domingo, 31 de maio de 2015

Das saudades que ficam para sempre

Tem aniversários que a gente não comemora. Partida, por exemplo. Aquelas que ninguém quer despedir. 

Pessoa que a gente ama não devia ir embora nunca. Pai e mãe deviam ser eternos. Ficariam sempre cristalizados como aqueles seres fortes, nossos heróis eternos. Nosso ponto de apoio. Nosso porto seguro.

Mas não. Se temos a sorte de tê-los junto com a gente por muitos e muitos anos, vamos passando a transição. 

Eles vão perdendo a força física. Seus cabelos vão se indo, ou vão se tornando branquinhos como a neve. Suas mentes ágeis começam a falhar. Perdem memórias. Mas nunca o amor por nós. E o nosso por eles só cresce. 

Viramos pais e mães deles. Apoiamos quem nos guiava. Talvez nem sempre com a mesma paciência. Não, nunca chegaremos a ser tão amorosos como foram conosco. 

Um dia temos que dar o adeus. Ou o até breve. Vai lá se saber. Pode ser que um dia a gente se reencontre. Mas por agora, no hoje, no aqui, fica a saudade.

Primeiro o estado de choque. A gente se imagina forte. Disse que desapegou. Disse palavras bonitas. Viu a luz que iluminou um ambiente de doença.

Descansou. Aquelas palavras que a gente se diz para se acalmar o coração.

Passa o tempo e vem o choque. A dor se transforma em raiva. A gente quer ir junto. Chora choro magoado, vira criança pequena querendo um colo que já não está lá. 

Depois fica se culpando. Do que fez, do que não fez. Por ter feito demais. Por não ter estado junto na hora mais importante.

Fica vivendo umas coisas estranhas. Sente a presença. Primeiro mais forte. depois vai ficando mais distante.

Vai vivendo como se o tempo e espaço se fundissem. Vive o passado junto com o presente. Difícil explicar, só sentindo.
 
E a saudade vai fazendo seu caminho. De dor vai virando uma coisa lá dentro.

Não que não doa. Não que a gente não chore. Mas vai virando uma presença dentro da gente. Aquela presença que sempre esteve.

Foi para isso que eles nos criaram. Para sobreviver. Para levar a vida adiante. Para sorrir e amar como eles fizeram.

Saudades Pai. Faz um ano em tempo físico que nos separamos.

Separamos? Nunca. Tu sempre vai estar aqui. Perto. Dentro. Na minha vida e no meu coração. 

 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Guria esquisita

Desde pequena eu sempre fui meio aquela guria esquisita. Sabe como é? Não?  O que seria alguém esquisito?
Esquisita
Por Dicionário inFormal (SP) em 17-09-2013


1. Fora do comum, fora do padrão
2. Que é difícil de entender, complicado
3. Que apresenta um comportamento diferente do normal
4. Inoportuno
5. Excêntrico, extravagante

" E se me achar esquisita, respeite também"
O meu esquisito não é bem enquadrado em nenhuma dessas definições acima. Não sou fora do comum, muito antes pelo contrário. Não tenho um comportamento anormal. Também acho que não sou inoportuna nem extravagante. 

Tudo bem, eu passei batido sobre o complicado. Talvez aí a minha esquisitice. Um jeito meio complicado de ver o mundo. Ou pelo menos de difícil entendimento por quem estava ao meu lado.

Eu via as coisas diferentes. Não, eu não via coisas. Embora sentisse algumas vezes. Não era nada sobrenatural desse tipo.

A realidade que para alguns era A. Ou B. Para mim era A,B,C, X, Y, Z ou nada disso. Ou tudo junto. 

Mas tudo bem. O difícil foi achar uma tribo. Talvez na verdade nunca tenha procurado por uma. Nunca me enquadrei. Embora não fosse rebelde.

Enfim, não importa bem me definir porque cada um tem o seu jeito de ser. E se conhecer faz parte do crescimento e maturidade. O que importa é essa minha Ipseidade de ser me trouxe.

Primeiro uma baita complicação na adolescência. Se adolescer já é complicado sendo mais ou menos normal, sendo esquisita e muito sensível é um eterno ioio de emoções. Segundo, anos e anos de terapia e leituras. Para enfim me aceitar. Porque essa é a lição maior de todas. Aceitação.

Se ainda vejo as coisas diferentes da maioria das pessoas que me cercam. Sem dúvida! Mas também bem parecido com um monte de gente, tão esquisita que nem eu. Acho que enfim achei minha tribo. A diferença é que eles não se reúnem em bandos e nem tem uma característica física em comum. 

A gente se reconhece por um sinal que não se explica. Um sinal de olhar. De sentir.

Dá para ser elegante sendo esquisita? Creio que dá porque me julgam assim. Talvez até por isso. Vá lá se saber. Eu continuo pensando  vendo muita coisa diferente da maioria das pessoas....  


"E se me achar esquisita,respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Eu sou uma pergunta." Clarice Lispector


domingo, 17 de maio de 2015

Não abro não

HMe deu uma saudade da oficina de versos em fogo. Poetar com as amigas sobre coisas que se fala não. Deixar a mente voar, não importa se nas coisas que se viveu, nas que se imaginou. Ou apenas naquela inspiração que vem da alma. Tudo bem, sei que não devia me atrever nas rimas. 
Pensando bem, devia me atrever em tudo. Então que saia de mim 


Não me vem com cara de neném
De garoto pidão
Não abro não
Não importa seus amo-te
Quando não quero
Não tem senão
Não abro não
Tem dias que sim
Pura vontade, precisão
Tem outros que não
Coisa de mulher
Repare não
As vezes nem contigo é
Muitas sim
Coisa de hormônio
Vá lá se saber.
Fêmea é animal esquisito
Sangra com a lua
Tem amuos
Tem lassidão
E tem dias que abre não
Não é dor de cabeça
Não é má vontade
Talvez falta dela
Talvez apenas 
Outra coisa que se perca da vida 
Coisa de mulher
Não tem explicação. 
(Elenara Leitao) 2015 - maio

sábado, 9 de maio de 2015

Malamem



O dia começava ligeiro. Café cheirando gostoso na cozinha, celular uatizapeando a mil. Noite bem dormida. Ufa! Ah quanto tempo isso não acontecia....

Insone de meses, talvez anos. Era nessas horas da madrugada que aquele medo ancestral vinha mais forte a lhe atormentar. O tal do Malamem.

Não o conhecia nem sabia como era. Mas sabia bem do medo que sempre tivera dele. Bastava ouvir o seu nome para seu corpo vibrar, misto de pavor e curiosidade.

Sempre o vira como um cara meio bexiguento, nem alto nem baixo, com cheiro de inverno. Talvez cheiro de vento cortante. E lá vento tem cheiro, menino? Deixa disso, fecha essa janela e vai dormir. Sempre ouvira essa milonga quando pequeno. Nas noites de lua cheia quando abria os vidros e procurava o talzinho. Tinha então aquela coragem que só habita os corações puros. No fundo pura bravata de menino criado para ser macho.

Mas o que! Os anos passaram ligeiros. A vida lhe tomou de assalto. Aos poucos a antiga inocência de olhar o mundo de alma franca foi-se perdendo, foi-se escondendo. Dores. Perdas. Amigos que se revelaram traidores. Ele mesmo que baixou as guardas. Deixou-se levar pelas facilidades de fechar os sentidos.

Fechou os olhos para si mesmo. Mas nunca esqueceu o tal do Malamem. Em alguma esquina da vida devia estar por lá, lhe esperando, de tocaia. 

Dele fugia como o capeta foge da água benta. Do resto até que não. 

Viveu uma vida boa. Fez o que quis. Quase tudo, é verdade. Que só consegue fazer de tudo quem está acima do bem e do mal. Ele ainda não. Ainda seguia regras. Mesmo quando as deixava de lado.

O branco dos cabelos deu-lhe um ar mais respeitoso. Era esquisito, aquele velho lhe olhando do espelho. Não o reconhecia. Não cabia nos seus sonhos. Não se encaixava no menino que ainda lhe restava.

Pernas cansaram. Mas quem lhe passou a perna foi o coração. Justo aquele que sempre fora tão conselheiro. Talvez até por isso. Bateu tão forte que saiu do ritmo. Bandido! Não era hora! Faltava ainda tanto por descobrir....

Naquela hora do ajuste, ainda meio sem entender, corpo pouco a pouco sendo desligado, ainda conseguiu em um momento de lucidez longínqua escutar uma voz que dizia ansiosa e esperançosa ao seu lado:

....e livrai-nos do mal, amém 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Minha mãe

Minha mãe. 

Uma mulher com sonhos. Com um brilho especial no olhar. Com uma veia poética que escrevia poesias para a lua.

Uma mulher que fazia bolinhas de sabão no banho e cantava canções da infância que volta e meia me vem à lembrança. "Pedro Pereira Pinto! Pronto patrão! Pinto Pê na porta e no portão. Passo pelas ruas procurando um tal pintor pintando...." E a gente, pequena ainda, ria encantada com a ladainha.

Uma mulher cheia de classe mas que falava palavrão na hora certa. Uma mulher que estourava sacos de papel só para assustar quem estivesse ao lado. Uma mulher que andava quase sempre de saltos altos e perfume. Uma mulher em tudo fascinante.

Uma mulher que nos falava de uma infância mágica, com jogos de osso, banhos de sanga, quartos cheios de laranja e um pai em tudo maravilhoso. De sua mãe não tinha tantas lembranças. Uma mulher distante, que a deu para a irmã mais velha criar. Fez isso com o irmão mais novo também. Muitos anos depois fui descobrir porquê. 

Uma tarde, eu tinha uns 10, 12 anos, bateu em nossa porta um senhor. Foi conhecer as filhas da Dora, minha avó materna. Era o seu namorado de mocinha. Namorado de quem foi separada para casar com o Doutor, 30 anos mais velho. Meu avô, aquele pai maravilhoso. Talvez para ela nem tanto. 

Mas nas fotos que resgatamos, minha mãe sempre está em seu colo. Olhar severo e triste. Mulher valente que saia de arma na mão e enfrentava as constantes revoluções e perdas de filhos que encontrou pela vida. Morreu aos 42 anos. Septicemia. Não haviam descoberto a penicilina na época. 


Minha mãe perdeu tudo. Casa, pai e mãe. Irmãos separados. Uma história triste que foi cobrar seu preço em uma carência que se transformou em crises de pânico bem mais tarde. Ela superou também.

Na família de meu pai encontrou a sua, perdida. Nos ensinou que, apesar de tudo, o brilho no olhar não precisa ser perdido. A alegria de viver, de encontrar a felicidade nas coisas mais simples da vida. Como um banho com bolhas de sabão.

Companheira, leitora, participante, com firmes opiniões políticas e com personalidade própria. Em cima do salto alto. Era chamada de centopeia pelos gosto por sapatos. Talvez o seu jeito de superar os momentos em que não os tinha. 

Sempre elegante. Não importa se de gala ou de roupas bem simples mexendo na terra. 

Seu gosto pela vida nos legou uma herança. O amor que nosso pai nutria por ela até o fim de sua vida nos fazia ver uma mulher sedutora e única. 

Nesta foto minha mãe tinha a minha idade hoje. Ela que me gerou aos 32 anos, se achando velha naquele ano de 1957 em que a noção de tempo e juventude eram bem diferentes. Tinha medo que quando eu tivesse 20 anos ia achá-la velha....como se envelhecesse um dia. Mãe não envelhece. Fica clássica. 

Hoje, quase com 90, ainda usa batom. Não abriu mão da vaidade. Seu olhar. Mais triste, pela ausência do companheiro, ainda mantém o eterno brilho de vida que tanto me encanta. 

Obrigada mãe! 

Aprendi muito com a minha mãe e com a sua história. Falei sobre isso AQUI.



Fale sobre sua mãe (o nome dela, data e local de nascimento, os pais dela, etc.). Compartilhe algumas recordações que tem de sua mãe.
Projeto 52 perguntas em 52 semanas

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cadê as pessoas de verdade?


Felizes, vencedores, atletas e inteligentes! 

Céus, cadê as pessoas de verdade? 

Me lembra aquela poesia de Fernando Pessoa, todos príncipes e princesas pela vida. Todos superando tudo, engolindo pequenezas, vomitando verdades. 

Até eu aprendi a fórmula facebookiana de ser seguida e perseguida pelas curtidas da vida. Aparentar felicidade. 

Mas não. Eu não sou sempre feliz. Não, eu não perdoo sempre. 

Sim, eu sinto mágoas. Eu penso migalhas. Eu desejo males.

Minha aparente tranquilidade esconde mundos de inquietações. Minha força que alguns insistem em ver é a impossibilidade de delegar para alguém. Resta enfrentar. 

Minha mente é um turbilhão de pensamentos. Alguns bons, outros nem tanto.

Sim, eu sei que existe gente em situação bem pior. E nem preciso me lembrar do Nepal ou da África. Aqui bem perto existe gente sem teto, sem comida. Sem saúde. Sem nada. 

Sim, isso me serve de combustível para seguir.

Mas esse seguir não significa que eu seja uma eterna personagem da Disney, com um sorriso estampado, dizendo bom dia, boa tarde, boa noite como um Truman da vida. 

Cadê os seres humanos normais? Cadê os que xingam, os que são mistura de fel e doce? Cadê a vida dos que não são sinônimo de perfeição? 

Cadê a palavra que fica além do discurso dos vencedores? 

Losers da vida, erguei-vos!


sábado, 2 de maio de 2015

1957 - Grande safra e grandes memórias - (minha visão)


Hospital Bruno Born- Lajeado -RS
Nasci no Hospital Bruno Born em Lajeado, no estado do Rio Grande do Sul. 
É uma das poucas coisas que sei sobre a cidade onde nasci. Minha família se mudou para lá, em função do trabalho de meu pai. Acho que já moravam na cidade há uns seis anos quando me encomendaram. 

Assim vou tentar continuar com o desafio das 52 perguntas em 52 semanas falando o pouco que sei sobre Quando e onde você nasceu? Descreva sua casa, sua vizinhança e a cidade onde cresceu.

Minha casa. Minha primeira casa. Meus pais construíram essa casinha simpática para a sua família de quatro pessoas. Eles e meus dois irmãos. E mais os primos que iam morar ali para estudar. As histórias da minha cidade natal conheço pelas lembranças deles. Nossa casa, hoje uma imobiliária (veja foto acima), em quase tudo permanece igual. Talvez sem a horta que minha mãe sempre fazia em suas casas. E cujas sobras, minha irmã mais velha vendia de porta em porta, já antevendo a futura empresária de vendas. Morei pouco tempo nela. Em dois anos nos mudamos para Novo Hamburgo, seguindo a carreira de meu pai. Carreira brilhante, diga-se de passagem.
Minha mãe e minha irmã em frente da garagem da casa
Muitas e muitas vezes mudei de casa e cidade. E se não fiquei com memórias de vizinhança da mesma cidade, tenho um especial carinho pelo ano em que nasci.

Ano 1957. Sou da geração dos Baby Boomers. A turma que foi gerada depois da segunda guerra mundial. A geração dos pais que viram a morte passando pelo mundo. A geração que foi criada para ser muito. 

Diria que foi um ano que gerou uma grande safra. O mundo começava a mudar. A perspectiva de uma Terra com fronteiras parecia que ia se ampliar com o começo da era espacial.
Embora o espaço acenasse com uma infinidade de possibilidades, era uma guerra que impelia essa conquista. Russos e americanos disputavam o que se chamava de Guerra Fria. Além da terra, os céus eram objeto de disputa. E para satisfazer os orgulhos e alcançar o poder, Laika era usada como ícone da modernidade. Imolada em sacrifício que, na época, nem era pranteando. 
A moda era glamourosa. Os anos pós guerra começavam a gerar mais empregos, as economias começavam a reagir, os anos de penúrias ficavam para trás e a moda acompanhava isso.

E no final da década, a rebeldia que seria a tônica dos anos 60 começava a se mostrar. Os corpos se desnudavam e uma mocinha francesa chamada Brigitte Bardot começava a se tornar um ícone usando biquínis. 
Mas as mulheres ainda eram as Rainhas do Lar. As propagandas enfatizavam um retorno ao trabalho doméstico para que os homens pudessem ter seus empregos de volta. Na época da guerra, quando os soldados estavam no front, as mulheres tiveram que ir à luta. Não apenas para prover a casa, mas para abastecer a indústria bélica. Acabada a Guerra, era necessário que essas mesmas mulheres deixassem suas vagas para os homens que voltavam. A indústria da propaganda entrou em ação. Era esse mundo, onde mulheres sorridentes e bem vestidas, reinavam em suas casas, usufruindo de modernos eletrodomésticos e facilidades para os serviços domésticos, que recebeu uma menina cujo futuro, na ocasião, devia ser imaginado como entrando nesses rótulos
Não, não estou me baseando em pesquisa para escrever essa postagem. Apenas à minha memória. Foi assim que entendi a história do meu ano de nascimento. É a minha versão. Um ano de aparente tranquilidade, mas que encerrava as sementes de um imensa transformação que ia acontecer no mundo. Talvez sejam também a semente da minha tranquilidade inquieta. Uma convivência entre o olhar analítico sobre o passado e outro, inquiridor e utópico, para o futuro.