domingo, 30 de agosto de 2015

A verdade é urgente. E nada elegante

Quando uma foto fala por si. Conta história. A sua história.

Não importa se ela é real hoje, se já foi um dia. Ela entra no seu olhar, se instala por dentro do seu corpo. Te magnetiza e parece gritar para que voltes. Voltes a derramar a tua presença em algum tempo em que foste gente.

Ser gente. O que é isso mesmo? 

Tão esquecido em ser alguém outro. Alguém que corre. Alguém que faz. Alguém que noves fora se perdeu de si mesmo.

Perder de si. Tanto tempo a fazer pelos outros, tanto tempo a abdicar de gostos, vontades e desejos para ouvir, atender, dedicar. O resultado: uma certa falta de brilho no olhar. Uma quietude que não é harmonia. Uma mansidão que não é de alegria. Uma sensação de tanto fez como tanto faz. Afinal a vida é breve e meio sem sentido. 

Um dos primeiros sintomas dessa falta de sintonia com a vida é a falta de criatividade. Ou por outra: a criatividade existe, ela borbulha, fala ao ouvido. Falta é o tesão de colocar em prática. Aquelas ideias que invadem a mente, textos magníficos escritos na cabeça enquanto se caminha, se transformam em nada na frente de uma folha, de uma tela. Parece que perdem o sentido. Resultado: nada a dizer. 

Como assim, nada a dizer? Tudo a dizer. Essa lágrima que teima em cair te diz isso toda vez que fica só. Esse cansaço permanente, essa dor no peito. Tudo grita. Só a voz silencia. 

Talvez a foto que te chama queira dizer que exatamente isso: volta. Vem ser aquele eu que era pura verdade. Vem ser de novo aquela pessoa que sentia, que vibrava. Que ia atrás do queria. Que vivia. 

A gente bem que tenta passar adiante. Posta a foto de bom humor, de mensagem pra frente na rede social. Pura balela. 

Aquela foto que te magnetiza continua a te chamar. A verdade não é simpática nem elegante. Ela te esbarra. Te chama. Se passas em frente, ela volta e dá um encontrão. A verdade é urgente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Basta ter ideias

Frase de Neruda - escrever é fácil
Escrever é fácil, já dizia alguém que dominava a arte, um tal de Pablo Neruda.

Basta ter ideias para colocar entre a maiúscula inicial e o ponto final. 

Já para a Clarice Lispector não havia necessidade nem da maiúscula inicial. Bastavam as ideias que podiam começar com uma virgula e terminar com dois pontos e deixar que o leitor divagasse.

De repente me veio a ideia maluca que isso podia ser um contraponto de visões masculina e feminina. Ainda não suficientemente elaborada para que discorra sobre ela. Enfim, não importa como comece nem como termine. O que realmente importa são as ideias. 

Assim como na vida. Com a diferença que a vida é mais surreal e mais surpreendente que a literatura.

Pensem bem, se não fossem as ideias de cada um, todos os livros, enredos e vidas seriam iguais. Um começo e um fim. Pronto. Sem mágoas, sem depressões, sem paixões, sem revoluções. Apenas começo e fim. 

E bem sem graça também. Imaginem que nem haveria espaço para bibliotecas. Quem haveria de querer guardar uma sucessão de começos e fins? Talvez algum burocrata que viesse a fazer tratados de como começar e de como terminar. É, acho que ainda nos restaria alguma esperança de que esses tratados virassem ideias e recheassem os começos e fins.

O que me leva também a ter algumas ideias. Começar e terminar são processos relativamente simples. Ter ideias e fazer delas algo realmente interessante, nem que seja para nós, é outra história. Exige mais conteúdo, exige mais reflexão. Exige um posicionamento que faça de nossas ideias algo que mereça ser preservado.

Muito bonito para a história pessoal de cada um. Nossa vida e memória a preservam. Com sorte, algo que pensamos e fizemos fica também na vida e memória de alguém que a reconta. 

Para a literatura, para a História é um pouco diferente. As ideias tem que impactar mais pessoas. E além desse impacto, elas tem que ter cadência, tem que ter ritmo, tem que envolver e fazer com que sejam lidas. Se forem devoradas tanto melhor. Se forem recontadas, criticadas, faladas e propagandeadas se atingiu o sucesso.

Ideias. O mundo é feito delas. Impossível viver sem. Nem que seja para escrever um blog sem pretensão. Que dirá para viver.