quinta-feira, 7 de maio de 2015

Minha mãe

Minha mãe. 

Uma mulher com sonhos. Com um brilho especial no olhar. Com uma veia poética que escrevia poesias para a lua.

Uma mulher que fazia bolinhas de sabão no banho e cantava canções da infância que volta e meia me vem à lembrança. "Pedro Pereira Pinto! Pronto patrão! Pinto Pê na porta e no portão. Passo pelas ruas procurando um tal pintor pintando...." E a gente, pequena ainda, ria encantada com a ladainha.

Uma mulher cheia de classe mas que falava palavrão na hora certa. Uma mulher que estourava sacos de papel só para assustar quem estivesse ao lado. Uma mulher que andava quase sempre de saltos altos e perfume. Uma mulher em tudo fascinante.

Uma mulher que nos falava de uma infância mágica, com jogos de osso, banhos de sanga, quartos cheios de laranja e um pai em tudo maravilhoso. De sua mãe não tinha tantas lembranças. Uma mulher distante, que a deu para a irmã mais velha criar. Fez isso com o irmão mais novo também. Muitos anos depois fui descobrir porquê. 

Uma tarde, eu tinha uns 10, 12 anos, bateu em nossa porta um senhor. Foi conhecer as filhas da Dora, minha avó materna. Era o seu namorado de mocinha. Namorado de quem foi separada para casar com o Doutor, 30 anos mais velho. Meu avô, aquele pai maravilhoso. Talvez para ela nem tanto. 

Mas nas fotos que resgatamos, minha mãe sempre está em seu colo. Olhar severo e triste. Mulher valente que saia de arma na mão e enfrentava as constantes revoluções e perdas de filhos que encontrou pela vida. Morreu aos 42 anos. Septicemia. Não haviam descoberto a penicilina na época. 


Minha mãe perdeu tudo. Casa, pai e mãe. Irmãos separados. Uma história triste que foi cobrar seu preço em uma carência que se transformou em crises de pânico bem mais tarde. Ela superou também.

Na família de meu pai encontrou a sua, perdida. Nos ensinou que, apesar de tudo, o brilho no olhar não precisa ser perdido. A alegria de viver, de encontrar a felicidade nas coisas mais simples da vida. Como um banho com bolhas de sabão.

Companheira, leitora, participante, com firmes opiniões políticas e com personalidade própria. Em cima do salto alto. Era chamada de centopeia pelos gosto por sapatos. Talvez o seu jeito de superar os momentos em que não os tinha. 

Sempre elegante. Não importa se de gala ou de roupas bem simples mexendo na terra. 

Seu gosto pela vida nos legou uma herança. O amor que nosso pai nutria por ela até o fim de sua vida nos fazia ver uma mulher sedutora e única. 

Nesta foto minha mãe tinha a minha idade hoje. Ela que me gerou aos 32 anos, se achando velha naquele ano de 1957 em que a noção de tempo e juventude eram bem diferentes. Tinha medo que quando eu tivesse 20 anos ia achá-la velha....como se envelhecesse um dia. Mãe não envelhece. Fica clássica. 

Hoje, quase com 90, ainda usa batom. Não abriu mão da vaidade. Seu olhar. Mais triste, pela ausência do companheiro, ainda mantém o eterno brilho de vida que tanto me encanta. 

Obrigada mãe! 

Aprendi muito com a minha mãe e com a sua história. Falei sobre isso AQUI.



Fale sobre sua mãe (o nome dela, data e local de nascimento, os pais dela, etc.). Compartilhe algumas recordações que tem de sua mãe.
Projeto 52 perguntas em 52 semanas

2 comentários:

  1. Bela história de luta e superação. Parabéns.

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    1. Obrigada José Antonio. As irmãs Stein nos deixaram um legado bonito de resiliência e de alegria ao mesmo tempo. Beijos

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