segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Vibrando em afinidade - focando no que nos aproxima

Uma vez, muitos anos atrás, li uma frase que me impactou. Dizia mais ou menos assim sobre as manchetes de violência que se liam nos jornais: Triste o dia em que as boas ações sejam manchete. Será sinal de que deixaram de ser normais e passaram a ser exceção.

Pois não é que esses dias chegaram. Hoje as manchetes que nos chamam mais a atenção falam da bondade mais que do cinismo. Mais da generosidade que do egoismo. Parecem tão inusuais!

Teremos chegado àquele ponto em que embrutecemos? Quando foi que as boas ações passaram a ser atos que deixaram o limite da normalidade? Onde deixamos de focar no lado positivo da vida para nos ater ao que nos distancia dos outros seres humanos?

Problemas sempre existiram. Eu, na minha curta vida em termos históricos, embora longa para mim, me lembro de várias crises. Pontos de desesperança na economia, pontos de medo na vida mundial. Cresci na guerra fria(**), eu tinha medo que houvesse uma cisma entre o americano de plantão e o russo de então, que um ou outro, ou os dois acordassem de mau humor e apertassem aqueles botões que em poucos segundos iria destruir tudo o que conhecemos e a civilização terminaria em pó. Radioativo.

Uma das minhas fantasias na época era vagar por uma cidade vazia. Tudo à minha disposição: lojas, bibliotecas, ruas. A única coisa chata era não imaginar as pessoas amadas junto. Isso me lembra uma série que vi, acho que era inglesa, sobre uma guerra assim onde tudo virava de cabeça para baixo. Os valores acabavam, os mais fortes ou mais espertos assumiam o poder. Tudo muito impactante para quem foi criada acreditando em leis e obediência aos ditames da sociedade ocidental. 

Por sorte (minha) tanto meu pai como minha mãe tinham tido lá os seus perrengues com a Igreja Apostólica Católica e não nos criaram com os dogmas de pecado que a cultura judaico-cristã tanto adoram. Não, não eram ateus. Muito pelo contrário. Eram boas pessoas. Praticavam boas ações, nos ensinavam que Deus estava em todo lugar, que pecado era fazer algo contra alguém intencionalmente. Mas não nos obrigavam a seguir rituais que eles mesmos não seguiam. Isso foi tão bom na minha vida. Me poupou anos de análises e neuras que via em muitas amigas.

Sempre acreditei que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. E por isso mesmo, maravilhosos. Li a Bíblia muito pequena. Com um viés histórico. De certa maneira, nos passaram suas dúvidas e questionamentos, mostrando que nós podíamos questionar, ter dúvidas e que as certezas podiam ser analisadas, refletidas e questionadas.

Não acho que tenha me tornado uma má pessoa por não ter ido às missas, não ter me ajoelhado e batido no peito. Não me considero uma pecadora por nascimento e a figura do Cristo que admiro tem mais a ver com o contador de parábolas que aquele morto na cruz. 

Enfim, religiões a parte, vejo com receio essa crescente necessidade de manchetes de boas ações. Me recuso a acreditar que são a minoria. Prefiro crer que estamos demasiadamente focando no que nos separa como seres humanos, do que no que nos aproxima, como bem disse uma amiga esses dias. 

Palavras tem poder, diriam livros de auto ajuda e religiões. Palavras podem vibrar com afinidade, diz o Kototama, segundo outra amiga. Talvez as manchetes de bondades queiram exatamente reforçar essa humanidade que anda meio que em baixa. Talvez ela esteja apenas latente, esperando nossa disposição de deixá-la sair em nossas atitudes diárias. E em nossas palavras cheias de alma.  


**  PS: como pura curiosidade para entenderem a paranoia dos anos em que fui adolescente, achei esse conto que escrevi em 1971. Tinha 14 anos. 
  

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Snaps da solidão

Gente sozinha gosta de falar muito. Eu tinha uma conhecida que morava só, já com muitos anos de estrada, que mal me via despejava toda uma torrente de fatos que lhe tinham acontecido. Eu, na pureza dos anos tenros, achava meio cansativo.

Não me levem a mal. Não era má vontade de escutar. Era cansaço no ouvido. Eu tinha que fazer um exercício de meditação. Desligar o áudio, descansar o ouvido e mente para que pudesse restar um pouco de sanidade.

Mas isso foi obviamente antes da era das redes sociais e smartphones. Hoje a inundação de informações, relevantes e nem tanto, abobrinhas e mesquinharias, belezas e sensibilidades são jogadas sobre nós a uma velocidade estonteante. 

Já não nos basta navegar, encontrar amigos, postar nossos sonhos, comidas e atos. Não. Queremos atenção. Queremos curtidas. Queremos ser ouvidos.

No início da era das redes sociais, era tudo tão libertário. Uma nova realidade onde todos poderiam estar conectados. Pelo menos todos os que pudesse pagar por isso. Mas não haviam tantos filtros, não havia tanta segmentação. Havia uma ideia tênue de que a humanidade estaria finalmente em sintonia de comunicação.

Mas aos poucos fomos sendo cerceados. Os jovens fogem das redes conhecidas. Se reúnem em plataformas que lhes garantam estar entre os seus. A humanidade volta a se tribalizar. 

Tá bom, nunca deixou de ser uma reunião de tribos. Mas por segundos pareceu que não. 

Hoje bomba o snapchat. Se eu fosse definir diria que é o BBB virtual. É um local onde se pode expor nossas vidas já que daqui a segundos (ou 24 horas) aquilo vai virar pó. #SQN

Nada vira pó na internet. Muito menos a nossa necessidade de falar da nossa solidão. Porque na verdade quem vive de verdade, não tem lá muito tempo de ficar postando o que come, onde passeia, o que faz. Fora os que ganham dinheiro com isso - e não são poucos - os outros são mais ou menos como a senhora de quem falei no início: Na falta de quem escute ou conviva, precisa ser uma cachoeira de palavras para o primeiro que a escutar. Eu inclusive.


domingo, 1 de novembro de 2015

Meu primeiro assédio

Impressionantes os relatos que tenho lido de mulheres de todas as idades e posições sociais com a hashtag "meuprimeiroassedio" (ou também #primeiroassedio). O que mais me impactou não foram apenas os relatos, mas a quantidade e "coincidência" de atos. 

Fica escancarada a permissão para que os "machos" se sintam a vontade para cantar, passar a mão, expor seus desejos, gritar suas vontades, como se as mulheres, não importando a idade, estivessem ali apenas para satisfazer os seus instintos.

Mais cruel é ver como homens dito adultos, alguns com fama e talvez com algum tipo de educação formal, se sintam a vontade para expor a sua falta de empatia com as mulheres que foram vítimas e que se armaram de muita coragem para expor isso publicamente.   

Sim, é preciso coragem para expor algo que deveria envergonhar quem praticou, não quem sofreu. Isso mostra o quanto essa cultura que tudo permite aos homens é cruel. Meninas aprendem desde pequenas que devem se esconder, devem se resguardar, devem ser direitas e mudas. E sim, até hoje ainda aprendem isso.

O que vou contar são dois casos que nunca contei para ninguém. E me marcaram de maneira não agradável.

Quando eu tinha uns três anos costumava brincar com amiguinhos. Vizinhos de casa. Éramos como irmãos. Calor, no quintal da casa, todos de calcinhas ou cuecas. Crianças. Numa dessas horas, um deles, não lembro se mais velho, mas não muito, falou ao ouvido do meu amigo do peito algo. Os dois mais que ligeiros se aproximaram e baixaram minha calcinha. E riram muito. Ah, mas foi brincadeira de crianças, dirão alguns. Não. Para mim não. Me senti agredida. Não foi inocente. Não passou disso porque saí muito rápida e magoada. E não contei para ninguém. Alguém educou esses meninos para que assumissem que poderiam fazer isso. Alguém me educou para calar se algo assim acontecesse. 

Quando eu tinha uns dez anos morava já em Porto Alegre, ao lado da Catedral. Um dia subia a rua que era uma ladeira. Ouvi um homem adulto atrás de mim dizendo algumas palavras que não sabia o que eram, mas de alguma maneira intuía que não eram adequadas. Me lembro do susto e do passo apressado. Era dia e por isso acho que não passou disso, ele apenas repetia aquelas palavras que deviam lhe causar alguma espécie de prazer e que a mim assustavam. Corri para casa e para o dicionário para saber o que eram. Não pensei em repetir para mais ninguém. Em algum lugar da minha mente me ensinaram que era muito feio até para repetir.

Porque me armei de coragem para falar isso? Para não me eximir. Para não deixar em branco. Para que cada um pense sobre o que está passando ao seu filho pequeno quando o manda ser garanhão. Para que cada um reflita.