

  

terça-feira, 7 de junho de 2016

O Jardim das Delícias Secretas

Sonhos. Eles nos dizem tanto. Comigo, pelo menos, eles são frequentemente repetitivos. Sonho com choupanas que escondem tesouros. E como boa arquiteta, abro portas aparentemente desgastadas e me deparo com palácios e casas elegantemente decoradas. Obviamente sei que deve ter a ver com o que vejo e pesquiso durante o dia. E mais obviamente ainda também sei que deve ter a ver com o valorizar mais minhas qualidades internas, partes que as vezes menosprezo, mas que podem esconder potenciais imensos.

Mas e quando o sonho te repete um mantra? Aquela noite em que uma frase é repetida. Mil vezes repisada. Parece que feita de propósito para que não se esqueça. Porque para mim, sonhos que encerraram mensagens são os que permanecem. Tenho sonhos que sonhei quando muito pequena, e ainda hoje enxergo com nitidez as imagens que formei (ou se formaram) em minha mente.

Essa noite sonhei com um conto. Tinha um título sugestivo: O Jardim das delícias secretas. Tive a certeza de que fazia parte de um livro de Jorge Luis Borges que tenho comigo e li muito tempo atrás. Do conto não lembrava nada. Mas o título ficou martelando na minha mente. Várias vezes repetido, parecendo viral da internet. Acordei. Voltei a dormir. E o jardim das delícias secretas ainda aparecia claramente em minha cabeça. 

Acordei e corri para o Google colocando o título sonhado com Borges. Nada.

Como assim? Tinha tanta certeza que minha primeira reação foi de brochura. Borges não tinha escrito nada com esse título. Levei algum tempo para voltar a procurar. Agora só com o título...Além dos jardins secretos daqui e dali, saltou um jardim das delicias terrenas. Um quadro. 

Um quadro de um holandês muito louco que pintava coisas surrealistas lá pelos anos 1500. Um tal de Bosch. Hieronymus BoschEl Bosco. Sim, eu tinha visto um documentário sobre ele. Sim, ele tinha me impressionado. Sim, eu vi um quadro seu no MASP em 2014. Sim, esse quadro me calou muito. Achei muito impressionante que alguém ousasse criar aquele tipo de imagem numa época que meu pré conceito imaginava mais careta. Mais tão sem imaginação desse tipo. 

O Jardim das delícias terrenas do Bosch é uma incógnita para mim. Senti que devia me debruçar mais sobre ele. Talvez seja o recado de meu inconsciente me dando a dica bem clara: se debruce sobre as incógnitas da vida. Abra a porta do seu jardim das delícias secretas. Ele deve revelar riquezas inimagináveis como as portas das casas em pedaços que abro e que revelam novos mundos a ser não apenas descobertos, mas vivenciados e compreendidos em toda a sua plenitude.