terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Reflexões ácidas de uma tarde quente


😒😔😕😖😭

Tantas e tantas vezes é tão mais fácil puxar um emoticon da manga e largar pelo mundo. Parece que ele expressa mais e mais fácil que um palavrório que muitos poucos vão se dar ao trabalho de ler.

Qualquer um que tenha nascido nesses tempos de telegramas digitais entendeu perfeitamente o recado acima. Ou entendeu a sua maneira. "O que não é o mesmo, mas é igual" como já disse o Chico em uma música. Mas isso foi naquele tempo em que o Buarque de Holanda era quase unanimidade. No tempo em que talento e ideologia (ou ideias, ou posicionamentos) não eram cobrados com sangue e fogo.

Podia-se sentir com mais suavidade. Podia-se divergir com mais civilidade. 

A gente até podia sofrer com mais elegância. 

Hoje não. É tudo muito mais dramático. O ideal é que a gente supere tudo com low profile, de preferência ainda tirando uma profunda reflexão. Desde que não venha em forma de textão. Ou até pode vir, dependendo da sua influência nas redes sociais. Se for um cara dos bons, qualquer pensamento seu vira viral. Pode até sofrer, desde que seja bem documentado. Perdeu o cachorro? Vai descrevendo a agonia para que todos acompanhem junto, tim por tim tim. Perdeu alguém amado? Deixe que saibam todo o processo fazendo com que a dor se purgue com os comentários de apoio (eu de certa forma fiz isso. E me ajudou).

Não descreia. Acredite. Apareceu na tela. Piscou. Veio de amigos e tem uma certa coerência com a própria interna? Tasca para frente antes que outra bomba venha mais rápido e se perca a primazia de estar por dentro. Do vestido que muda de cor, do gatinho escondido na foto, do boato político, de quem roubou, de quem amou, de quem...e lembre que verdade é algo relativo. Caiu na net, é peixe. 

O velho hábito de olho no olho para checar a velha e boa intuição também vem se perdendo. Conversar? Para que? Tudo está escancarado pelas redes. A pessoa que se apresenta para nós já colocou seus hábitos, seus amigos, seus sonhos e devaneios em alto e bom som para o mundo desvendar. Todos esfinges. Mas todos devidamente propagandeados em maior ou menor tom.

Não demora e já seremos chipados ao nascer. Devidamente monitorados em nossos hábitos desde a incubadora. Catalogados em confiáveis, consumistas, lerdos, enérgicos, questionadores. Cada um com o seu papel já definido e loucamente prontos para merecer as benesses de um mundo que se abre aos mais capazes.

Generosidade. Empatia. Solidariedade. Credibilidade. Saudável desconfiança. Quantas dessas palavras ainda farão parte (de verdade) de nossos vocabulários dentro de alguns anos? Quais tribos nos aguardam? 

Reflexões mais ou menos ácidas de uma tarde mormacenta de um ano que se finda. De todas as certezas que ainda me restam é que, haja o que houver, ainda restará uma mulher burra nesse mundo a sofrer por algum idiota de plantão. 

Por que meus caros, eu digo e repito: a tecnologia evoluiu, mas nossos sentimentos ainda são da idade da pedra...

domingo, 4 de dezembro de 2016

Portais de emoção

Vi um tempo atrás uma série canadense chamada Mundo de Érica. O enredo era fascinante. Uma moça no limite de suas emoções, quase desistindo da vida, é salva por um psiquiatra. Mas não um terapeuta normal, mas um que abria as portas do passado para que Érica pudesse não apenas reviver, mas mudar pontos chaves de sua vida. Uma mistura de ficção e a teoria dos universos paralelos. 

Devo dizer que sou absolutamente fascinada pelo passado. Seja em leituras de história como em literatura que brinque com a possibilidade de voltar ao passado. Quem nunca, não é mesmo? 

Depois que perdi meu pai comecei a sentir muito forte um sentimento de viver vários momentos ao mesmo tempo. Calma, não enlouqueci. Apenas sinto alguns locais como se fossem portais de emoção. Principalmente aqueles que vivi momentos muito intensos. 

Um desses locais mágicos é o meu sítio. Sinto fisicamente as emoções que vivi ali. E lembro com tal realismo que é como se passados e presente se mesclassem e tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo.
Em sonhos sinto isso com Garopaba e ainda não me arrisquei a voltar ali. Mas quando durmo alguma força magnética me chama para lá. 

Talvez existam portais que nos levem de volta. Gostaria de acreditar muito nisso. De ter a mágica oportunidade de atravessar uma porta e regressar ao tempo. Não precisaria nem mudar nada. Apenas viver e conviver com pessoas amadas com mais intensidade e mais capacidade de saber o quão importante são. 

Mas provavelmente esses portais pertençam à magia, à minha vontade de reviver. À minha saudade. Talvez o portal da emoção seja exatamente lembrar daqueles momentos que foram tão intensamente vividos que se tornaram uma energia que perdurou. E fazer de mais momentos presentes, mais portas de Vida que me reabasteçam hoje. E sempre. 

sábado, 15 de outubro de 2016

Loucura é andar fora do bando

Ando pelas ruas procurando alguma versão que faça sentido nessa vida cada dia mais louca. Lembro a velha ladainha, tão cantada por minha mãe:" Pedro Pereira Pinto? Pronto, patrão. Pinta P na porta e no portão. Ando pelas ruas procurando um tal pintor pateta que pinta pê na porta e no portão. "

Nunca entendi a lógica do andar pelas ruas quando ela não começava com pê que era a lógica do início. Ainda era criança e no meu ingênuo coração acreditava que o mundo deveria ser uma imensa brincadeira de encaixar, onde o senso comum e a coerência fossem as chaves mestras de montagem.

Ledo engano.

Talvez a sabedoria de minha mãe já mostrasse que nem sempre a ordem é lógica e que nem sempre as regras são rígidas. Há encaixes que se moldam com outros conformes e cabe a nós buscar nosso mais perfeito. Ou o mais adequado. Ou o que conseguirmos alcançar. Que no fim das contas, a "vida é luta renhida, que aos fracos abate e que aos fortes...." 

Espera aí, lei da selva? Sim. Também. 

Dentre as várias facetas da vida se encontra primeiramente a : sobrevivência. E na busca dessa muito poucos conseguem exercer o poder de escolha. A grande maioria da espécie humana apenas sobrevive. Quando muito. E se dá por satisfeita em ter o que comer, beber e ter um teto para dormir.

Sonhos sim. Credo que todos temos. Fazer nossa versão da vida, mesmo que imperfeita, quero crer que esteja também ao alcance de muitos. Poucos se atrevem, acho, a escrever seu roteiro. Mais cômodo e sábio, por vezes, seguir a ordem que outros traçaram. Seguir o bando. Pertencer ao bando. Segurança. Respostas que estão pre determinadas. Não é preciso questionar. Nem correr riscos. 

A não ser os internos. A não ser o dos sonhos. A não ser quando mesmo a ordem de fora pareça confusa. 

Louca.


Loucura é andar fora do bando. Loucura é crer solitário. Se o mundo aponta a versão atual é X, e você sente que é Y, ai de você se não encontra quem ainda creia que Y vale. A vida é suas versões. 

Por isso a literatura nos salva. Seja em canções, seja em versos, seja em romances. O escritor é um louco que cria. Ele olha um fato. Corriqueiro que seja. E amplia. E mostra como se. E se. E se Pedro Pereira Pinto não fosse pintor? E se fosse poeta, policial, astronauta, ET? Se passasse por portas que pintava com seus sonhos e cruzasse portões para novas realidades? Se fosse não pateta, mas apenas desgarrado? Se sentisse que sua casa, seu lar, seu bando morasse dentro dele. Eternamente. Que das suas palavras brotasse, versões de novas histórias. Que a verdade pudesse ser ressignificada. Como o é. Mas que, ao invés de uma versão que agradasse outrens, criadores de histórias oficiais, houvesse a sua versão. Ou as suas versões.  

Passo pela vida procurando a loucura de viver no meu vazio. Pintando de cores múltiplas um quadro de retalhos que faça sentido. E que seja um portal para me reunir enfim ao meu bando. 

PS: Obrigada Rosa Montero

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Tomo distância para me reaproximar

Das vezes em que a vida me tomou de rasteira, as piores foram quando me perdi de mim mesma.

E não é que nem as palavras, antes tão pródigas, me acompanham nesses dias de ausência de meu eu? A tela me olha e onde parecia tão fácil soltar verdades, mesmo que só minhas, só o vazio me responde.

O que fazer?????

Esse vazio meio oco de consistência talvez seja apenas um entreato de novos recheios. E por isso tomo distância.

A Eu, tão cheia de certezas, de outros tempos dá lugar a uma Eu mais cautelosa. A que tudo observa, cataloga. Pesquisa.

Não pensem que por tomar distância minha mente se ausenta da visão. Ao contrário, parece que ela se aguça, se torna mais crítica e mais científica.

Devoro artigos. Leio sites, vou atrás das referências. E guardo. (Nem tanto, confabulo com outros pesquisadores das sombras).

Minha distância é como se pegasse um avião, subisse às nuvens e visse minha realidade lá de cima. Não apenas o que meus olhos, em seu pequeno alcance, conseguem perceber na sua realidade local. O visse não é o verbo certo. Observasse.

Sim. Leio e observo tudo. 

Os textões das opiniões. As respostas aos textões. As réplicas, tréplicas e ponderações. Algumas absurdas. Outras apenas reflexivas de outros pontos de vista. Guardo os que me fazem pensar, mesmo que não reflitam o que acredito.

Em épocas de afastamento sou bem menos sectária. O que é uma vantagem desses momentos.

Observo também quem defende o que. E se é coerente com o que defendia ardentemente no passado. (Sempre faço isso na verdade, mesmo nos momentos de não distância). Esse processo se simplificou bastante, porque o passado nem é mais contado (e recontado em novas versões) em décadas, mas as vezes em semanas.

Observo como a História é contada em suas versões, não só pelas pessoas, mas por quem deveria nos contar de forma mais ou menos imparcial: a imprensa. A oficial, a poderosa, a nanica. A de todos os vieses. 

Este é um exercício interessante. Ver como são feitas as manchetes e, me acreditem, algumas vezes os textões de dentro dizem o contrário dos "pega otários" em fontes garrafais que nos fazem parar e ler. Ou, mais comumente, replicar nas redes sociais.

Esse replicar sem ler é muito semelhante ao ouvi dizer por aquele vizinho que a gente considera bem informado. Mas não sabe muito bem (ou finge não saber) o que ele realmente pretende com o que diz. 

O ler nos traz de volta ao nosso centro. E ler não é passar os olhos por cima e concordar quando se fala o que acreditamos. O ler é refletir sobre. Para que possamos tirar nossa opinião. As vezes o ler exige distanciamento.

Voltei ao tema inicial. Tomar distância. Também serve para não cairmos no fundamentalismo e na histeria de grupo. E sim, é bem mais fácil do que acredita nossa vã filosofia que isso aconteça. Talvez por sermos animais gregários que necessitem da aceitação e/ou do pertencimento do bando.

instinto gregário: tendência que leva os homens ou os animais a se juntarem, perdendo, momentaneamente, suas características individuais. 

Talvez pelas minhas características pessoais de ser meio loba solitária (e quem leu "Mulheres que correm com os lobos" entenderá), talvez por ter me domesticado faz tempo, de tempos em tempos necessito tomar distância para me reaproximar. De minha essência mais profunda.  

Vou continuar resgatando ossos

sábado, 10 de setembro de 2016

Quando a Alma se esvazia

Acordou como todo dia. Automaticamente pegou o celular ao lado da cama e correu os olhos pelas redes sociais. Entre mensagens do cotidiano, as inúmeras de ânimo.

Ânimo? Para ela talvez o artigo mais raro. Ânimo exige vontade e objetivo. E nem sempre eles são tão companheiros assim da vida. Tem vezes em que a alma se esvazia...e dói.

Há dores atrozes, lancinantes. Há dores que perduram anos e se vão. Enfrentadas, compreendidas, assimiladas. Administradas.



As da alma são bem mais complicadas.

Tem os que não aguentam e cortam os laços com a vida. O que passa em seus corações? Quantos gritos de alerta terão dado? O que lhes tapava o sol e a esperança?

Há várias formas de se deixar morrer sem apelar para as mais dramáticas e urgentes. Não se cuidar é uma delas. Se expor sem necessidade outra.

Quantas vezes nos deixamos morrer nos afastando da vida? É um assunto complicado e difícil de ser abordado. Para quem está mais que triste, os exemplos tão alardeados de força de vontade e auto ajuda, as vezes mais pioram a auto estima que ajudam.
Quem se sente vazio, perdeu a esperança. Precisa mais que conselhos. Precisa de amor e compreensão.
Se conhece alguém com esses sintomas, se você sente isso, se alguém falar em morrer, não desconsidere. Se não souber como ajudar, indique o CVV - Centro de Valorização da Vida. Não desconsidere qualquer sinal. As vezes pode ser tarde.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Lições de uma Olimpíada

Cada um tira suas lições de acontecimentos na vida. Das inúmeras histórias e imagens que vi dos jogos olímpicos Rio 2016, me ficam três lições:

Superação

São tantas histórias impactantes de pessoas que passaram por tantas dificuldades: atletas com lesões, sem pátria, enfrentando depressões e muitos problemas. E foram lá e fizeram o seu melhor. Uns ganharam medalhas, outros competiram. Todos são vencedores.

Pessoas que tiveram que mudar estados de espírito de derrota para enfrentar nova batalha. Algumas vezes em poucos minutos. Outros que foram traídos pelo seu emocional. Outros ainda que superaram antigas derrotas. Um dos segredos da vida sempre foi, e sempre será, a capacidade de ir em frente. Apesar de. De acreditar que é possível. E focar. Trabalho suor e talento juntos são uma das receitas do sucesso. 



Patrocínio

Não existem milagres nas conquistas. Especialmente em uma competição tão acirrada como uma Olimpíada. Se o talento, garra e suor do atleta são imprescindíveis, o apoio financeiro, logístico, psicológico é fundamental. Não importa se é estatal, da iniciativa privada, se é das Forças Armadas ou universidades. Um atleta é uma promessa até que seja treinado. Uma medalhista de Ouro poderia ter se perdido em uma comunidade carente, se ali não existisse uma oportunidade em forma de instituto, escolinha, ginásios.

Uma Daiane dos Santos, que foi descoberta por acaso, poderia ser uma Nádia Comaneci se houvesse um aparato para torna-la campeã. E isso não tem ideologia. Tem trabalho de base. É na infra estrutura de esporte, nos equipamentos, nos locais para treinar. E depois de detectado o atleta, ele precisa de apoio financeiro para se dedicar integralmente ao esporte.

Lembro que umas décadas atrás li, com espanto, que grande parte dos nossos atletas olímpicos tinham problemas nos dentes (!). Se quisermos saborear medalhas, a preparação começa hoje. Ontem. E visando jogos duas décadas na frente. Portanto em vez de brigar por quem patrocinou quem até agora, vamos apoiar as lutas por mais patrocínios, institutos e escolinhas de formação de atletas.      

Respeito

Competir, não brigar. 

Vi duas cenas diferentes e altamente representativas. 

Uma nadadora que perde uma medalha ganha (a de bronze) por tentar vencer a qualquer custo. Foi desclassificada. 

Outros dois atletas que fizeram um dos jogos de tênis mais eletrizantes que já vi, onde a vitória se deu por detalhe. 

O abraço que trocaram ao final do jogo simbolizava o respeito pelo rival do momento. E o reconhecimento do valor da competição: uma superação de limites e um embate justo. 

Que vença o melhor. Nem sempre. Mas a verdadeira superação é quando todos saem vencedores. Superaram seus limites e deram o melhor de si.    
   

PS: O julgamento

Vivemos em uma época onde a memória do que fizemos e fazemos se perpetuará para sempre. Aumenta nossa responsabilidade pelos nossos atos. Coloca uma carga imensa sobre quem talvez não tenha refletido muito bem sobre isso. Alguns atletas estão sendo julgados pelo que fizeram antes e durante as Olimpíadas.  

Um de nossos atletas fez uma "brincadeira". #SQN. Ele e os colegas cometeram um crime. Cultura nossa fazer piada de tudo e julgar que os ofendidos devam se calar? Sempre foi assim, né. Quero crer que ele aprendeu uma lição e se superou até em função disso. O "humor" não pode ser desculpa para uma ação que ofenda. E isso não é ser politicamente correto, é ser humano.  

(Nessa história o que mais me incomoda no final é saber se o menino ofendido está fora da competição por critérios técnicos ou se foi uma "punição"....não tenho dados para tecer uma opinião criteriosa a respeito, mas a dúvida me cutuca.) 

Também não gostei de um apelido de um de nossos atletas, o Bolo Cru. Achei bullying total. Pode ser que ele não, não sei. Mas na vida, infelizmente, nem sempre os caminhos são rosas. Os espinhos tem que ser administrados.

Uma atleta americana tem sido muito criticada nas redes sociais por não ter colocado a mão no peito na hora do hino....

E por aí vai a lista de julgamentos e verdades absolutas com que nos revestimos na hora da crítica. Não invalida os atos, certos ou errados, conforme nosso ponto de vista e a liberdade de opinião será sempre um valor a ser resguardado.

Mas a tolerância também. Cometemos erros. Todos. O que nos difere é o que fazemos com eles. 


sábado, 13 de agosto de 2016

Sem causa, justamente choro e rio - como já dizia Camões

Tem dias em que a máquina despiroca. 

1. DespirocaSignificado de Despiroca Por Dicionário inFormal (SP) 
Ato de despirocar, enlouquecer, desvairar.
Se acontece (com frequência) nos computadores e smart phones, por que não aconteceria conosco (e despirocada como estou, vou lá me importar se escrevi o tal do porque certo????).

Em geral sou uma pessoa serena. 

Por fora.

Por dentro sou uma turbilhão. Mas normalmente, depois que saí da adolescência - mesmo a tardia - consigo administrar as "noias" internas. Me custa uma naba de energia, mas consigo.

Mas tem uma coisa que me abate. Quando o perco o tesão. Sabe aquela brochada com a vida e pior, com a gente mesma????

Parece que desliga algo da tomada. E nem o sol, com a sua linda energia, consegue me levantar do chão. Nem livro de auto ajuda. Pode isso????

Me conheço o suficiente para saber que preciso religar o entusiasmo com algo. Com alguém. Comigo mesma.

E como tenho fé, mas também sou cética, não funciona o segurar na mão de Deus, Deusa ou talismã. E não pensem que não rezo. É que acredito firmemente no livre arbítrio e que deve partir de nós o desatar os nozes da vida.

Despirocada então, resta me abastecer de coisas boas. Sem esquecer que mesmo no desvario, a vida segue, as contas tem que ser pagas e os projetos tem que ser terminados.

Quem venham os livros e leituras do bem. As palavras de carinho de quem lê e a energia que sei me habitar desde sempre.

Se Camões já sentia um tanto assim, talvez as razões fossem outras, mas o sentir é descrito com perfeição:

Tanto de meu estado me acho incerto
Que em vivo ardor tremendo estou de frio
Sem causa, justamente choro e rio
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto
Da alma um fogo me sai, da vista um rio
Agora espero, agora desconfio
Agora desvario, agora acerto.

Fosse hoje, talvez não tivesse escrito um poema, já que teria resolvido seu estado incerto com um rivotril da vida....Ou fosse considerado bipolar.

De mim que (ai!) não sou poeta, a vida (eu) cobra resolução e bom senso. Deixando as despirocadas para lá. Tentarei. Juro  

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Bananas, elegância e lua nova

Era noite de luz nova. A nova é aquela que não aparece no céu, confere? Tempo de plantar bananas e meditar sobre um novo plano.

O que tem a ver bananas com meditação? Bananas são um fruto interessante. Não são exatamente elegantes, mas são tão cheios de qualidades que compensam. Acho que achei a resposta.

Enfim. Meditar é o que ela vinha fazendo a maior parte da vida. Ficava nesse estado de lua nova, a que brilha mas não aparece. Brilha para dentro, para o outro lado que não o da fama.

Auto sabotagem talvez fosse a palavra mais certeira. Cortava seus caminhos. Podava suas chances. Negava seu futuro. E depois sofria, sofria, sofria.

Tudo bem, mas o que tem a ver bananas, meditação, auto sabotagem, lua nova com a tal da elegância? Desde quando ter opinião é fácil? 

Fácil coisa nenhuma, que frase mais besta, sô! Mais fácil ter a elegância de parecer concordar com o grupo. Não causar celeuma. Deixar que o todo se assuma como o tal, mesmo que no fundo ela saiba que não.

Não, isso também não era do seu feitio. Que opinião sobre tudo, ou quase tudo, sempre teve. Não ia ser por desapontar uns e outros que ia deixar de ter. Podia se sabotar dos pés a cabeça, podia até não falar em alto e bom som tudo o que pensava, de quem pensava e por que pensava. Mas que pensava, isso sim. E muito.

Meditava também. Não tanto quanto deveria que meditar de forma bem feita faz bem ao espírito. Talvez traga mais disciplina, coisa que lhe falta com certeza. Se perde no devaneio, fica que nem fase da Lua. Umas vezes cheia e vibrante. Outras minguante e depressiva. E nas fases de lua nova só se deixa levar, como naquela música que um dia embalou vitórias. Mas é um deixar-se levar sem glória, sem rumo e sem taça no final.

Mais valia se seguisse os roteiros pré- estabelecidos. Isso de seguir receitas e roteiros é muito mais fácil na vida. Ou não veem o sucesso dos manuais de auto ajuda? E dos gurus que apontam rumos. Basta seguir e pronto.

Não. Também tem que se esforçar mesmo seguindo os roteiros. É obvio. Já fomos todos expulsos do Paraíso e isso significa que não é para ser fácil. Demanda suor. Demanda trabalho. Pelo menos para quem não nasceu em casas certas. 

Isso pensando na parte material. A do espírito é mais complicada. Se a gente nasceu de Lua, não tem receitinha que acalme a mente inquieta. Palavras abstratas começam a fazer sentido. Sentimentos alheios se tornam próprios. Olhares outros sobre o que uns acham assado. E nós assim.

E ainda tem essa tal da elegância. Atrapalha a vida esse ritual de ter uma certa empatia pela raça humana, pelos animais, pela natureza. Bem melhor ter uma opinião firmada sobre tudo e arrotar certezas que amargar dúvidas. 

Mas e as bananas? 

Épocas em que a lua não brilha, plantam-se bananas. Mas também é época de unir forças e fazer planos. Mesmo que devam esperar por fases lunares (e/ou solares) melhores. 

   

domingo, 31 de julho de 2016

Volto porque sou otária

Acordou com uma cosquinha, dessas que batem em dias ruins. Uma tristeza que se escondia em forma de mau humor. Mal humor dizem alguns, como se existisse Bem humor. Enfim, esses errinhos da língua mãe a faziam ainda mais irritada. Como se não cansasse de cometer os seus próprios erros. inclusive gramaticais. 

Antes fossem só esses...

Alguma coisa não batia bem. Saiu murros e facas pela vida. Vontade de soltar indiretas nas redes sociais, bem sabendo que quem devia ler jamais o faria. 

E que coisa mais besta falar por entrelinhas e não diretamente nos olhos. Se uma coisa aprendeu na terapia é que mais vale dizer o que se quer dizer, para quem se quer dizer, no momento que se quer dizer a tal coisa do que ficar numa masturbação mental, espremendo a raiva e chutando quem nada tem a ver com isso. 

Mas....

E sempre tem um mas na questão, o alvo da aparente raiva não seja quem ela pensa que é e sim um algo dentro dela. Um quê para ser trabalhado. Não. A palavra certa é enfrentado. As batalhas tem que ser vencidas internamente primeiro. Depois se parte para o embate externo. As vezes nem são necessários.

Amar custa caro. Não aquele amor de namoridinho - pura ternura, ou de  paixão - puro delírio. Muito menos aquele da convivência e cumplicidade que se constrói com o tempo. O amor a que se reportava, o que dava medo desde sempre, é o da entrega de alma. 
..."conseguiram amar-me à bruta, na beleza que existe para lá de mim. Não sei como posso viver sem um par de olhos onde se reflita esse cristal íntimo que não cintila nos espelhos.”
Inês Pedrosa, Inês. “Nas Tuas Mãos.” 
Aquele que te enxerga melhor do que tu mesma. Algumas vezes. Aquele que é simples e complexo. O que tira máscara. Aquele era doído para ela. Medo do que?

Da entrega um pouco. Mas nem tanto. Era capaz de entregas absurdas que deviam vir da sua energia uterina e imemorial. Da dependência talvez. Do compromisso. Quer saber a verdade, nunca tinha na realidade esmiuçado esse lado. Deixa prá lá. Melhor sofrer de amor que entender o motivo das lágrimas existirem.


Tudo bem que achou isso tudo reunido e amplificado em um ser humano. Melhor ainda que fosse homem, tesudo e a quem ela admirava. Perfeito encontro. Daqueles que fazem sentir que a vida vale a pena em um momento.

Alguns poréns. O tal do medo da entrega. Dos poréns dele, fica a curiosidade, mas como tudo o que envolve outra pessoa, são dele e a ele cabem resolver. Os dela ela podia entender. 

Volto ao mesmo ponto, como em círculos, como em volta. Como redemoinho de voragens abissais. Volto, volto, volto...

Falo de mim, falo de outras? Falo do quê, afinal. Da alma de mulher que anda também em círculos e parece não ter saído de velhas questões que há muito julgava ultrapassadas. 
"Tenho pena de tua avó que dizia não por não ter escolha. Igualmente tenho pena de ti que diz sim e também não tem escolha" 
Uma frase escutada há muito tempo. Parada no cérebro pela palavra mágica: escolha. As escolhas me definem, embora sejam sempre apenas escolhas.

"Se parti ou se fiquei, o importante é que emoções eu viviiiiiiiiii...." cantava a plenos pulmões no banho, esperando que todo aquele turbilhão entrasse pelo ralo com a água que caía. 

A diferença entre sentir que as emoções vividas eram sublimes experiências ou meros desastres da vida influíam na qualidade do sentir. Era dentro dela que o milagre se operava. Saber lidar com isso lhe custava uma vida. Suas cicatrizes. 

(levemente inspirado na leitura de "Toureando o Diabo de Clara Averbuck que me fez repensar sobre as mulheres e sua trajetória com o amor e a dor) 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Escolhas são apenas escolhas

tem disso na vida. Aqueles dias em que tudo parece desacontecer. A mão pára no ar, o ventre desaloja o feto, a magia se apaga e a luz teima em piscar. Um átimo. Um momento sem importância e pronto. Acabou.

tá, nesses dias de minúsculas andejantes, melhor se entorpecer com esse lado Medeia de ser e não tomar decisões drásticas. Nem pense em mudar o cabelo, muito menos deixar um emprego. E nem dar o fora naquele cara que faz teu coração bater. Nem que ele seja causa/efeito de todo um sinkhole tsunamico em sua vida. 
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa

talvez melhor respirar meio fundo. Tomar outro gole de vinho que ajuda a clarear as ideias. Um tarô online também serve. na falta dele, um livro aberto ao acaso, qualquer método que te coloque em contato com a sabedoria interior. Quem? Sabedoria? Nesse momento parece tudo, menos sábia sua alma que grita escolhas pra que te quero!

deixa ela prá lá então.

O dia vai mesmo amanhecer de novo. No meio talvez uma noite mal dormida, quem sabe bem. Vá lá se saber. E a maldita da escolha vai acontecer. Melhor que seja com a cabeça mais descansada.


Escolhas são apenas escolhas. Não acredite muito naquela coisa do cavalo encilhado que passa só uma vez. Pinoia. Passam outros cavalos, talvez mais belos. E se não passarem, passam bois, cachorros, gatos. Quem sabe um unicórnio?

E lá está você, deixando sair caraminholas de uma cabeça que deveria ser em tudo mais séria. Mas não é (o famoso #SQN).

Porra, SQN no meu tempo era uma super quadra do setor norte em Brasília. No meu tempo já dá uma pista da idade. Quando a gente começa a delimitar meu tempo é porque já passou dele. 

O Espelho
Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
Mia Couto-
 “Idades Cidades Divindades”
Idades e escolhas. 

"O peso da luz com que nos vemos". Bonito isso de ser poeta. Falam de jeito tão especial e fazem as rugas e a decadência até mais amenas.

Talvez sejam eles, os poetas, nossos verdadeiros salvadores. Que importam as escolhas, se certas, se erradas, se o sentido na verdade é não fazer muito sentido. se tudo vai se acabar (para nós) em um átimo, seja a juventude, seja um amor, seja a vida. 

E quando nosso corpo findar o seu prazo de validade, o mundo continuará girando, o sol saindo e iluminando. E mesmo os que amamos continuarão vivendo. E bem. Sem nós. 

E pronto.

Passado um tempo, de nós não restará nem a lembrança. Nossas escolhas e medos, e grandezas, e todo o resto que nos forma....virarão fumaça.

Talvez reste nossa alma. Ou energia. Ou átomos soltos, à espera de uma nova união. Talvez nos tornemos luz em um grande oceano de harmonia. Quem há de saber...

Até lá resta-nos viver. Da forma que nos traga um significado. Mesmo que momentâneo.   



terça-feira, 26 de julho de 2016

Quase nos 60 - a trajetória

De repente, não mais que de repente, os anos passaram. A menina que sonhava quimeras se vê presa em um corpo que sim, reconhece como o seu, afinal foi o que ela construiu, mas que os outros olham como se fosse de uma outra diferente. Uma outra bem mais velha que ela, menina que ainda mora por ali.

A trajetória não foi pequena, afinal são quase 60 anos de vida. Mas falando francamente não me parece assim. Parece ter sido tão rápido. 

O maior trauma com a idade foi aos 30. A sensação interna de que dez anos antes, eu tinha 20 e um mundo de possibilidades pela frente. E dez anos depois teria 40 e um mundo de maiores responsabilidades. E não apenas isso. Um mundo mais focado e por isso mais estreito. 

E por mais que saiba que isso são convenções e que nada me impede de tentar coisas novas em qualquer idade, vou ser bem franca com vocês: a energia de ousar esbarra em alguma falta de vontade, alguma dor do corpo, alguma seletividade que não me acometia aos 20.

Nunca fui um mulher de cuidados pessoais. Por sorte nasci com boa genética e herdei bom cabelo, pele boa e uma boa saúde com pespectiva de longevidade. Sempre brinco que só tive alta de hospital: quando nasci. 

Ajudei com uma vida equilibrada. Nunca fumei (não por não tentar, mas achei horrível na primeira fumaça). Não bebo demasiado (também tentei a cerveja e achei muito amarga, só o vinho me conquistou). Não gosto de vícios, não por moralismos, mas por detestar dependências. Ademais meu problema maior nunca foi entrar em Alfa. Eu vivo nela. Talvez se inventassem algo que me fizesse pousar no chão e enfrentar galhardamente as coisas triviais da vida, eu me viciasse. Um pouco.

Não casei e não tive filhos. Por conseguinte não sou avó hoje, como grande parte de minhas amigas. Talvez isso também tenha contribuido para manter a cabeça de menina interna. Filhos e netos mudam uma mulher. 

Aos cinquenta me propus um desafio ao ver uma mulher ser advertida numa fila de idosos. Achavam que ela não tinha a idade para estar ali. E olhando para ela ninguém diria mesmo que já tinha passado dos 60. Ali, naquele momento, decidi que queria ser assim. E dez anos pareciam ser suficientes para o meu projeto IDOSA GOSTOSA. Tá, eu sabia que devia ter começado antes. Aos 12 talvez. Mas antes tarde do que nunca.

Mas....percalços dos caminhos da vida me pegaram no meio da trajetória. Doenças de meus pais me fizeram percorrer médicos, hospitais e CTIs. Aprendi termos médicos, tive lições de vida nas salas de espera. Passei pelas angústias do não saber o que vai acontecer no momento seguinte e aprendi a agradecer cada momento de vida. Minha pele se revestiu de rugas, meus cabelos se tornaram mais brancos. Meu corpo emagreceu em um primeiro momento. Cheguei a pesar 49 quilos. E engordou em outro, mantendo os 60 kg atuais. A antiga relação custo benefício que tinha descoberto anos atrás e que me fez emagrecer bem e que era a máxima: "ficar magra me dá mais prazer do que comer batatas fritas e refrigerantes" mudou para "comer me dá mais prazer que o resto e a vida é breve".

A VIDA É BREVE  

Talvez a maior constatação do envelhecer. É MUITO breve. E o fim não é bonito. Dói. O velho não é aquele ser bonitinho como o bebê, mas é tão frágil e carente como ele. Devia receber a mesma atenção. Mas não recebe. O velho na nossa sociedade não recebe a mesma atenção que em outras. Valorizamos em demasia o jovem, atribuimos à ele vários significados: beleza, eficiência, agilidade. O velho é lerdo, é feio, a sabedoria da idade deixou de ser atributo de qualidade. Principalmente depois da era Google.

Queremos então ser jovens. Alguns fisicamente. Seja por plásticas ou por atividade física frenética. Outros, mais espertos, mantém a leveza da alma e os olhar brilhante de quem se sabe. E se ajuda com alimentação saudável e um alongamento.
Outros ainda descobrem seu chapéu lilás e vão viver o que lhes dá prazer. Acho que no fundo a vida é isso: trajetória de seguir em frente, apesar de e com coragem. 

Estou registrando meu último ano nos 50 com fotos diárias: o álbum do #projeto2016 e as explicações de cada foto estão na fanpage do Elenara Elegante.   

Deixo com vocês um poema que recebi de minha cunhada por whatsapp hoje. De certa maneira complementou o que queria dizer por aqui.
Por dentro e por fora - Luan Jessan
Por foratenho tantos anos
que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos,
e me acho mais bonita.
Por fora, óculos;
algumas rugas,
gordurinhas,
prata nos tintos cabelos.
Por dentro sou dourada,
Alma imaculada,
corpo de modelo.
Por fora, em aluviões,
batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas,
filosofia e amigos sem despeito.
Por dentro, sei me cuidar,
vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
não me oprime a saudade;
não me demoro padecente.
E é por viver contente
que concluo sem demora:
é a menina
que vive por dentro,
que alegra
a mulher de fora!


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sou do tempo da palavra


“Eu sou do tempo da palavra”
Trecho de: Pedrosa, Inês. “Nas Tuas Mãos.”
 
Nesses tempos de vídeos e you tubers ganhando fama e muita grana, eu admito: sou do tempo da palavra. 
Gosto das cartas, dos livros, do ato de ler. Gosto do ato de escrever. 

Falar é bom. As vezes. Comunica melhor no instante imediato. Mas é no ato de transpor para o papel, tela, seja lá que ferramenta for, que os pensamentos ganham força, se conformam. Ganham uma vida mais intensa e perene que as palavras que saem ao vento.

Tudo bem, eu sei que o que se diz vira vídeo hoje. Que pode ser guardado e visto ad eternum ou o tanto que durar os meios em que foram gravadas. Mas não é essa eternidade que me refiro. Falo do trabalhar o pensamento, burilar as imagens que se quer transmitir. Talvez escrever se assemelhe a projetar. A narrativa, o que pretendo do projeto, até posso exprimir em vídeo. Posso falar a respeito. Mas o projeto final...esse tem que ser desenhado, graficado, detalhado. É como um livro.

Mas também sou mais da palavra para fazer textão, textinho, tuitar de forma sucinta. Sou do tempo da palavra. Eis tudo.

Também gosto mais de ler. Confesso para todos que vou na contra mão das tendências. Eu fujo dos vídeos. Tenho vários assinalados para ver mais tarde. Dificilmente esse mais tarde se transforma em agora. Vídeo demanda tempo. Muito mais tempo que a leitura. 

Explico: na leitura posso adiantar, ir ao que interessa bem mais rápido que no vídeo. É sim, sou muito apressada. Como rápido, leio rápido, concluo rápido. Nem sempre é bom ou eficaz. Mas deve ser meu lado duplamente ariana, de sol e ascendente. Ou a lua em gemeos, sei lá. Ou algum outro aspecto atravessado nos céus no momento em que nasci. 

Só sei que sou apressada e gosto das palavras. O discurso dito ao pé do ouvido também me encanta. O sussurrar que envolve brilho no olhar e aqueles sinais exteriores que o vídeo não capta com tanta fidelidade como a vida real.

Vídeo é ilusão. Pode ser editado. Deve ser bem feito. Palavras são medidas. Se é para falar, prefiro que seja ao vivo. Editar serve no ato de escrever. No exercício do burilamento das ideias. 

Definitivamente sou do tempo da palavra. Escrita. 

  

terça-feira, 7 de junho de 2016

O Jardim das Delícias Secretas

Sonhos. Eles nos dizem tanto. Comigo, pelo menos, eles são frequentemente repetitivos. Sonho com choupanas que escondem tesouros. E como boa arquiteta, abro portas aparentemente desgastadas e me deparo com palácios e casas elegantemente decoradas. Obviamente sei que deve ter a ver com o que vejo e pesquiso durante o dia. E mais obviamente ainda também sei que deve ter a ver com o valorizar mais minhas qualidades internas, partes que as vezes menosprezo, mas que podem esconder potenciais imensos.

Mas e quando o sonho te repete um mantra? Aquela noite em que uma frase é repetida. Mil vezes repisada. Parece que feita de propósito para que não se esqueça. Porque para mim, sonhos que encerraram mensagens são os que permanecem. Tenho sonhos que sonhei quando muito pequena, e ainda hoje enxergo com nitidez as imagens que formei (ou se formaram) em minha mente.

Essa noite sonhei com um conto. Tinha um título sugestivo: O Jardim das delícias secretas. Tive a certeza de que fazia parte de um livro de Jorge Luis Borges que tenho comigo e li muito tempo atrás. Do conto não lembrava nada. Mas o título ficou martelando na minha mente. Várias vezes repetido, parecendo viral da internet. Acordei. Voltei a dormir. E o jardim das delícias secretas ainda aparecia claramente em minha cabeça. 

Acordei e corri para o Google colocando o título sonhado com Borges. Nada.

Como assim? Tinha tanta certeza que minha primeira reação foi de brochura. Borges não tinha escrito nada com esse título. Levei algum tempo para voltar a procurar. Agora só com o título...Além dos jardins secretos daqui e dali, saltou um jardim das delicias terrenas. Um quadro. 

Um quadro de um holandês muito louco que pintava coisas surrealistas lá pelos anos 1500. Um tal de Bosch. Hieronymus BoschEl Bosco. Sim, eu tinha visto um documentário sobre ele. Sim, ele tinha me impressionado. Sim, eu vi um quadro seu no MASP em 2014. Sim, esse quadro me calou muito. Achei muito impressionante que alguém ousasse criar aquele tipo de imagem numa época que meu pré conceito imaginava mais careta. Mais tão sem imaginação desse tipo. 

O Jardim das delícias terrenas do Bosch é uma incógnita para mim. Senti que devia me debruçar mais sobre ele. Talvez seja o recado de meu inconsciente me dando a dica bem clara: se debruce sobre as incógnitas da vida. Abra a porta do seu jardim das delícias secretas. Ele deve revelar riquezas inimagináveis como as portas das casas em pedaços que abro e que revelam novos mundos a ser não apenas descobertos, mas vivenciados e compreendidos em toda a sua plenitude.  

terça-feira, 31 de maio de 2016

Ponto de maravilha

Sou eu. Se é que alguma vez me soube com inteireza....Algumas épocas de minha vida achei que sim. Me era mais amigável. Eu me lia mais. Foram momentos incríveis.

Mas a medida que os anos passam, se apossa de minha pessoa uma espécie de sabedoria que se aproxima àquela velha máxima: só sei que nada sei. 

As certezas já não servem como muletas. O pragmatismo analítico se torna mais concreto. Deve ser minha lua em gêmeos afinal que vê os lados de todas as situações como se fossem isolados e encontra coerência nos dois. Embora sejam díspares. 

Sobra como sempre a velha e boa intuição. Aquele quezinho que bate lá dentro e é como uma cadeira confortável, um sapato que veste bem, um aconchego de sentir que sussurra que isto é certo, ou mais certo que aquilo.

Este sussurro é o diferencial. Antes era grito. Era emblema tatuado, era carimbo na testa. Hoje é murmúrio suave. As vezes nem tem tanta relevância assim. Serve para montar a harmonia que forma minha interna (e eterna) desordem. 

Vamos ficando mais sábios com a idade. Vamos quem, cara pálida? Nem todos se tornam vetustos.  
Vetusto: adj. Cuja idade é excessivamente avançada; velho ou antigo.Que provém de um tempo antigo; remoto.Que foi estragado ou danificado pela ação do tempo.P.ext. Quando o excesso de idade atribui respeito; venerabilidade.Pej. Que é ultrapassado; obsoleto: pensamentos vetustos.

(Etm. do latim: vetustus.a.um)
Vetustos no sentido de venerável, ressalte-se. Nem todos criam juízo. Na verdade tenho para mim que a maioria finge um tento que não tem, é mais imagem externa que realidade interna. 

O que resta, então? Ir levando. Administrando essa rota vagabunda que nos leva a um fim que apenas tememos. De um fim que nada sabemos. De um ponto final que nos leva a respirar fundo e tentar agir num algo que nos faça pelo menos perdurar em lembrança. Para alguém. 

Elegemos nossas lutas. Tentamos sobreviver. Uns fazem de conta que são felizes. Uns o são realmente. Cada um descobre onde o ponto de maravilha.

O ponto de maravilha. Aqueles momentos que justificam tudo. Aqueles momentos mágicos em não se precisa saber de nada, nem quem se é. Apenas se vive.

Talvez seja uma das respostas da Vida. Reunir o máximo de pontos de maravilha que se consegue. Mas se já conseguiu um, já valeu. E quem viveu, sabe do que estou falando.   

terça-feira, 10 de maio de 2016

Quebrando o trinco de uma porta secreta

Uma ninfa
Você quebra o trinco de uma porta secreta. Brumas envolvem o seu corpo e levam você para um mundo fantástico, repleto de magia e maravilhas. Quando a névoa se dissipa, você está praticamente irreconhecível. 
Eu sou dessas. Gosto de fazer estes testezinhos das redes sociais. Tão bobinhos. Tão interessantes. Quem nunca???

Obvio que eu sei que eles no fundo querem as minhas informações e me dão uns espelhinhos e colares - ops - momentos de divertimento em troca. Eu sei que sai barato para eles, mas fazer o que....Me sentir uma Ninfa vale a barganha.


Você quebra o trinco de uma porta secreta

Vamos combinar que esta frase é linda demais. Se eu tivesse passado alguns anos em análise profunda talvez não conseguisse resumir os insights de vida assim tão poeticamente.

Sim. Já quebrei alguns trincos de portas. Secretas e nem tanto. 

Alguns foram na marreta. Doeram porradas. Queimaram labaredas. Outros foram suaves como arrepio de pele. 

Em nem todos me senti ninfa. Muitas e muitas vezes fui ogra pela vida. Principalmente fui ogra aos meus olhos de críticas e cobranças.

Sou uma Ninfa que se cobra. Uma Ninfa que teme o sucesso. Uma Ninfa que morre de medo de não corresponder às expectativas...

Este mundo repleto de magias e maravilhas nem sempre coexiste com o que construo. Ou destruo com as minhas sabotagens.

Me saboto. Muitas e muitas vezes. Admitir isso é quebrar um dos trincos. Trabalhar isso é abrir a porta secreta. 

Espero que um dia a névoa finalmente se dissipe.    

Até lá, sigo entre idas e vindas. Internas. Sigo feito nau que segue o vento, algo sem rumo, meio sem foco. Deixo a vida me levar no rumo de descobertas. 

Ninfa. Tão menos parecida com a beleza etérea. Tão ou mais líquida que a espuma que morre na praia.

Talvez um dia a porta secreta se abra por inteiro. Talvez quem sabe a irreconhecível ninfa se revele ao mundo.