sábado, 4 de abril de 2015

Ausência de um tempo feliz

Se há algo que ainda nos une como ser humanos é a certeza da finitude. 
E dentro dessa perspectiva da morte, o que talvez mais nos abata seja a falta das pessoas que amamos.
Não importa se em palácios de governo ou nas favelas mais pobres, perder alguém que nos importa, é facada no peito. É dor doída, é grito imenso.
Há mortes e mortes. Há mortes que vem ao fim de uma longa vida. E aí todos vem em grupo dizendo: viveu bastante, né. E a gente concorda tentando se consolar. Como se vida fosse contada em anos ou tivesse uma métrica para mensurar a falta.
Há mortes que vem mais cedo, mas são consequência de escolhas. Morreu fazendo o que gostava. Viveu 10 anos a mil. Também são desculpas que fazemos a nós mesmos. Talvez funcionem na nossa mente mais pragmática. A que tenta raciocinar. Embora o cérebro límbico, a humana paixão não se deixe enganar por elas.
Há mortes sem sentido. Mortes de quem nem teve chance de escolher. Mortes por estar no local errado, na hora errada. Por ter nascido em lá e não aqui.
Nenhuma afinal tem dimensão. Nenhuma é mensurável.
Morte é doida sempre. Ponto final.
Traz saudade.
Traz ausência. 
Ausência de um tempo feliz.
Um tempo com para quem vive hoje um tempo sem.
E aí entram as lembranças. Doces mas melancólicas. 
Sinto isso vendo um vídeo lindo. Beleza sempre foi uma coisa que aprendi com ele.
Sinto isso com tecnologia. Um celular novo que fala comigo. Como ele ia amar isso! Chego a escutar sua voz de surpresa e curiosidade.
Sinto isso ao comer uma comida boa, ao tomar um bom vinho. Hedonista na vida, ele fez o que o seu coração mandava. E sempre pensou nas pessoas que amava.
Sinto isso ao receber bem. Ele que sempre foi anfitrião e adorava ajudar.
Sinto isso ao chorar de saudades. Ele que sempre se emocionava e chorava também.
Não, a dor de perder alguém que se ama não é maior ou menor para ninguém. Amor é amor. É ainda o que nos faz apenas o que somos. Humanos. 
Que saibamos honrar nossos mortos sendo menos mesquinhos e mais generosos. 
E talvez assim, um pouquinho deles esteja dentro de nós. Para sempre. 

Um comentário:

  1. A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.
    Desconhecido

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