domingo, 1 de novembro de 2015

Meu primeiro assédio

Impressionantes os relatos que tenho lido de mulheres de todas as idades e posições sociais com a hashtag "meuprimeiroassedio" (ou também #primeiroassedio). O que mais me impactou não foram apenas os relatos, mas a quantidade e "coincidência" de atos. 

Fica escancarada a permissão para que os "machos" se sintam a vontade para cantar, passar a mão, expor seus desejos, gritar suas vontades, como se as mulheres, não importando a idade, estivessem ali apenas para satisfazer os seus instintos.

Mais cruel é ver como homens dito adultos, alguns com fama e talvez com algum tipo de educação formal, se sintam a vontade para expor a sua falta de empatia com as mulheres que foram vítimas e que se armaram de muita coragem para expor isso publicamente.   

Sim, é preciso coragem para expor algo que deveria envergonhar quem praticou, não quem sofreu. Isso mostra o quanto essa cultura que tudo permite aos homens é cruel. Meninas aprendem desde pequenas que devem se esconder, devem se resguardar, devem ser direitas e mudas. E sim, até hoje ainda aprendem isso.

O que vou contar são dois casos que nunca contei para ninguém. E me marcaram de maneira não agradável.

Quando eu tinha uns três anos costumava brincar com amiguinhos. Vizinhos de casa. Éramos como irmãos. Calor, no quintal da casa, todos de calcinhas ou cuecas. Crianças. Numa dessas horas, um deles, não lembro se mais velho, mas não muito, falou ao ouvido do meu amigo do peito algo. Os dois mais que ligeiros se aproximaram e baixaram minha calcinha. E riram muito. Ah, mas foi brincadeira de crianças, dirão alguns. Não. Para mim não. Me senti agredida. Não foi inocente. Não passou disso porque saí muito rápida e magoada. E não contei para ninguém. Alguém educou esses meninos para que assumissem que poderiam fazer isso. Alguém me educou para calar se algo assim acontecesse. 

Quando eu tinha uns dez anos morava já em Porto Alegre, ao lado da Catedral. Um dia subia a rua que era uma ladeira. Ouvi um homem adulto atrás de mim dizendo algumas palavras que não sabia o que eram, mas de alguma maneira intuía que não eram adequadas. Me lembro do susto e do passo apressado. Era dia e por isso acho que não passou disso, ele apenas repetia aquelas palavras que deviam lhe causar alguma espécie de prazer e que a mim assustavam. Corri para casa e para o dicionário para saber o que eram. Não pensei em repetir para mais ninguém. Em algum lugar da minha mente me ensinaram que era muito feio até para repetir.

Porque me armei de coragem para falar isso? Para não me eximir. Para não deixar em branco. Para que cada um pense sobre o que está passando ao seu filho pequeno quando o manda ser garanhão. Para que cada um reflita.     

2 comentários:

  1. Pois aos sete eu também me senti ultrajada, humilhada, invadida. Um ódio enorme tomou conta de mim. Vinha da padaria e subindo a rua vinham dois moleques mais ou menos dessa idade também e um deles me enfiou a mão entre minhas pernas.. Riram muito como se fosse o ato mais magnífico que realizaram em suas vidas. Me senti a última das criaturas.

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  2. Bem isso Ada! Me arrepio ao ler e ouvir cada depoimento. Não são casos isolados. Praticamente toda mulher tem um caso de assedio a relatar. Pior, tem vários casos. E desde muito pequenas. E há quem pense em ideologizar a questão! O que pensando bem, talvez tenha sim que se situar no campo das ideias. A ideia de que é errado. A ideia de que uma cultura machista tem que acabar. Obrigada por relatar, exige coragem de cada uma de nós. Mas creio que vale a pena essa corrente de coragens. Beijos

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