segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Capacidade de enfrentar algo nos momentos difíceis - Domino

Alguém já me disse que a gente conhece a própria força quando é defrontado com os momentos difíceis da vida.  Mais ainda quando esses momentos se sucedem em um ritmo maior que a nossa capacidade de renovação. 

Eu sempre soube que tinha essa capacidade de enfrentar algo nos momentos difíceis, de urgência, de extrema necessidade. A primeira vez que senti isso foi quando era muito pequena. Era um novembro frio, desses do Rio Grande do Sul. Toda a família na praia, comemorando o aniversário de casamento de meus pais. Uma areia fina na praia, todos se foram para casa, preparar o almoço. Fiquei eu, meu pai, meu tio. Eles apostaram corrida, corpo aquecido entraram no mar gelado. Meu tio saiu logo. Meu pai não. Não me lembro bem do mar, mas me lembro dele deitado na areia. Depois levantando e indo para casa. Me pediu que o guiasse. Falava com voz arrastada, seus pés sangravam do arrastar nos paralelepípedos. E eu o guiava, aquele homem de 40 anos, eu com quatro ou cinco, pela mão. Soube depois que tinha tido um choque. Segundo o médico, sua sorte foi não ter ficado deitado na praia. Segundo meu pai, ele não ficou ali, apesar da imensa necessidade para não me assustar. Sorte? Providência divina? Aprendi que sempre existe uma força a mais nessas horas.

Pela vida afora eu sempre me dei conta que na minha fragilidade tenho uma qualidade boa. Sou uma pessoa que sabe manter a calma em uma hora de perigo. Seja para desligar o gás se o fogão pega fogo, seja para chamar a ambulância e fazer todos os trâmites se uma pessoa querida passa mal, seja para ter a calma de fazer planos se me acho mal de saúde. Nessas horas não choro, não perco o raciocínio, não fujo. 

Sim, fugiria se tivesse alguém em quem colocar a ação. Sim, desmoronaria se tivesse alguém que fizesse por mim. Minha resiliência vem da necessidade. Custa energia. Uma puta energia que cobra a conta depois. Mas na hora agá, na hora da precisão, se me chamarem, estou aqui.

E sim, a boa madeira vai se mostrando com a força do vento. A gente vai aprendendo a conhecer a própria força. A mesma força que me falta - ou não uso - para a vida cotidiana. Não sou a empreendedora que enfrenta moinhos, não sou a pessoa destemida que fala com estranhos. Tenho medo das pessoas no dia a dia. Mas se a vida me coloca a prova de maneira peculiar, não fujo à luta.

Receita? Acho que aprendi com o exemplo de casa - melhor lição que existe. Meus pais sempre foram assim. Do jeito deles. Um mais otimista, outra mais pessimista. Mas guerreiros. O que um não podia enfrentar, o outro assumia. E sempre sem dramas. 

Quando minha avó teve câncer e era incurável na época, minha mãe, sua nora (mas filha de coração) enfrentou a notícia que o médico achou que meu pai não aguentaria. Quando a primeira filha de meu irmão morreu, com uma semana de vida, meu pai estava junto em algo que a minha mãe não aguentaria. Ele chorou junto, mas nunca desmoronou. 

E acho que a resiliência é isso: enfrentar sem desmoronar. Pelo menos na hora. Pensando bem, depois também não, porque se a gente aguentou na hora da tempestade, não é na praia que vai morrer, não é verdade?  

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